Entrevista | MAÍLSON DA NÓBREGA | ECONOMISTA, EX-MINISTRO DA FAZENDA E SÓCIO DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA

Maílson da Nóbrega: "Fim da jornada 6X1 é inflação na veia"

Segundo o ex-ministro, a proposta é considerada irresponsável no atual contexto, especialmente em ano eleitoral. Em novo livro, ele defende que o aumento da produtividade é o caminho para o Brasil se tornar um país rico

"Lula vai deixar uma herança maldita, que pode ser para ele próprio, se ele ganhar as eleições", disse o economista - (crédito: Divulgação )

As eleições presidenciais de 2026 caminham para a polarização e correm o risco de deixar de lado um debate crucial para que o Brasil não continue preso na armadilha da renda média baixa, sem uma agenda voltada para a produtividade, segundo o economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega. Ele não poupa críticas ao avanço da proposta de fim da escala 6x1.

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“Essa medida é irresponsável, sem uma avaliação adequada de suas consequências”, afirma, em entrevista ao Correio. Segundo ele, como a produtividade do país está estagnada, reduzir a escala agora, em pleno ano eleitoral, será um tiro no pé, uma vez que a finalidade da proposta é eleitoreira e trabalhadores e empresas sofrerão as consequências.

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“Ninguém pode ser contra a redução da jornada de trabalho, desde que ela seja promovida como consequência de ganhos de produtividade. Não é o caso brasileiro”, explica. “Redução da jornada de trabalho na presença de produtividade estagnada é custo e inflação na veia”, frisa.

Em seu novo livro, O Brasil ainda pode ser um país rico? – O desafio da produtividade, lançado no mês passado pela editora Matrix, o ex-ministro detalha a trajetória percorrida por vários países ricos desde a Antiguidade até chegar ao debate atual sobre o aumento da produtividade como caminho para que um país se torne rico. “Todos os países que se tornaram ricos o fizeram com ganhos expressivos de produtividade”, afirma.

O ex-ministro também critica o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por “se conformar” com o crescimento baixo do Produto Interno Bruto (PIB), de 2,3% em 2025, e por não se preocupar com a questão fiscal, que poderá gerar uma crise grave em 2027. Ao mesmo tempo, diz ser otimista de que ainda há tempo de o país corrigir a rota, especialmente se melhorar a qualidade da educação e retomar a agenda de privatizações. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como avalia o debate sobre o fim da escala 6x1 em meio às eleições deste ano? Qual é o impacto dessa mudança na produtividade do país, que é baixa?

Essa medida é irresponsável, sem uma avaliação adequada de suas consequências. A redução de jornada de trabalho vem ocorrendo no mundo desde o final do século XIX, começando na Inglaterra, e sempre respondia ao ganho de produtividade, que permitia uma escala de trabalho mais curta. A produtividade é uma questão-chave nesse processo. Mas o Brasil está com a produtividade estagnada. Então, essa medida vai gerar aumento de custos de produção. Isso tende, ao contrário do que seria desejável, a reduzir a produtividade da economia e pode aumentar o repasse aos preços, gerando mais inflação.

Essa proposta, então, será um tiro no pé?

Sim. Mas, infelizmente, ela tende a ser aprovada no Congresso porque é uma medida popular. Os brasileiros consultados não têm como fazer as contas e avaliar a situação. As pesquisas mostram que a maioria é favorável. E é difícil imaginar que os parlamentares deixem de aprovar essa medida, porque, se votarem contra, podem perder votos. Acho que isso pode ser a verdadeira herança maldita do Lula. Ele declarou, no primeiro mandato, que tinha recebido uma herança maldita de Fernando Henrique Cardoso (em 2002), mas recebeu uma herança bendita. Agora, Lula pode deixar uma herança maldita, que pode ser para ele próprio, se ganhar as eleições. É a hora de o Congresso refletir sobre as consequências dessa medida, examinar o projeto com responsabilidade, ouvir especialistas, empresas e federações que calculam o custo dessa medida. Ela é totalmente prejudicial à economia brasileira e, em outras palavras, aos próprios trabalhadores.

E faz sentido discutir redução de escala quando o desemprego está no piso, em 5,4%, no trimestre encerrado em janeiro?

É, mas o desemprego vai voltar a aumentar. Acho que o fundamental é a questão da produtividade. Redução da jornada de trabalho na presença de produtividade estagnada é custo e inflação na veia. Isso vai prejudicar, sobretudo, as pequenas e médias empresas. O comércio varejista, praticamente todo, tem jornada de 6x1. Enfim, esse é um processo examinado sem a devida consideração de seus efeitos negativos. Ninguém pode ser contra a redução da jornada de trabalho, desde que seja promovida como consequência de ganhos de produtividade. Não é o caso brasileiro.

Em seu livro, o senhor destaca a importância do debate sobre produtividade para que o país volte a crescer de forma mais acelerada e se torne um país rico. Mas o PIB desacelerou ao crescer 2,3% em 2025 e deve avançar menos neste ano. Até quando o Brasil continuará nesse ritmo?

O grande desafio para o Brasil crescer é a produtividade. Ela será o fator central para que o país se torne rico. O problema é que temos um governo que comemora crescimento de 2,5% a 3%. Muitos economistas acham que o Brasil vai muito bem crescendo pouco. Se quisermos ser um país rico, temos que crescer mais rapidamente do que os países ricos, para nos emparelhar com eles. Nos últimos 12 anos, o Brasil cresceu menos que o mundo e menos que os Estados Unidos. Estamos ficando para trás com a mediocridade do nosso crescimento.

O dado do PIB de 2025 corrobora com essa situação?

Na verdade, o crescimento um pouco maior nos três anos anteriores foi reflexo do gasto público e do fim do teto de gastos. O arcabouço fiscal não cumpre o seu papel, que seria estabilizar e depois reduzir a relação entre dívida pública e PIB. É interessante notar que a palavra “produtividade” raramente aparece nos documentos e discursos do PT, inclusive do presidente Lula. A percepção transmitida é de que o crescimento do país está associado ao gasto público e à intervenção do Estado na economia. Mas nenhum país se tornou rico com esses dois ingredientes. Todos os países que se tornaram ricos o fizeram com ganhos expressivos de produtividade. A produtividade brasileira está estagnada. O Brasil cresce menos que a média da América Latina, e nos acostumamos à mediocridade, chegando ao ponto de comemorá-la.

Uma das dificuldades para o Brasil integrar o clube dos ricos é ter perdido o bônus demográfico, além de outras oportunidades ao longo do caminho...

Na verdade, não perdemos, apenas não aproveitamos o bônus demográfico. Durante esse período, tivemos o desastre do governo Dilma e a mediocridade dos anos do PT no governo. Apesar do bom desempenho do PIB no último ano do segundo mandato de Lula (7,5%), de modo geral os resultados foram medíocres, mas o PT se vangloria deles. O Brasil não cresce como Chile, Turquia, Coreia do Sul, Indonésia ou Malásia porque temos produtividade estagnada nos principais segmentos da economia.

E qual a sua avaliação do governo Bolsonaro?
A crítica é que também foi um governo medíocre. Embora tenha feito uma reforma importante, a da Previdência, ela já estava muito amadurecida no governo Michel Temer.

Que caminho o país precisa trilhar para aumentar a produtividade? É pela educação?
A produtividade resulta de uma miríade de fatores. O fator número um é a educação, que forma mão de obra de qualidade e prepara empresários para lidar em ambientes competitivos. Isso estimula a inovação, que é, por excelência, o caminho para o ganho de produtividade, permitindo fazer mais com os mesmos recursos. Outros fatores também influenciam, como a privatização. Vários estudos mostram que empresas estatais privatizadas se tornam mais produtivas.

O caso da Embraer é emblemático, não é?

Exatamente. Elas se livram do controle do governo e da renovação muito rápida de suas lideranças, ficando sujeitas aos critérios da concorrência pública.

No seu livro, o senhor critica o discurso do papel estratégico das estatais para justificar a existência delas…

Pois é. O que é estratégico para o Brasil é a educação, não ter empresas estatais. Empresas estatais faziam sentido até os anos 1950-1960, quando havia falhas de mercado.

E a Embrapa, que é elogiada, qual sua avaliação?

Quando criada, era a única fonte de pesquisa do Brasil. Hoje, já existem empresas privadas pesquisando tanto quanto ela. Como empresa privada, poderia viver da venda de patentes de suas pesquisas. Um ponto crucial é reter talentos, algo que precisa ser discutido com seriedade, sem viés ideológico.

Especialistas sempre falam que o Brasil está preso na armadilha da renda média baixa. Tem como escapar disso?

Tem. Além da educação, privatizações ajudam a produtividade. Países que saem da pobreza e alcançam renda média avançam atraindo capital estrangeiro com tecnologia e promovendo migração do campo para a cidade, com trabalhadores mais produtivos. Incentivos fiscais ou protecionismo podem ajudar inicialmente, mas a inovação é o principal motor para superar a armadilha da renda média. No Brasil, o governo ainda adota políticas industriais de 60-70 anos atrás, como tratar a indústria automobilística como indústria infante. Protecionismo e subsídios geram acomodação. Programas sociais ajudam a reduzir pobreza, mas não impulsionam crescimento. O PT permanece preso a visões econômicas equivocadas.

Qual é a principal mensagem no livro? É possível o país ser rico?

O Brasil tem condições de se tornar rico. O desafio é enfrentar a questão fiscal, modernizar o ideário econômico do PT, ganhar produtividade, compensar a perda do bônus demográfico, acelerar privatizações e realizar reformas estruturais. Com recursos naturais abundantes e sistema financeiro forte, o país só precisa de liderança eficaz para crescer.

Mas o que estamos vendo é que existem dois candidatos caminhando para um segundo turno polarizado. Sem programas nesse sentido, não é?

Exatamente. Eu deixo claro no livro que as crises podem ser o elemento que mobiliza o país a mudar. O Banco Mundial estudou a armadilha de renda média e mostrou que as crises permitem a mobilização do sistema político e da sociedade para apoiarem reformas que, em condições normais, seriam rejeitadas. E tudo isso leva à situação em que, como disse o Banco Mundial, é possível capitalizar a crise. Este momento está se aproximando porque nenhum dos candidatos atuais dá sinais de que comprou a agenda correta. Em 2027, quando 100% do gasto primário do governo federal for de natureza obrigatória, haverá uma crise fiscal que pode se desdobrar numa crise financeira. E este será o momento de capitalizar a crise, de conscientizar a sociedade do que precisa ser feito.

É verdade, mas é complicado quando ninguém resolve a questão dos supersalários e dos penduricalhos acima do teto do funcionalismo. É possível ser otimista?

É. Isso é uma vergonha brasileira. Essa história de penduricalho, de gasto indenizatório, é um absurdo e eles precisam ser eliminados em algum momento. Por isso, dá para ser otimista sim. Mas tudo vai depender dos líderes que nós escolhermos nas eleições.

Mas as prioridades dos parlamentares são eles próprios, com as emendas que estrangulam o Orçamento, somando mais de R$ 50 bilhões neste ano…

É, tem isso, tem isso. E tem que acabar. A preocupação básica do parlamentar brasileiro, pelas declarações do ex-presidente da Câmara, Arthur Lira, e do presidente da Câmara Hugo Motta, é mandar dinheiro para as suas comunidades. E como disse o ex-ministro Nelson Jobim, eles são, na verdade, vereadores federais, enquanto deveriam estar pensando no futuro do país, na produtividade e na educação. Eles estão criando uma bomba fiscal que pode explodir lá na frente, porque é insustentável manter essas emendas parlamentares que corroem os gastos discricionários (não obrigatórios). Por isso, é preciso imperar a moralidade no Orçamento público e até acabar com a emenda parlamentar. Já existe um pacto tributário na Constituição que define quais são os recursos da União e para os estados e os municípios, e cada um tem que viver dentro desse pacto.

E agora, quais os impactos dessa nova guerra no Oriente Médio, com os ataques ao Irã? Além da pressão inflacionária, com aumento no preço do petróleo, ela pode escalar?

Olha, as guerras, como sempre, são fontes de incerteza. Então, depende de como essa guerra evoluir. Tudo indica que a estratégia básica do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que é provocar uma mudança de regime, vai fracassar. E o grande risco que essa guerra traz para o Brasil e para o mundo é a questão do petróleo, podendo elevar o preço do barril para US$ 100. É por aí que o Brasil vai perder. O Brasil e o mundo vão perder por causa de dois fatores: primeiro, a inflação; segundo, a incerteza que gera, em conjunto com a inflação, uma perda do potencial de crescimento da economia mundial. O mundo vai crescer menos, e todos vão sofrer.

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postado em 09/03/2026 04:00
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