COMBUSTÍVEIS

Petrobras aumenta querosene de aviação em 18%

Novo reajuste, de 18%, entrou em vigor ontem, e, segundo a Abear, acumula alta de 100% no principal custo das companhias aéreas

Esse aumento vale desde ontem, e, segundo a empresa, equivale a um acréscimo de R$ 1 por litro na comparação com o valor praticado no mês anterior -  (crédito: Iwan Shimko/ Unsplash)
Esse aumento vale desde ontem, e, segundo a empresa, equivale a um acréscimo de R$ 1 por litro na comparação com o valor praticado no mês anterior - (crédito: Iwan Shimko/ Unsplash)

Em meio à escalada dos preços do petróleo no mercado internacional devido ao conflito no Oriente Médio entre Estados Unidos e Israel com o Irã, que segue sem uma conclusão definitiva, a Petrobras anunciou, ontem, que o preço médio de venda do querosene de aviação (QAV) para as distribuidoras passa a ser reajustado em mais 18%.

Esse aumento vale desde ontem, e, segundo a empresa, equivale a um acréscimo de R$ 1 por litro na comparação com o valor praticado no mês anterior. A estatal informou que repetirá a estratégia adotada em abril e manterá a possibilidade de parcelar parte do reajuste em seis vezes, com a primeira parcela prevista para julho de 2026. A medida, segundo a Petrobras, busca preservar a demanda pelo combustível e reduzir os impactos sobre o setor aéreo brasileiro, em um cenário que classificou como "excepcional" devido a fatores geopolíticos.

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De acordo com a Associação Brasileiras das Empresas Aéreas (Abear), esse novo aumento eleva em 100% os custos da principal despesa operacional do setor. "O reajuste do QAV anunciado pela Petrobras, o terceiro desde o início dos conflitos no Oriente Médio, eleva em 100% o maior item de custo do transporte aéreo, com impactos gravíssimos na conectividade do país. Com quase a totalidade do QAV produzido internamente pela Petrobras, o Brasil reúne as condições para diminuir as consequências dos choques externos para a população", informou a entidade que representa as principais companhias aéreas do país, em nota enviada ao Correio.

O QAV é o combustível derivado do petróleo que abastece aviões e helicópteros e representa quase metade dos custos operacionais das companhias aéreas. Pelas estimativas da economista Juliana Inhasz, professora de macroeconomia do Insper, os custos variam, em média, de 30% a 40%, dependendo da rota. No mês passado, a Petrobras anunciou um reajuste de 54% no QAV, e, com isso, conforme dados da Abear, esse custo passou para 45%. Agora, de acordo com uma fonte próxima ao setor, com esse novo aumento, a tendência é de que esse percentual aumente ainda mais.

Pelos cálculos da professora do Insper, apenas esses dois reajustes representam um impacto de 80% de aumento no combustível. Ela lembrou que os combustíveis tem um peso importante no grupo transportes no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial, e apenas esse reajuste de 18% no QAV se for repassado integralmente pode implicar em mais 0,1% a 0,2% no IPCA.

Na avaliação de Juliana Inhasz, essa guerra dá sinais de que não tem uma data certa para terminar e, portanto, os preços do petróleo devem seguir pressionando a inflação global e, consequentemente, a do Brasil, dificultando o trabalho do Banco Central na condução da política monetária. Segundo ela, a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), na quarta-feira, de reduzir a taxa básica da economia (Selic) em 0,25 ponto percentual, para 14,50% ao ano, foi questionável. "Fica muito nítido no comunicado do Copom que a queda nos juros nem era justificável. E agora, com mais esse aumento, você pode haver um boom nos preços das passagens aéreas às vésperas das férias de julho", alertou.

Segundo a professora, já havia motivos para revisões para cima do IPCA além além desse novo reajuste nos preços do querosene de aviação anunciado pela Petrobras, como a volta da bandeira amarela na conta de luz a partir de maio. "Essa é apenas a ponta do iceberg, porque a tendência é de pressão inflacionária ao longo do ano e o brasileiro que estava pensando em viajar nas férias de julho, que não vai ser só a gasolina que vai ficar mais cara, como os bilhetes aéreos também", destacou a professora.

A acadêmica lembrou que, no mês passado, o governo lançou um pacote de medidas para baratear os preços do diesel e da gasolina, reduzindo tributos e também zerou até 31 de maio as alíquotas do Programa de Integração Social e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (PIS/Cofins) que incidem sobre o QAV. "Mas sabemos que as ferramentas que o governo tem são limitadas, e os impactos nos preços em geral dessa guerra, se ela se estender muito, serão inevitáveis", alertou Inhasz, lembrando da linha de crédito de R$ 9 bilhões com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que também foi anunciada no pacote. "E a ajuda que o governo deu para o setor aéreo é menor do que a que ele anunciou para os outros, porque a aviação é um segmento muito concentrado e que está com as margens muito estreitas desde a pandemia. Então, não vai haver como não repassar esses aumentos de custo para o consumidor", destacou. Como efeito colateral, ela prevê menor oferta de voos em destinos menos demandados como forma de redução de custos dessas empresas.

Defasagem

Inhasz lembrou, ainda, que o quadro pode piorar. "A Petrobras ainda não repassou toda a defasagem de preços dos combustíveis. Imagine quando isso acontecer com o IPCA", alertou.

Conforme dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a defasagem dos preços dos combustíveis comercializados no país estão abaixo dos preços praticados no mercado internacional. A defasagem média, considerando o dólar a R$ 5 e o preço do barril do petróleo tipo Brent a US$ 116, na quinta-feira, estava em 48% abaixo da paridade para o diesel e em 69% abaixo da paridade para a gasolina.

O economista Fábio Romão, da 4Intelligence, ressaltou que esse reajuste no QAV ainda não deve ter reflexo no IPCA deste mês, "mas os anteriores devem começar a impactar os preços a partir de junho". Ele também reconheceu que o conflito no Oriente Médio vem surtindo efeito mais forte no IPCA, cuja prévia de abril, o IPCA-15, divulgado na semana passada, acelerou 0,89% frente à alta de 0,44% de março. Após esse dado, ele elevou de 4,9% para 5% a previsão para o IPCA deste ano.

Essa nova projeção também leva em conta as pressões do El Niño no segundo semestre, bem como as altas nos preços de proteínas animais e de alimentos em geral. Segundo Romão, essa elevação das expectativas de inflação, leva a uma reedição de mais um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic na próxima reunião do Copom, assim como nas demais reuniões ao longo de 2026. A consultoria projeta uma taxa Selic encerrando o ano em 13,50% anuais, acima da mediana das estimativas do mercado, de 13%.

Ontem, no mercado internacional, o preço do petróleo voltou a recuar, contudo segue sendo negociado acima de US$ 100 o barril. O óleo tipo Brent, referência no mercado global e da Petrobras, fechou o primeiro pregão de maio cotado a U$$ 108,17 com queda de 2,02%. Na véspera, o barril do Brent fechou o mês de abril negociado a US$ 110, maior valor desde 2022, em meio às negociações entre Estados Unidos e Irã para o fim do conflito no Oriente Médio. (Com informações da Agência Estado)

 

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postado em 02/05/2026 03:59
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