Crédito

Com juros altos, rotativo do cartão e cheque especial perdem espaço

Segundo o BC, o auxílio emergencial e programas emergenciais de crédito têm ajudado a reduzir o uso do rotativo e do cheque especial entre as famílias e as empresas brasileiras

Marina Barbosa
postado em 26/10/2020 14:07
 (crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
(crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

O crescimento da carteira de crédito brasileira tem sido puxada pelas modalidades de financiamento que custam menos para as famílias e para as empresas brasileiras. Prova disso é que o uso do rotativo do cartão de crédito e do cheque especial tem caído, segundo dados apresentados nesta segunda-feira (26/10) pelo Banco Central.

O rotativo do cartão de crédito e o cheque especial têm os juros mais altos do mercado de crédito brasileiro. Em setembro, por exemplo, a taxa média de juros do crédito caiu de 18,6% para 18,1% ao ano. A do cheque especial, porém, subiu de 112,9% para 114,2% ao ano. A do rotativo do cartão de crédito até recuou, mas continua bem acima dos 300% ao ano: 309,9% em setembro, ante 310,2% em agosto.

Ainda assim, esses instrumentos costumam ser amplamente utilizados pelos brasileiros, já que são de fácil acesso. Por isso, respondem pela maior parte das dívidas das famílias brasileiras. E como muitas dessas dívidas viram uma bola de neve por conta dos juros altos, a taxa de inadimplência média do crédito bancário, que recuou para a mínima histórica de 2,4% em setembro, sobe para 38,6% no caso do rotativo e para 15% no cheque especial, segundo o BC.

Nos últimos meses, contudo, o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial têm sido menos utilizados pelas famílias brasileiras. Dados apresentados nesta segunda-feira (26/10) pelo BC revelam que o saldo do rotativo do cartão de crédito caiu 2,8% em setembro e 7,4% no acumulado deste ano. Já o uso do cheque especial caiu 1,6% no mês e 19,2% no ano entre as pessoas físicas.

O saldo do cheque especial também contraiu entre as empresas brasileiras, com uma retração de 6,4% no mês passado e de 33,1% no ano. Já o uso do cartão de crédito rotativo e parcelado até cresceu 6,8% entre as pessoas jurídicas no mês, mas ainda acumula uma retração de 33,3% no ano neste segmento.

"Algumas condições do cenário atual favorecem a mudança na procura por créditos de custos mais elevado. Embora de fácil acesso, as famílias, por um lado, tiveram menor necessidade de recursos por essas modalidades e as empresas, por outro lado, tiveram acesso maior a crédito de custo mais baixo", analisou o chefe adjunto do Departamento de Estatísticas do Banco Central (BC), Renato Baldini.

Ele disse que, no caso das famílias, essa redução pode ser explicada pela a injeção de renda provocada pelo auxílio emergencial. "À medida que a família recebe o auxílio, uma parcela dessa auxílio ajudou a cobrir saldos devedores em muitos casos. Em outras situações, as famílias que se utilizavam do saldo devedor no cheque especial para realizar eventuais pagamentos, deixaram de usar isso com a vinda de recursos adicionais. Então, a necessidade de utilização do cheque especial diminuiu", esclareceu Baldini.

Já no caso das empresas, o representante do BC creditou a redução no uso dessas modalidades de crédito ao lançamento de outros programas de crédito, de custo mais barato. Ele lembrou que, na pandemia, o governo e os bancos brasileiros implementaram programas emergenciais de crédito, como o Pronampe. E disse que foi mais vantajoso para as empresas procurar esses programas, que têm juros limitados, do que usar o cartão de crédito e o cheque especial, que custam mais caro.

"No caso das empresas, a menor procura às modalidades de crédito rotativo, que costumam ter acesos facilitado, é um indicador de sucesso dos programas que buscaram atingir os pequenos empresários, que passaram a ter uma modalidade de crédito de custo mais baixo", afirmou Baldini. Segundo o BC, o saldo desses programas de crédito direcionado disparou 14,5% em setembro e 61,6% no ano entre as empresas brasileiras. As concessões somaram R$ 19 bilhões só em setembro. Por isso, o saldo desse tipo de crédito já chega a R$ 144,6 bilhões.

Cartão de crédito à vista

O BC destacou também que, por outro lado, o uso do cartão de crédito à vista tem sido retomado nos últimos meses. Só em setembro, o saldo dessa modalidade cresceu 4,7%. Nos últimos três meses, o crescimento foi de 16,3%. Segundo Baldini, esse é um reflexo da retomada das vendas do comércio.

Enquanto o rotativo representa as dívidas que não são pagas em dia no cartão, o crédito à vista representa aquelas compras que são feitas no cartão em uma única parcela e devem ser pagas na fatura do mês seguinte. "Corresponde ao uso do cartão em realização de compras. Compras realizadas no mês cujo vencimento vai acontecer no outro mês, sem juros. É um importante indicador de recuperação das vendas do comércio", comentou Baldini.

No ano, contudo, o uso do cartão à vista ainda acumula uma retração de 9,3%, devido ao baque sofrido no início da pandemia de covid-19, quando o isolamento social e a crise econômica reduziram o uso do cartão e o consumo das famílias brasileiras.

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