Juros

Para Campos Neto, alta da Selic não teve relação com autonomia

Segundo presidente do BC, autoridade monetária sempre agiu de forma autônoma: "Nunca teve questionamento do presidente da República sobre subida de juros"

Marina Barbosa
Rosana Hessel
postado em 25/03/2021 14:37 / atualizado em 25/03/2021 14:47

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de elevar a taxa básica de juros (Selic) para além das expectativas do mercado não foi um reflexo do recém-sancionado projeto de autonomia do Banco Central (BC), de acordo com o presidente da autoridade monetária, Roberto Campos Neto.

Segundo Campos Neto, o BC sempre atuou de forma autônoma na condução da política monetária, mesmo antes da aprovação da autonomia do BC. "Sempre tivemos autonomia ampla, nunca foi questionado. A subida de juros não tem relação com a autonomia", afirmou o presidente do BC, ao ser questionado sobre o assunto. "Nunca teve questionamento do presidente da República sobre subida de juros", reforçou o ministro, nesta quinta-feira (25/3), durante a apresentação virtual para jornalistas do Relatório Trimestral de Inflação (RTI).

Na última reunião, a primeira após a sanção da autonomia do BC, o Copom elevou a Selic de 2% para 2,75% e ainda antecipou uma alta da mesma magnitude em maio. O aumento surpreendeu o mercado, cuja maioria projetava uma alta de 0,5 ponto percentual dos juros. Campos Neto garantiu, por sua vez, que a medida visa exclusivamente ao controle da inflação.

“A promoção da autonomia foi um ponto a mais de conforto para o Copom decidir aumentar o juro no teto das projeções”, justificou o ministro. “Nós trabalhamos de forma autônoma em toda comunicação, todas as entrevistas, todas as mensagens que eu tenho passado, eu tenho dito que a única forma que eu entendo de trabalhar no Banco Central com autonomia”, destacou. “A subida de juros não tem nenhuma relação com autonomia”, frisou ele.

No RTI, o BC elevou de 3,4% para 5% a projeção de inflação deste ano. A revisão coloca a inflação bem perto do teto da meta deste ano, que é de 5,25%, e se deve à alta das commodities e do dólar. "Na avaliação do Comitê, a estratégia de ajuste mais célere do grau de estímulo tem como benefício reduzir a probabilidade do não cumprimento da meta de inflação neste ano e manter a ancoragem", comentou o presidente do BC, citando a ata do Copom.

Campos Neto ainda falou que um conjunto importante de informações acerca da elevação de preços das commodities veio à tona nas semanas que antecederam a reunião do Copom, o que fez o Comitê calibrar para cima o ajuste da Selic. "Teve uma alta importante das commodities lá fora. Fazer mais e fazer mais rápido faz com que a intensidade total seja menor e tem um efeito importante na ancoragem das expectativas de longo prazo", afirmou o presidente do BC, garantindo, ainda, que o Bacen não demorou para começar a elevar os juros de forma a controlar a inflação.

“Normalização parcial”

O Copom projeta uma “normalização parcial” da taxa básica de juros neste ano, de acordo com Campos Neto. Ele argumentou que, além da necessidade de elevar os juros por conta da inflação, o BC entendeu que as condições que levaram à redução da Selic à mínima histórica de 2% não se concretizaram e, por isso, não justificavam a manutenção dos juros nesse patamar.

Ele lembrou ainda que, quando o Copom reduziu os juros a 2%, o mercado projetava quedas de quase 9% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2020, além de uma inflação fraca, de aproximadamente 1%. O que se viu, no entanto, foi uma contração de 4,4% do PIB e uma inflação de 4,52%.

"Imaginávamos um cenário que felizmente não aconteceu, por diversas razões. Então, entendemos que precisamos fazer uma normalização parcial", afirmou. Segundo Campos Neto, a normalização será parcial, porque caminha para os juros neutros, mas não deve concluir este processo neste ano.

Atividade

Para o presidente do BC, esse processo de normalização dos juros não deve ter um efeito negativo na atividade econômica, que já vem dando sinais de desaceleração por conta do agravamento da pandemia de covid-19. 

No Relatório de Inflação, o BC reduziu de 3,8% para 3,6% a previsão de crescimento do PIB de 2021 e justificou a medida como aumento das incertezas. A previsão, entretanto, ainda está mais otimista do que o mercado, cuja mediana das estimativas está em 3,2% e grande parte dos analistas preveem uma recessão técnica — quando há dois trimestres consecutivos de queda — no primeiro semestre do ano.

Ao ser questionado sobre a piora do cenário atual, especialmente com o agravamento da pandemia no país, que ultrapassou 300 mil mortos por covid-19, o ministro evitou comentar se o BC também já prevê um cenário de recessão no país. Para ele, o processo de normalização da Selic não vai prejudicar o crescimento da economia neste ano e no próximo. “Havia um cenário de crescimento e de inflação que não materializou e não entendemos que isso (a alta da Selic) prejudique o crescimento em 2022”, garantiu.

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