Conjuntura

Aumento nos combustíveis e alimentos pode forçar mais uma alta da taxa Selic

Copom sinaliza que os itens terão efeitos duradouros na carestia. Taxa básica está em 12,75%

Fernanda Strickland
postado em 11/05/2022 06:00
 (crédito: Marcelo Casal/Agência Brasil)
(crédito: Marcelo Casal/Agência Brasil)

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) destacou ontem, em ata, os fatores que contribuem para uma inflação alta e resistente. A autoridade monetária reconheceu que os recentes choques levaram a um forte aumento nos componentes ligados a alimentos e combustíveis, e isso tem impacto na política de juros. Segundo especialistas, a declaração do BC indica que não será possível trazer a inflação para a meta em 2022 e talvez nem em 2023.

O Copom afirmou que as leituras recentes vieram acima do esperado. A surpresa ocorreu tanto nos componentes mais voláteis como nos mais associados à inflação subjacente. "Nos itens mais voláteis, continua se destacando o aumento do preço da gasolina, com impacto maior e mais rápido do que era previsto", informou o comitê. As expectativas de inflação para 2022 e 2023 apuradas pela pesquisa Focus encontram-se em torno de 7,9% e 4,1%, respectivamente.

Segundo o economista Vinicius do Carmo, itens como combustíveis e alimentos exercem função de insumo em diferentes cadeias. Por isso, um aumento sobre esses preços afeta a composição de custos da maioria das cadeias produtivas. "Um aumento no diesel impacta diretamente os custos de transporte urbano, rodoviário e frete", explicou. "Além da utilização de máquinas agrícolas e indiretamente a produção agrícola, repassando este efeito por todas as cadeias e aumentando a pressão inflacionária no mercado."

De acordo com o economista, a maioria dos analistas acredita que haverá ao menos mais dois aumentos de meio ponto cada. "Isso se não ocorrer nova aceleração inflacionária, hipótese bem frágil", apontou Vinicius do Carmo. Segundo ele, o aumento do diesel é significativo e vai reverberar na economia. "Ao mesmo tempo, outros preços, especialmente os alimentos, não parecem indicar trégua. Então há muito receio de que a pressão inflacionária possa persistir, fazendo o ciclo de aperto monetário do BC se prolongar", acrescentou o especialista.

O economista da FAE Business Fábio Tadeu Araújo, apontou que o Banco Central está admitindo que não será possível trazer a inflação para a meta em 2022 e talvez nem 2023. "Quando ele faz um balanço para os riscos da inflação e para o crescimento econômico, admitindo que os juros já estão no patamar muito elevado, ele está também dizendo que o custo para a atividade econômica e para os demais agregados econômicos — inclusive a dívida pública — é maior do que os benefícios do que uma taxa de juros ainda maior para combater a inflação", afirmou.

Segundo Bruno Hora, co-fundador da Invest Smart, a missão do Copom de conter a inflação sem pesar a mão nos juros está cada vez mais difícil. "Não bastasse a alta dos preços das commodities causados pela guerra e pela alta demanda e a alta dos juros americanos, ainda temos um ano de eleições presidenciais e a eterna preocupação fiscal", disse. Para Hora, a mensagem do Copom tem um ponto positivo, pois sugere que uma forte alta dos juros pode causar recessão. "Porém o aumento da relevância dos fatores externos que impactam o Brasil deixam o cenário de juros repleto de incertezas", pondera.

Ainda na reunião da semana passada, quando elevaram a Selic em 1 ponto percentual, de 11,75% para 12,75% ao ano, os membros do Copom discutiram os efeitos do aperto monetário no crescimento econômico. "O comitê ressaltou que o crescimento econômico veio em linha com o que era esperado, mas o aperto das condições financeiras cria um risco de desaceleração mais forte que o antecipado nos trimestres à frente, quando seus impactos tendem a ficar mais evidentes", afirmou o documento.

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