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Ouro pode perder o brilho

Analistas veem cenário menos favorável neste ano para apostar no metal precioso, que foi a grande vedete do mercado em 2025

É praticamente um consenso entre os economistas ortodoxos que, em tempos de incertezas no mercado, os investidores correm para ativos mais conservadores, que sofrem menos com as variações diárias. Em 2025, essa máxima foi novamente constatada em relação ao ouro, que registrou a maior valorização desde 1979, ao ficar 66% mais caro na cotação internacional. Apesar do aumento expressivo, especialistas consultados pelo Correio apresentam divergências ao considerar se é hora de investir ou não no metal precioso.

Nos últimos 10 anos, o preço do ouro registrou um crescimento praticamente exponencial, que começou a se intensificar em 2024, quando apresentou uma valorização superior a 20%. Ao analisar o gráfico que compara o valor do metal desde 2016, somente em três anos o valor do ouro não subiu. Ao longo de todo esse período, o ativo rendeu quase 300%.

Uma comparação feita pela Elos Ayta Consultoria mostra que o ouro, entre 13 dos principais investimentos em carteira no Brasil, foi o que mais se valorizou ao longo do ano passado e ficou bem acima do segundo colocado, o Índice Bovespa (IBovespa), o principal da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), que subiu cerca de 34%. Somente no último trimestre do ano, a valorização foi 12,67% — também a maior entre os rendimentos listados.

Na outra ponta da lista, no entanto, aparece o bitcoin, que perdeu força no ano passado após registrar um ganhos de mais de 120% em 2024. As fortes incertezas econômicas, principalmente após a posse do presidente dos EUA, Donald Trump, afetaram o valor de mercado da criptomoeda, ao mesmo tempo em que os investidores migraram para rendimentos mais conservadores. Até o dólar, que, normalmente, é considerado um porto seguro em tempos de incerteza, perdeu 11% em comparação com o real, no ano passado.

Guerras e tarifaço

Em 2025, vários episódios de tensões geopolíticas marcaram o ano, como os embates entre EUA e China, sobretudo em relação às tarifas anunciadas pelo governo Trump, que também intensificou o discurso contra o Irã, considerado o maior inimigo dos norte-americanos no Oriente Médio. Soma-se a isso a guerra entre Rússia e Ucrânia, que atravessou o ano sem um desfecho, apesar da promessa do presidente dos EUA de acabar com o conflito.

O professor de economia da Universidade de São Paulo (USP) Luciano Nakabashi lembra que a questão dos elevados deficits fiscais norte-americanos contribuíram para o momento de incerteza, com o aumento da razão dívida-PIB, que já estava em patamar elevado. Segundo ele, esse processo tem enfraquecido o dólar em relação a outras moedas e, também, ao ouro. "Adicionalmente, o processo de expectativa e, posteriormente, redução dos juros americanos acaba reduzindo o custo de oportunidade (juros dos títulos americanos) de manter o ouro como ativo", destaca Nakabashi.

Para o especialista, é possível que se chegue a um acordo na guerra da Rússia contra a Ucrânia e que a situação no Oriente Médio fique mais estável, em relação a 2025. Além disso, o processo de redução dos juros americanos pelo Federal Reserve (Fed) — o Banco Central dos EUA —, que sinalizou mais duas quedas na taxa atual ainda este ano, pode contribuir para a redução dos juros em outros países, inclusive no Brasil. Ele considera que esse processo também ajuda a demanda pelo ouro, mas a manutenção ou queda no grau de incerteza irá favorecer uma redução da procura pelo metal.

"A questão fiscal americana está longe da beira do precipício. A queda dos juros americanos tende a aliviar a situação. Acho muito difícil ver a valorização do ouro como em 2025, a não ser que aconteça algum cenário extremo que eleve muito as incertezas globais", comenta o economista.

O analista da JHN Consulting Julio Hegedus Netto avalia que esse "ano dourado" para o metal pode ser explicado por uma série de fatores. "Podemos destacar as operações de compra da commoditie pelos bancos centrais, visando fortalecer suas reservas, já que o ouro é uma reserva de valor para preservar o patrimônio. É, também, uma proteção contra a inflação, já que, com a guerra comercial promovida por Donald Trump, poderia ocorrer um surto inflacionário pelo mundo", explicou o analista.

Ele aponta, ainda, que é necessário considerar um período de "normalização" das políticas monetárias pelo mundo, com redução das taxas de juros, o que tende a sacrificar a renda fixa a favor da compra de ouro. "Devemos destacar a instabilidade mundial, com vários conflitos regionais sérios, como a guerra na Ucrânia, (o conflito entre) Israel e Hamas e, agora, EUA com a Venezuela. Não há um momento de paz", destaca o analista.

Ouro x dólar

O retorno de Donald Trump à Casa Branca em meio a uma série de conflitos pelo mundo trouxe uma incerteza maior em relação ao dólar, na avaliação de especialistas. Se, em outros momentos de crise, como a vivenciada em 2008 no estouro da bolha imobiliária norte-americana, por exemplo, a moeda ainda era considerada um porto seguro inquestionável, a situação atual é diferente. A ascensão da China na economia mundial e o enfraquecimento do poderio dos EUA nos últimos anos abalaram a confiança na principal divisa do mundo, que, apesar de tudo, ainda mantém o posto histórico.

Diante desse cenário, se o ouro rivalizava com o dólar entre os investimentos mais seguros no mercado internacional, a perda de força da moeda norte-americana contribuiu, em parte, para o ótimo desempenho do metal, no ano passado, com mais investidores — entre eles, países que estão ampliando suas reservas.

Desde o primeiro dia de 2026, o ouro valorizou mais de 5% e ultrapassou o patamar dos US$ 4,6 mil a onça-troy (unidade de medida que equivale a 31,1g).

O economista chefe da Bluemetrix Asset, Renan Silva, acredita, porém, que a janela de oportunidade já passou para o ouro. "Investir em ouro, agora, fica um tanto temerário, é necessário buscar algumas janelas de ajustes", disse ele, que também estima "um cenário negativo para as criptomoedas".

Para o analista da Vokin Investimentos Guilherme Macêdo, é impossível apontar para qual direção o ouro vai, enquanto o mundo ainda vive um período de incertezas. "Você tem alguns vetores que apontam para uma direção de esfriamento, outros vetores para uma situação de maior perigo no mundo. Então, é muito difícil prever se o ouro vai continuar subindo, dado que já subiu muito", considera.

Entre o ouro e o dólar, Macêdo afirma que escolheria os dois para investir e aconselha aos investidores a manter uma carteira diversificada. "Eu não tenho perfil para arriscar só em um ativo, porque ele depende de muitos cenários. Em geral, invisto muito em ações que são ativos reais, que pagam dividendos. As empresas continuam, apesar do cenário. Então, eu gosto de renda variável", recomenda o especialista.

 

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