ATIVIDADE ECONÔMICA

Produção industrial se mantém abaixo do patamar pré-pandemia

Dias após o Banco Central afirmar que reajustes na Selic irão frear inflação e desacelerar a economia, IBGE aponta queda de 0,7% na indústria em agosto, a terceira consecutiva e maior que a esperada pelo mercado

Fernanda Fernandes
postado em 05/10/2021 11:08 / atualizado em 05/10/2021 11:08
 (crédito: Nissan/divulgaçao)
(crédito: Nissan/divulgaçao)

A produção industrial caiu 0,7% em agosto, frente a julho, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados na manhã desta terça-feira (5/10). É a terceira queda consecutiva no setor e, com o resultado de agosto, a indústria fica 2,9% abaixo do patamar pré-pandemia e 19,1% abaixo do nível recorde, registrado em maio de 2011, aponta o Instituto.

O resultado vem em encontro à afirmativa recente do Banco Central de que os reajustes na taxa básica de juros, a Selic, ao mesmo tempo que tentam conter a inflação, irão desacelerar a economia. No último relatório trimestral da inflação, a autarquia explicou os fatores conjunturais que interromperam o ritmo de altas iniciado em meados de 2020 e citou, além das questões climáticas, da crise sanitária de covid-19 e da alta em preços administrados como energia elétrica e combustíveis, as recorrentes quedas na indústria.

A Pesquisa Industrial Mensal (PIM) mostra que setor acumula ganho de 9,2% no ano e de 7,2% nos últimos 12 meses. Apesar disso, o setor também recuou outros 0,7% frente a agosto de 2020. Na comparação mensal, o novo resultado interrompeu onze meses de crescimento que são justificados, pelo IBGE, pela base de comparação muito baixa do período mais crítico da crise sanitária de Covid-19.

“As bases de comparação dos meses anteriores estavam muito depreciadas. Isso justificava, inclusive, taxas de crescimento de dois dígitos. Mas, à medida que os meses avançam, a base de comparação vai aumentando. E, combinada a isso, há uma produção no ano de 2021 em um ritmo menor, mostrando menor intensidade. Então chegamos a esse primeiro resultado negativo depois de 12 meses de crescimento na produção", diz o gerente da pesquisa, André Macedo.

Na comparação com agosto do ano passado, o IBGE aponta que, entre os setores da indústria que tiveram maior impacto para o resultado de 0,7 ponto percentual negativo, estão o de produtos alimentícios (-7,4%) e derivados do petróleo e biocombustíveis (-5,2%). Apesar disso, doze atividades tiveram alta, com destaque para máquinas e equipamentos (23,7%) e metalurgia (20,0%), que exerceram as maiores influências.

A indústria de veículos automotores, reboques e carrocerias, por exemplo, apesar de seguir em queda nos últimos meses foi uma das mais dinâmicas, com resultado positivo de 42,6%. Os setores de máquinas e equipamentos (36,8%), metalurgia (25,0%) e produtos de minerais não-metálicos (23,9%) também formam o grupo de maior impacto positivo na formação da média industrial no acumulado em um ano.

Já a queda de agosto frente a julho foi puxada, principalmente, por produtos químicos (-6,4%), derivados do petróleo e biocombustíveis (-2,6%), veículos automotores (-3,1%), produtos farmoquímicos e farmacêuticos (-9,3%) e pela produção de “coque” - carvão coqueificável, utilizado na redução do minério de ferro a ferro metálico.

“O setor de outros produtos químicos já vinha com queda nos dois meses anteriores, ligada a paralisações em unidades produtivas. Já no setor de derivados de petróleo, houve crescimento nos três meses anteriores, muito relacionado à flexibilização das restrições sanitárias, que permitiu que as pessoas tivessem maior mobilidade. Então a queda dessa atividade em agosto representa mais uma acomodação, algo pontual, do que uma reversão de tendência do comportamento positivo”, analisa Macedo.

Nem só de quedas foi marcado o resultado do mês de agosto. Segundo o IBGE, entre as atividades da indústria que tiveram crescimento na produção, destacaram-se produtos alimentícios (2,1%), bebidas (7,6%) e indústrias extrativas (1,3%). “Essas três atividades tiveram um comportamento predominantemente negativo nos meses anteriores. O resultado positivo no mês de agosto é mais um grau de recomposição dessas perdas anteriores do que uma trajetória positiva que esses segmentos industriais venham a ter”, afirma o gerente de pesquisa. Além desses setores, metalurgia (1,1%), produtos de madeira (3,0%) e produtos têxteis (2,1%) também cresceram em agosto, aponta nota técnica do Instituto.

O mercado financeiro já esperava mais uma retração na indústria para o mês de agosto. O resultado, no entanto, veio abaixo das expectativas. A projeção da Reuters, divulgada nesta segunda-feira, era de um recuo de 0,4%. Segundo análise do Grupo Mongeral Aegon, a indústria compõe 17,7% do PIB e hoje emprega mais de 10 milhões de pessoas, com uma massa salarial mensal de cerca de R$ 30 bilhões.

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