Receita Federal

Erros na declaração do IR aumentam risco de cair na malha fina

Especialistas alertam para falhas comuns no Imposto de Renda que podem gerar multas, retenções e problemas fiscais

Faltando duas semanas para o encerramento do prazo de entrega da declaração do Imposto de Renda (IR) 2026, especialistas alertam que a confiança excessiva na declaração pré-preenchida e a falta de revisão continuam entre os principais motivos que levam os contribuintes à malha fina.

A proximidade do prazo final exige atenção redobrada, já que a pressa para enviar o documento pode aumentar o risco de inconsistências e erros de preenchimento.

A Receita Federal já recebeu mais de 25,6 milhões de declarações de pessoas físicas neste ano. O prazo de envio começou em 23 de março e termina em 29 de maio. A expectativa do órgão é receber cerca de 44 milhões de documentos até o encerramento do período.

Entre as declarações já enviadas, mais de 60% utilizaram a modalidade pré-preenchida, ferramenta que ganhou espaço nos últimos anos por facilitar o preenchimento automático de informações fiscais. Apesar do avanço tecnológico, especialistas reforçam que o sistema não elimina a necessidade de conferência detalhada dos dados.

Segundo o especialista em direito tributário pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) Fabrício Tonegutti, muitos contribuintes acreditam que o modelo pré-preenchido funciona como uma declaração pronta, o que pode gerar problemas. "Ela ajuda muito, mas não elimina erros. Os dados vêm de terceiros, como bancos, empresas, médicos e fontes pagadoras. Se alguma dessas informações estiver errada ou incompleta, e o contribuinte não revisar, o problema continua existindo", afirma.

Pontos de atenção

De acordo com dados do Fisco, os principais motivos que levam as declarações à malha fina continuam relacionados a falhas consideradas comuns no preenchimento. As despesas médicas lideram o ranking, representando 32,6% das retenções. Em seguida aparecem omissão de rendimentos (30,8%), outras deduções (16%) e diferenças no imposto retido na fonte (15,1%).

As despesas médicas concentram grande parte dos erros porque envolvem detalhes que costumam passar despercebidos pelo contribuinte. Segundo Tonegutti, é comum a inclusão de gastos não dedutíveis ou lançamentos sem documentação adequada.

"Muita gente declara qualquer gasto ligado à saúde sem verificar se ele realmente pode ser abatido. Vacinas, nutricionistas e enfermeiros, por exemplo, não entram como despesas dedutíveis no Imposto de Renda. Também há casos em que o contribuinte esquece de descontar o valor reembolsado pelo plano de saúde", explica.

Outro erro recorrente é a omissão de rendimentos extras. O especialista destaca que muitos contribuintes lembram apenas do salário principal e acabam deixando de fora outras fontes de renda, como aluguel, aposentadoria, trabalhos temporários, aplicações financeiras e ganhos com ações ou fundos imobiliários. "Quando o dependente entra na declaração, todos os rendimentos dele também precisam ser informados. Esse é um detalhe que muita gente esquece", ressalta.

Na categoria "outras deduções", entram problemas relacionados a despesas educacionais fora das regras permitidas, pensão alimentícia preenchida incorretamente, inclusão indevida de dependentes e deduções sem comprovação documental.

Para evitar inconsistências, especialistas recomendam revisar recibos, informes de rendimento e dados bancários antes do envio da declaração, além de comparar os modelos simplificado e completo no próprio sistema da Receita. "Muita gente tenta montar a declaração imaginando qual opção fará pagar menos imposto. Mas o próprio programa já mostra qual modelo é mais vantajoso. O importante é preencher tudo corretamente e evitar improvisos", reforça Tonegutti.

Alerta contábil

Erros na prestação de contas não atingem apenas pessoas físicas e grandes empresas. Organizações do terceiro setor e pequenos negócios também podem sofrer impactos financeiros e legais por falhas consideradas simples, como atraso no envio de declarações, omissão de receitas e informações cadastrais desatualizadas.

Segundo a diretora da Brasís Contabilidade, Cristiane Almeida, especialista em assessoria para pequenas empresas, erros na declaração podem gerar multas, bloqueios fiscais e até impedir a participação de organizações em editais públicos e parcerias futuras.

"Pequenas inconsistências podem travar a organização e prejudicar atividades sociais importantes. Falhas nos registros geram multas, atrasos na prestação de contas e questionamentos de órgãos fiscalizadores, afetando diretamente a credibilidade junto a doadores e parceiros", afirma.

Entre os problemas mais recorrentes identificados por escritórios contábeis estão a omissão de doações recebidas, o preenchimento incorreto de receitas e despesas, a falta de atualização cadastral e o atraso no envio das obrigações fiscais.

Na prática, essas inconsistências podem levar à suspensão temporária do CNPJ, restrições fiscais e impedimentos legais que comprometem a continuidade de projetos sociais e o funcionamento administrativo das entidades.

De acordo com Cristiane, um dos principais erros ocorre na falta de integração entre os relatórios financeiros e a contabilidade oficial das organizações, especialmente em instituições que administram recursos de diferentes origens, como convênios, subvenções e doações privadas.

"Os profissionais do terceiro setor precisam revisar a prestação de contas de projetos em andamento, identificar corretamente a natureza de cada receita e despesa e garantir que todas as informações estejam alinhadas com os registros contábeis. O planejamento antecipado evita que problemas aparentemente simples se transformem em crises financeiras e institucionais", explica.

A especialista também recomenda atenção à regularização cadastral de dirigentes e responsáveis legais, além do acompanhamento rigoroso dos prazos de envio das declarações fiscais.

Outro ponto considerado essencial é manter organizados os comprovantes de recebimentos, extratos de doações e documentos relacionados a despesas operacionais, reduzindo o risco de autuações futuras. "Com organização, conferência prévia das informações e suporte contábil especializado, é possível evitar restrições fiscais e preservar a credibilidade da instituição perante órgãos de fiscalização e parceiros financeiros", recomenda Cristiane Almeida.

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