Eleições

Embrião de programa econômico de Lula e Alckmin busca convergência

Pérsio Arida e Aloizio Mercadante trocam ideias para definir o embrião de um programa econômico condizente com Lula e Alckmin. Há ressalvas quanto ao resultado do diálogo

Rosana Hessel
postado em 31/03/2022 02:00
 (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Enquanto o cenário das pesquisas para as eleições de 2022 se cristaliza com a polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL), um movimento que já era esperado nos bastidores começa a acontecer. Próximo do encerramento da janela partidária, economistas históricos tucanos começam a se aproximar dos formuladores do programa econômico do PT.

O ex-senador e ex-ministro Aloizio Mercadante, atual presidente da Fundação Perseu Abramo e coordenador da equipe da entidade, está à frente das conversas. Ele está elaborando propostas em cadernos temáticos para construir um esboço do programa de governo da campanha de Lula.

Na semana passada, Mercadante reuniu-se com o economista Persio Arida, um dos pais do Plano Real e formulador do plano econômico do ex-tucano Geraldo Alckmin, em 2018. Alckmin é cotado para ser vice na chapa com Lula para as eleições de outubro e a confirmação deverá ocorrer em 8 de abril.

Apesar de terem visões diferentes na teoria econômica, Mercadante e Arida são contemporâneos na Universidade de São Paulo (USP), na década de 1970. No encontro, segundo interlocutores, a conversa tratou da situação do Brasil e de "algumas ideias iniciais". Não houve compromisso de elaboração de programa de governo.

A aproximação de ambos é vista como uma estratégia de Alckmin, agora filiado ao PSB, para dar o tom de uma terceira via viável na chapa com Lula. Contudo, as conversas ainda são preliminares, e os assessores de Lula evitam comentar o assunto antes da confirmação da chapa.

O diálogo entre economistas desenvolvimentistas, como Mercadante, com um dos principais representantes do pensamento econômico ortodoxo no país, que é Persio Arida, é vista como uma tentativa de atrair a confiança do mercado financeiro. Há muita frustração com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e com Bolsonaro.

A aproximação também é interpretada por analistas ouvidos pelo Correio como parte da construção da chapa Lula-Alckmin. A expectativa é de que outros economistas tucanos possam ser chamados para serem ouvidos, pelo menos. Um desses nomes seria o do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, que, procurado, não quis comentar o assunto.

Vale lembrar, no entanto, que Arida não conversou apenas com petistas. Recentemente, ele interagiu com a economista e advogada Elena Landau, chefe do programa econômico da pré-candidata do MDB, a senadora Simone Tebet (MS).

Diversidade

Na avaliação do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, conselheiro e amigo de Lula, a aproximação Arida-Mercadante é positiva, porque a diversificação de ideias econômicas é necessária para a campanha presidencial. "Tem que admitir diferentes pontos de vista e vai levando e discutindo para convergir no que será o programa", afirmou Belluzzo. Ele faz questão de afirmar que não é membro do partido. Beluzzo considera importante agregar para evitar queda na diferença com Bolsonaro nas pesquisas de opinião.

Belluzzo criticou a constatação de que a economia, ao se transformar em ciência, "ficou parecida com uma religião". "O que não pode é discriminar as pessoas a priori. É preciso debater com todo mundo, mesmo que não vá, no fim das contas, aceitar tudo exatamente. Mas essa aproximação e essa diversidade é importante para quebrar a suposição de que, em economia, só existem ideias absolutas", ponderou.

Contudo, analistas ainda veem com ceticismo a dobradinha Lula e Alckmin. "Mesmo com Alckmin, é difícil achar que essa chapa se sustente, porque, no primeiro mandato, Lula recebeu um país organizado. Agora, o grande desafio será reduzir o custo do Estado", comentou um economista que pediu anonimato. "Como o PT é contra uma reforma administrativa, vai ser difícil. Lula está sem saber como vai conduzir a economia se ganhar e não tem a mesma vitalidade de 20 anos atrás", finalizou.

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