Mercado financeiro

Bolsa brasileira fecha a semana com recordes sucessivos

Instabilidade no cenário geopolítico global e preços atrativos dos papéis brasileiros motivaram os investidores externos

O Ibovespa registrou mais um movimento de alta, ontem, levando o índice a um novo recorde histórico — o quarto em cinco dias. No fechamento, o principal indicador da bolsa brasileira subiu 1,86%, aos 177.856 pontos, depois de ultrapassar, no meio da tarde, a marca dos 180 mil pontos. O dólar manteve-se praticamente estável, com alta de apenas 0,03%, cotado a R$ 5,2895. Na véspera, a moeda norte-americana havia recuado 0,67%, fechando a R$ 5,287 — o menor nível desde de novembro do ano passado.

Devido às incertezas econômicas provocadas pelas medidas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a atenção dos investidores tem se voltado à dinâmica recente dos ativos globais. Indicadores de atividade, sinais de redução nas tensões geopolíticas e um fluxo maior de capital estrangeiro contribuíram para que os mercados brasileiros operassem com otimismo, ontem. Enquanto a Bolsa brasileira comemorava mais um recorde, o índice Dow Jones, que registra a movimentação da Bolsa de Nova York, fechou o pregão em queda de 0,58%.

"Em contraste, as bolsas americanas seguem pressionadas por indicadores de atividade mais fracos, assim como pelas incertezas sobre a política monetária e a imprevisibilidade do ambiente político nos Estados Unidos, fatores que reduzem o apetite por risco em Wall Street", analisou o economista Christian Iarussi, da The Hill Capital.

Na B3, os ganhos, mais uma vez, se mostraram bem espalhados e consistentes entre as ações de primeira linha, mostrando um quadro em que, praticamente, só há compradores sem vendedores. "Contra fluxo não há resistência", lembra Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença, ao comentar a "estilingada" do Ibovespa no fim do dia.

Segundo o economista Davi Leles, da Valor Investimentos, a valorização do Ibovespa em 2025 ocorreu apesar do cenário doméstico de juros elevados e de crescimento econômico moderado. "A gente está olhando para o Brasil, vendo juros de 15% ao ano e uma economia andando de lado e, mesmo assim, o Ibovespa não para de quebrar recordes", afirmou.

De acordo com Leles, um dos principais fatores é a chamada rotação global de portfólio, com investidores estrangeiros reduzindo exposição ao mercado dos Estados Unidos e ampliando posições em países emergentes. "O investidor estrangeiro está tirando dinheiro dos Estados Unidos e aumentando o apetite a risco em mercados emergentes", disse ele.

O especialista acrescentou que a maior volatilidade em Wall Street e tensões geopolíticas elevam a percepção de risco nos EUA, enquanto o Brasil passa a ser visto como alternativa relativa. "O estrangeiro olha para cá, vê que as ações estão muito baratas, principalmente em dólar, e compra, mesmo ignorando o cenário interno".

O economista também citou fatores políticos domésticos. Segundo ele, o mercado passou a precificar um cenário eleitoral mais disputado. "O estreitamento da diferença entre os principais candidatos sugere um pleito mais competitivo, o que, historicamente, leva o mercado a antecipar maior moderação e sinais de responsabilidade fiscal", avaliou.

Empresas "baratas"

Outro elemento apontado foi o nível de preço dos ativos. "As empresas brasileiras estão baratas quando se observam os múltiplos, especialmente bancos e grandes companhias", disse Leles. Para ele, o movimento atual reflete uma reprecificação. "O dinheiro está entrando não porque a economia real esteja forte, mas porque os ativos estão em níveis considerados baixos, com fluxo comprador estrangeiro suficiente para sustentar a alta mesmo com juros elevados."

Internamente, a instabilidade também segue devido às investigações ligadas ao escândalo do Banco Master. O Banco Central formalizou a determinação para que o Banco de Brasília (BRB) faça uma provisão de R$ 2,6 bilhões em seu balanço financeiro. A medida tem como objetivo cobrir as perdas e mitigar os riscos decorrentes da aquisição de carteiras de crédito sem garantia (lastro) junto ao Banco Master, instituição que foi liquidada pelo BC em novembro de 2025.

Nesta semana, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Will Financeira, ligada ao Banco Master. De acordo com a autarquia, a medida considerou o "comprometimento da situação econômico-financeira da instituição". (Com Agência Estado)

*Estagiário sob a supervisão de Vinicius Doria

 

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