Estocolmo — O futuro dos produtos à base de nicotina e o papel da ciência na formulação de políticas públicas são os pilares da Philip Morris International (PMI) para avançar no debate regulatório. Entre hoje (19/5) e amanhã (20/5), o Technovation 2026 reunirá executivos da multinacional, pesquisadores e especialistas para discutir como a inovação tecnológica e as evidências científicas podem moldar as regras do setor.
Na abertura do evento, o vice-presidente de Comunicação da PMI, Tommaso Di Giovanni, destacou: “Estamos diante de uma transformação impulsionada por ciência, tecnologia e inovação”. Em Estocolmo, o foco central das discussões foram as experiências internacionais de redução de danos e o avanço de alternativas sem combustão, como vapes, tabaco aquecido e produtos orais.
Durante as apresentações, representantes da PMI defenderam que a inovação frequentemente enfrenta resistência inicial, mesmo quando baseada em evidências científicas. O argumento central é que as regulações podem demorar a incorporar novas tecnologias, o que, na visão da indústria, limita potenciais ganhos em saúde pública.
Um dos exemplos citados foi o cinto de segurança de três pontos, criado pelo engenheiro sueco Nils Bohlin em 1958. Apesar do impacto na segurança viária, o uso obrigatório levou 13 anos para ser adotado pelo governo australiano, caso usado como analogia para os debates atuais sobre novos produtos de nicotina.
A vice-presidente de assuntos científicos da PMI, Gizelle Baker, ressalta que o envelhecimento da população e o consequente encarecimento dos sistemas de saúde exigem uma mudança urgente de foco na saúde pública, defendendo que, em vez de apenas prolongar a vida de pacientes enfermos, a prioridade máxima deve ser descobrir "como manter as pessoas saudáveis".
Diante desse cenário desafiador, ela argumenta que a redução de danos associada ao tabagismo é uma peça-chave e inevitável nessa equação. "Se você não abordar a redução de danos do tabaco, não acho que vencerá essa batalha. E os novos produtos sem fumaça avançam nessa direção".
Suécia é apresentada como referência
A Suécia foi destacada como principal caso de redução do tabagismo por meio de alternativas sem combustão. Segundo dados apresentados no evento, a taxa de fumantes no país caiu de 35% nos anos 1980 para 5,4% atualmente, enquanto a média da União Europeia é de 23%.
A indústria atribui parte desse resultado ao uso de produtos orais de nicotina, como snus e bolsas de nicotina, que são proibidos no Brasil. Também foi citado que a incidência de doenças relacionadas ao tabaco na Suécia é 40% menor que a média europeia.
Tecnologia e transição da indústria
Outro ponto central do Technovation foi a evolução tecnológica dos dispositivos sem fumaça. Executivos da PMI afirmaram que tentativas anteriores de desenvolver alternativas ao cigarro nas décadas de 1990 e 2000 fracassaram por limitações técnicas.
Segundo a empresa, o avanço atual só foi possível graças à miniaturização de componentes da indústria de smartphones, permitindo maior controle de temperatura e eliminando a combustão do tabaco, considerada o principal fator de risco do cigarro convencional.
A PMI informou ter investido mais de US$ 16 bilhões em pesquisa, desenvolvimento e comercialização de produtos sem fumaça. Segundo dados apresentados, 99,7% do orçamento de pesquisa da companhia é direcionado exclusivamente a essas alternativas.
Atualmente, a empresa atua em 106 mercados e soma cerca de 43 milhões de usuários desses produtos, dos quais 70% teriam abandonado o cigarro convencional. A aquisição da Swedish Match, em 2022, por US$ 16 bilhões também foi citada como parte da estratégia de expansão no segmento de produtos orais.
Brasil mantém proibição e vê avanço do consumo
Enquanto países europeus adotam modelos regulados, o Brasil mantém uma das legislações mais restritivas do mundo para cigarros eletrônicos. Em 2024, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) manteve a proibição da fabricação, importação e comercialização de dispositivos eletrônicos para fumar.
Apesar disso, o uso de vapes cresceu 600% em seis anos, chegando a cerca de 3 milhões de usuários em 2024, segundo o Ipec. Entre adolescentes de 13 a 17 anos, a experimentação atingiu 29,6%, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar feita há dois anos. Em 2019, o índice estava em 16,8%.
O país também registrou aumento no número de fumantes de cigarros convencionais, que passou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024.
*O jornalista viajou a convite da Philip Morris International
