A trégua de duas semanas anunciada por Estados Unidos e Irã, com promessa de reabertura do estreito de Ormuz, derrubou os preços do petróleo. Desde a noite de terça-feira, quando foi anunciado um cessar-fogo, o barril do tipo Brent, referência global, caiu cerca de 13,3% e passou a ser negociado a US$ 94,75 por volta do horário do fechamento, nesta quarta-feira (08).
Já o petróleo negociado nos Estados Unidos chegou a registrar queda de 15,69%, atingindo os US$ 95,20. A redução ocorreu após semanas de alta provocada pela guerra, período em que o petróleo chegou a superar o patamar de US$ 100 por barril e pressionou os custos de energia em diferentes países.
No Brasil, o cenário externo mais favorável influenciou o câmbio e o mercado acionário. O dólar comercial encerrou o dia cotado a R$ 5,10, com queda de 1,01%. Foi o menor patamar registrado em praticamente dois anos, desde maio de 2024.
Na B3, o índice Ibovespa atingiu recorde intradiário e fechou no maior patamar da série, com alta de 2,09%, aos 192.201,16 pontos. O desempenho foi impulsionado pela redução da aversão ao risco após o anúncio do cessar-fogo.
As Bolsas da região Ásia-Pacífico também registraram alta, com avanço de 5% no índice japonês Nikkei 225, quase 6% no Kospi, da Coreia do Sul, e ganhos de 2,8% no Hang Seng, de Hong Kong, e de 2,7% no ASX 200, da Austrália.
Na avaliação do economista e diretor da VLGI Asset, Matheus Portela, a reabertura do Estreito de Ormuz depende da estabilidade do acordo. "O fechamento do Estreito de Ormuz reduz o fluxo comercial de petróleo e outras mercadorias, elevando consideravelmente o custo de energia e transporte, pressionando a inflação global e, consequentemente, os preços domésticos. Com a reabertura, se for estável e duradoura, esse movimento tende a se reverter, aliviando a inflação no Brasil", ponderou.
Segundo ele, a tendência de queda pode chegar aos combustíveis no curto prazo. "Se o mercado entender que a reabertura é consistente, a cotação do petróleo no mercado internacional tende a recuar, o que pode se refletir de forma relativamente rápida no preço dos combustíveis."
Esse movimento, no entanto, tende a ser efêmero. Os ataques de Israel contra o Líbano e a decisão de Teerã de fechar novamente o Estreito de Ormuz ontem mostram a fragilidade do cessar-fogo anunciado pelos governo de Donald Trump e pelo regime dos aiatolás (leia mais na página 9).
Impacto inflacionário
Sobre o comportamento dos mercados, Matheus Portela aponta diferenças entre o cenário externo e o doméstico. "No cenário internacional, a reação tem sido mais intensa, diante do receio de retomada da inflação global. No Brasil, a possibilidade de ganhos com exportação de commodities e uma política monetária já mais restritiva têm contribuído para efeitos mais moderados no mercado financeiro, embora ainda relevantes na economia real", observa o especialista.
Apesar do alívio recente nos preços internacionais, um eventual agravamento do conflito ainda é visto como risco para a economia brasileira. O estudo da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) indica que a inflação pode subir até 7,66% em cenários mais extremos, impulsionada pelo aumento dos custos de energia e de insumos estratégicos.
De acordo com o economista-chefe da Fiemg, João Gabriel Pio, o principal impacto ocorre pelo aumento de custos. "O estudo mostra que o impacto para o Brasil ocorre predominantemente pelo canal de custos. Ou seja, mesmo com efeitos relativamente limitados sobre a atividade, a inflação tende a subir de forma relevante, pressionando empresas e consumidores. Em cenários mais extremos, esse movimento pode comprometer a competitividade da indústria e exigir maior atenção da política econômica", afirma.
Para o economista e autor em geopolítica Másimo Della Justina, a queda recente no preço do petróleo não elimina a necessidade de cautela na política econômica. Segundo ele, a manutenção de subsídios deve considerar o efeito econômico das medidas.
"Também há que se quantificar os custos da subvenção e, desde que sejam inferiores ao efeito multiplicador econômico positivo que eles causam, é racional mantê-los", acrescenta.
O economista também aponta a necessidade de instrumentos de financiamento para lidar com choques externos. "Para esses momentos, se faz necessário o país ter um Fundo Soberano, que possa ser emprestado e depois devolvido, a exemplo da Noruega", propõe.
*Estagiário sob a supervisão de Carlos Alexandre de Souza
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