INFLAÇÃO

IPCA desacelera em abril após subsídios sobre combustíveis

Após disparar 0,88%, em março, índice recua para 0,67%, no mês passado, em grande parte, devido à alta menor na gasolina e à queda nos bilhetes aéreos por conta das medidas do governo para conter alta do petróleo

Influenciado, principalmente, pela alta nos preços dos alimentos e dos medicamentos, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do país, registrou alta de 0,67% em abril. O resultado representa desaceleração em relação a março, quando o índice ficou em 0,88%. Esse recuo foi puxado, sobretudo, pela queda nas passagens aéreas e pelo menor ritmo de alta dos preços da gasolina, em função das medidas adotadas pelo governo para conter os impactos da disparada do barril de petróleo no mercado internacional devido ao conflito no Oriente Médio, como subsídios para os combustíveis.

Conforme os dados divulgados, ontem, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os nove grupos pesquisados apresentaram aumento nos preços no mês passado. O grupo alimentação e bebidas teve a maior variação, com alta de 1,34%, seguido por saúde e cuidados pessoais, que avançou 1,16%.

A alimentação no domicílio registrou alta de 1,64%, em abril, impulsionada principalmente pelo aumento nos preços da cenoura, do leite longa vida, da cebola, do tomate e das carnes. Em contrapartida, o café moído e o frango em pedaços apresentaram queda nos preços. Já a alimentação fora do domicílio teve variação positiva de 0,59%.

O gerente do IPCA, José Fernando Gonçalves, afirmou que alguns alimentos vêm enfrentando restrição na oferta, fator que tem pressionado o aumento dos preços. "No caso do leite, com a chegada do clima mais seco, sazonal no período, há redução de pasto, necessitando da inclusão de ração para os animais, o que eleva os custos. Não podemos deixar de mencionar a elevação no preço dos combustíveis, que afeta o preço final dos alimentos por conta do custo do frete", explicou.

Os transportes desaceleraram e registraram variação de 0,06% em abril, influenciado principalmente pela queda de 14,45% nas passagens aéreas. Por outro lado, os combustíveis apresentaram alta de 1,80%. O subitem com maior impacto individual sobre o índice foi, mais uma vez, a gasolina, cuja alta desacelerou de 4,59% em março para 1,86% em abril.

No grupo saúde e cuidados pessoais, destacaram-se os produtos farmacêuticos, que registraram alta de 1,77%, após a autorização do reajuste de até 3,81% nos preços dos medicamentos a partir de 1º de abril. Também houve aumento nos artigos de higiene pessoal, com destaque para os perfumes.

Gonçalves afirmou ainda que o comportamento dos preços é semelhante nos dois períodos, com influência, de forma geral, dos planos de saúde e dos artigos de higiene pessoal. "Destaca-se o reajuste dos medicamentos, aprovado a partir de abril, com limite de até 5,09% em 2025 e 3,81% em 2026. Importante salientar, também, que a desvalorização do real frente ao dólar nos primeiros meses de 2025 foi maior do que agora em 2026, e a moeda estrangeira regula insumos importados utilizados na indústria farmacêutica", disse.

No teto da meta

No acumulado do ano, o IPCA registrou alta de 2,60% no quadrimestre. Nos últimos 12 meses, o índice registrou elevação de 4,39%, ficando próximo do teto da meta de inflação, de 4,50%, o que, para economistas, acende um sinal de alerta e desafia a atuação do Banco Central para o controle das pressões inflacionárias.

"Apesar da leitura benigna na margem, com o IPCA vindo levemente abaixo do esperado, a composição segue qualitativamente pressionada, concentrada em itens essenciais, como alimentos e medicamentos, o que reduz o conforto do Banco Central e limita uma inflexão mais clara na trajetória de juros no curto prazo", avaliou Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.

Para ele, o resultado reduz o risco de surpresa inflacionária, mas não muda de forma relevante o cenário, já que a alta em itens menos sensíveis ao ciclo econômico mantém o processo de desinflação mais lento.

Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, destacou que o índice de abril mostra que a inflação segue sendo um fator central para a decisão de investimento das famílias. "A alta de alimentos, combustíveis, medicamentos e habitação atinge diretamente o custo de vida e reduz a capacidade de poupança", afirmou.

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Mesmo com desaceleração frente a março, Murad reforça que o índice acumulado ainda exige atenção. "Os setores que mais sofrem são aqueles ligados ao consumo das famílias e aos custos básicos da economia: alimentação, transporte, saúde, varejo e empresas intensivas em energia", reforçou.

 

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