Financiamento

BC: 26% da carteira de crédito foi renegociada na pandemia

Classe média e pequenas empresas concentram a maior parte dos pedidos para repactuação de cobrança de dívidas. Banco Central, contudo, vê um aumento da inadimplência após o fim do programa que permitiu a prorrogação de parcelas

Marina Barbosa
postado em 15/10/2020 14:20
 (crédito: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(crédito: Valdo Virgo/CB/D.A Press)

O Banco Central (BC) calcula que 26% da carteira de crédito brasileira foi renegociada por meio da prorrogação de parcelas autorizada na pandemia de covid-19. A autoridade monetária teme, no entanto, que a inadimplência dispare após o fim do programa, já que muitos consumidores podem não ter condições de voltar a pagar essas parcelas no fim do ano. Por isso, o BC acredita que as provisões contra o risco de calote vão continuar pressionando a rentabilidade dos bancos brasileiros.

O Relatório de Estabilidade Financeira (REF) do primeiro semestre deste ano, divulgado nesta quinta-feira (15/10) pelo BC, revela que "em junho de 2020, o estoque de operações repactuadas a partir de março representava cerca de 26% da carteira bancária doméstica". É o equivalente a R$ 939 bilhões. Por isso, o programa de repactuações também foi classificado como um dos mais significativos no sentido de "salvaguardar a estabilidade financeira dos efeitos negativos da Covid-19, com benefícios para as famílias, as empresas não financeiras e o SFN [Sistema Financeiro Nacional]".

O programa permitiu que os bancos adiassem a cobrança das parcelas dos financiamentos bancários daqueles clientes que tinham um bom histórico de pagamento, mas foram atingidos financeiramente pela pandemia de covid-19. E, segundo o BC, foi usado principalmente pela classe média e pelas pequenas empresas. "As repactuações ocorreram principalmente no crédito a pessoas físicas com rendimento mensal até cinco salários mínimos, aproximadamente 30% da carteira repactuada; e no crédito a empresas de
micro e pequeno porte, com cerca de 35% da carteira repactuada", informou o REF.

Já em termos de tipo de crédito, o maior uso diz respeito ao financiamento da casa própria. "Quase 50% do crédito imobiliário do sistema financeiro nacional sofreu algum tipo de repactuação. Mas também consignado, veículos, em torno de 10% a 15% das carteiras foram beneficiadas", contou o diretor de Fiscalização do BC, Paulo Souza, ao falar sobre o crédito às famílias na apresentação do Relatório de Estabilidade Financeira.

Inadimplência represada

Para o BC, o programa de renegociações deu um fôlego aos consumidores e às empresas brasileiras na pandemia de covid-19. Porém, também pode ter represado o aumento da inadimplência. Por isso, já prevê que o volume de calotes vai crescer após as repactuações, que vão até o fim deste ano.

"Apesar de as repactuações permitirem um fôlego financeiro aos tomadores impactados pela pandemia, é esperado que parte desses tomadores não consiga honrar os termos dos contratos repactuados quando as carências se encerrarem, a depender da extensão e dos efeitos da crise. Com isso, uma deterioração da qualidade da carteira deve materializar-se no segundo semestre de 2020 e no início do próximo ano, levando ao aumento do nível de ativos problemáticos", frisou o Relatório de Estabilidade Financeira.

O documento acrescentou que "no primeiro semestre de 2020, houve uma piora no risco da carteira de crédito doméstica, consequência dos efeitos econômicos da pandemia da Covid-19 na capacidade de pagamento dos tomadores". E alertou que "essa deterioração da qualidade da carteira tende a se acentuar no próximo semestre, à medida que se encerrem as carências concedidas pelas IFs nas operações de crédito repactuadas, e os pagamentos das prestações voltem a ser exigidos".

O BC argumentou que ainda há muitas incertezas sobre o cenário econômico em 2021, sobretudo após o fim de estímulos como o auxílio emergencial, o que gera dúvidas sobre a capacidade de pagamento dos consumidores que repactuaram seus financiamentos bancários na pandemia. E disse que, por isso, o mercado financeiro já "elevou significativamente sua percepção de risco com a inadimplência", apesar de considerar adequadas as medidas adotadas pelo Banco Central para mitigar os efeitos econômicos
decorrentes da Covid-19.

Paulo Souza admitiu que deve haver um aumento de inadimplência no primeiro trimestre de 2021. Porém, avaliou que os calotes não devem chegar ao mesmo nível da crise de 2015. Naquela ocasião, a inadimplência bateu o recorde de 4%. Ele alegou que, apesar do choque sofrido no início da pandemia, a economia brasileira tem reagido melhor do que o esperado nas últimas semanas.

"Em função dos últimos dados, a gente não deve atingir o que aconteceu em 2015 e 2016, quando os ativos
problemáticos atingiram 8,5% e a inadimplência ficou um pouco acima de 4%. Hoje, a inadimplência está em 2,5%. No pior cenário, haveria o retorno a essa faixa de 4%", avaliou.

O diretor do BC ressaltou, contudo, que não acredita no retorno a esse pico de 4%. Souza explicou que a prorrogação de parcelas só foi permitida para os clientes que tinham bom histórico de pagamento, o que mitiga um pouco do risco de inadimplência, e contou que o BC não vem observando problemas nos pagamentos dos financiamentos que já não estão mais pausados.

"No cenário base, acreditamos que deve ser inferior ao que aconteceu na crise de 2015 e 2016. Acredito que deve ficar no patamar enter 3% e 4%. É o cenário que trabalhamos a partir do momento em que tiver o encerramento das medidas", reforçou.

Provisões

O BC ainda destacou que, mesmo que a inadimplência volte aos 4%, os bancos estão preparados para assegurar a estabilidade financeira. Afinal, elevaram suas provisões em quase 80% no primeiro semestre deste ano para se prevenir de possíveis calotes. Com isso, o índice de cobertura dos ativos problemáticos chegou a quase 90%, aproximando-se do recorde da série histórica do BC. "As provisões têm sido suficientes para honrar o cenário de perdas esperadas", cravou o diretor de Fiscalização.

Ainda assim, Souza acredita que as despesas com provisões, que já somaram R$ 65 bilhões no primeiro semestre deste ano, devem continuar em nível elevado ao longo deste segundo semestre. Por isso, o diretor do BC avaliou que os bancos brasileiros devem fechar o ano com um lucro entre R$ 80 bilhões a R$ 85 bilhões, cerca de 30% menor que o observado em 2019.

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