Macroeconomia

Boletim Focus: mercado vê inflação acima de 5% em dezembro

A disparada da cotação do petróleo, por causa do conflito na Ásia, é uma das maiores responsáveis pela alta generalizada dos preços, que impacta a inflação brasileira e trava queda dos juros

O efeito dominó que o conflito armado no Oriente Médio provoca nos preços globais afeta direta e indiretamente os preços de quase todas as cadeias globais de suprimentos. A cotação do petróleo — um dos setores mais impactados pela guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, prestes a completar três meses — está diretamente ligada à atividade econômica mundo afora e aqui, no Brasil. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 1,55% nos meses de março e abril, e a tendência é que também venha mais forte no resultado de maio.

"A duração do conflito até esse momento pode ter sido suficiente para materializar alguns riscos, sendo o mais evidente a desancoragem adicional das expectativas de inflação para horizontes mais longos", informou o Banco Central.

Com os preços em alta, agentes do mercado financeiro aumentam a previsão para a inflação oficial no fim deste ano. De acordo com a edição mais recente do Relatório de Mercado Focus, divulgado nesta segunda-feira (25/5), pelo BC, a mediana das previsões para o IPCA em 2026 passou de 4,92% para 5,04% em apenas uma semana. Além de ser um aumento expressivo, é a 11ª vez consecutiva que essa projeção cresce na comparação com o boletim anterior. Para 2027, a expectativa, porém, é de estabilização, com residual avanço de 4% para 4,01%.

Selic e PIB

A previsão de uma inflação maior também gera uma preocupação em relação à taxa de juros, que, ao que tudo indica, deve ter uma trajetória de queda mais lenta do que a esperada antes da guerra. No relatório divulgado ontem, o mercado manteve a projeção para a Selic em 13,25% ao ano. Atualmente, a taxa básica da economia está em 14,5% a.a.

"As projeções para as taxas de juros permanecem sob forte pressão dentro desse contexto, e a estimativa da Selic, no final do ano, seria de 13,25%. Mesmo que tenha ficado igual à projeção da semana anterior, ainda assim, é uma taxa extremamente restritiva, conforme a leitura de mercado", avalia o economista-chefe da Bluemetrix Asset, Renan Silva.

Além da inflação, o mercado também espera um crescimento maior da atividade econômica no fim de 2026. A nova previsão para o Produto Interno Bruto (PIB) no ano é de crescimento de 1,89%, ante um avanço de 1,85% divulgado no relatório da semana anterior. Para 2027, no entanto, a projeção caiu de 1,77% para 1,7%. No caso do câmbio, a nova previsão divulgada pelo Focus é de um dólar vendido a R$ 5,17 no fim do ano, abaixo da estimativa do último relatório, que apontava para um valor de venda a R$ 5,20. Também houve ligeira queda nas projeções para 2027 (de R$ 5,27 para R$ 5,26) e 2028 (de R$ 5,34 para R$ 5,30).

Para o analista econômico Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, o aumento da projeção para a atividade em contraponto com a expectativa de um dólar menos valorizado no final do ano indicam que o mercado ainda percebe uma resiliência na economia brasileira, mesmo com o cenário externo desfavorável. "O problema, no entanto, é justamente esse, de que a atividade segue forte o suficiente para dificultar o trabalho do Banco Central no controle da inflação. O mercado segue enxergando juros elevados por mais tempo, principalmente, enquanto as expectativas inflacionárias continuarem desancoradas", pondera o analista.

Dólar e bolsa

Apesar da projeção desfavorável para os preços internos, o sentimento foi positivo no pregão de ontem para o mercado acionário. O Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa/B3) encerrou a sessão em alta de 0,91%, aos 177.815 pontos, em dia marcado pelo feriado do Memorial Day, nos Estados Unidos, o que contribuiu para um volume mais baixo de negócios na bolsa brasileira. O resultado do Ibovespa também foi possível em razão do avanço das negociações entre Estados Unidos e Irã, mesmo sem definição alguma sobre o acordo de paz que está sendo costurado pelos dois governos.

Com o feriado nos EUA, o real também se valorizou em relação ao dólar no primeiro dia de operações da semana, com uma queda de 0,19% no câmbio, que fechou a R$ 5,02. Na avaliação de Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, o ambiente de alívio geopolítico e menor aversão a risco contribuíram para a performance da moeda brasileira. "A queda do petróleo e o recuo parcial dos prêmios de risco ajudaram a manter o dólar próximo da estabilidade ao redor de R$ 5,00, em um pregão de baixa liquidez e volume reduzido", comenta.

 

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