
O israelense Uri Levine, cofundador de dois unicórnios — startups que ultrapassam o valor de US$ 1 bilhão — escolheu São Paulo para lançar mundialmente, no final de julho, seu segundo livro, O Simples Vence, publicado pela Citadel Editorial. A obra é considerada pelo próprio autor uma continuidade do best-seller anterior, Apaixone-se Pelo Problema, Não Pela Solução, de 2023, referência entre os empreendedores brasileiros. Para ele, a simplicidade é a essência da vantagem competitiva não apenas em produtos, mas também na comunicação e no modelo de negócios, como explicou em entrevista ao Correio, por videoconferência.
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Criador de importantes ferramentas de mobilidade, o Waze e o Moovit, vendidas por mais de US$ 1,1 bilhão cada para o Google e para a Intel, respectivamente, passou a dar palestras sobre empreendedorismo e tecnologia. Levine conta que quer mudar as estatísticas atuais, que revelam que apenas 15% das startups são bem-sucedidas.
Mas, de acordo com o empresário israelense, a simplicidade também é o auge da sofisticação ao construir algo. “Quando você cria algo simples, as pessoas usam; quando cria algo complexo, elas não querem usar. Talvez elas sejam obrigadas a usar por não terem outra escolha, mas, se você constrói algo complexo e seu concorrente cria algo simples, você vai perder”, pontua Levine. Ele ainda reforça que as coisas simples e a simplicidade permeiam tudo, não apenas o produto, mas a comunicação e os negócios.
“Você consegue explicar de forma muito simples; se a explicação é simples, as pessoas entendem. Se as explicações são complexas, as pessoas não entendem. É a mentalidade de construir algo simples — e ser simples não é fácil. Criar algo simples não é fácil, porque exige uma mudança de mentalidade. Em vez de pensar no produto, precisamos pensar no usuário. Em vez de pensar em si mesmo, precisamos pensar no cliente; é essa mentalidade que gera a simplicidade. E, no fim das contas, a simplicidade vence. É isso”, ressalta.
Foco no problema
Levine conta que, no novo livro, ele reforça o princípio do primeiro, de que os empreendedores devem “se apaixonar pelo problema, e não pela solução”, isto é, buscar entender profundamente uma dor real dos usuários antes de construir qualquer produto. Nesse sentido, ele critica startups que começam desenvolvendo soluções complexas sem validar se o problema realmente existe e orienta que a validação deve ocorrer por meio de conversas presenciais e profundas com usuários reais, evitando questionários superficiais e pesquisas genéricas.
“O empreendedor precisa entender nuances, comportamentos e percepções humanas”, frisa.
Outro ponto central do livro é o conceito de Product Market Fit (PMF), considerado a etapa mais importante de qualquer startup. Segundo Levine, o PMF ocorre quando o produto gera valor suficiente para que os usuários retornem espontaneamente e a principal métrica para medir isso é a retenção. Logo, se o usuário não volta, o produto não resolveu adequadamente o problema. Com isso, na jornada empreendedora, há uma longa sequência de fracassos, experimentos e crises e, portanto, é preciso errar rápido e aprender e corrigir o mais rápido ainda.
Não à toa, a apresentação do livro é assinada por Andre Street, fundador da Stone e Teya UK. “Esta obra oferece uma visão prática e direta sobre o que separa empresas excepcionais das médias – sintetizada em três palavras: foco, simplicidade e o que NÃO fazer”, escreve. “A tese central é quase contraintuitiva. O que distingue produtos como Google, WhatsApp, Uber, Waze e Pix não é a tecnologia em si – é a simplicidade. Você não precisa de manual nem treinamento. Essa simplicidade é o que conquista a “maioria precoce”, o grupo que tem medo de mudar e que representa a maior fatia do mercado. Conquistar essas pessoas com algo simples é a vitória mais difícil e, ao mesmo tempo, a mais duradoura”, acrescenta.
Potencial do Brasil
De acordo com Levine, o Brasil foi escolhido para o lançamento global do livro devido ao tamanho do mercado, além do sucesso do Waze no país e à sua afinidade com o povo brasileiro. “O Brasil é um país com potencial para figurar entre as cinco maiores economias globais, desde que haja visão e execução”, afirma.
O empresário também escolheu o Brasil para fazer o pré-lançamento de uma academia de startup para impulsionar o empreendedorismo no país. Atualmente, Levine atua como professor nos programas de MBA da IE University, em Madri, na Espanha, e da Universidade de Tel Aviv, em Israel, e, como gosta de lecionar, pretende compartilhar suas experiências dando aulas por meio da plataforma Uri Levine Startup Academy (ULSA), que será lançada oficialmente em agosto.
O curso é destinado a empreendedores, fundadores de startups e empresários e o formato dos cursos da Academia é on-line. As inscrições podem ser feitas por meio do site da ULSA (Uri Levine Startup Academy - Founder-Led Startup Education). Inicialmente, serão 11 módulos, cobrindo toda a jornada de uma startup — validação de ideia, pesquisa com usuários, ajuste do produto ao mercado (PMF), vendas, crescimento, formação de equipe e captação de recursos, mas esse número será ampliado ao longo do tempo, assim como rodas de perguntas com o próprio Uri Levine, que será uma espécie de coach dos alunos.
As inscrições estão abertas, com desconto para inscrição antecipada. O lançamento completo está previsto para agosto e não há processo seletivo fechado. Levine contou ainda que ele e sua equipe planejam adicionar, futuramente, uma funcionalidades que permitam aos investidores brasileiros descobrirem as startups da Academia.“ A ideia é criar uma plataforma que mude a dinâmica, em vez de os empreendedores correrem atrás de investidores, os investidores virão até eles na Academia”, explica. Contudo, ele conta que só pretende investir na Academia como uma iniciativa para ajudar os empreendedores, mas não demonstra interesse em fazer investimentos além das 10 startups que ele investe atualmente. “Eu só invisto nas minhas próprias startups”, frisa.
Trajetória
Ao contar como foi o princípio da criação do aplicativo de mobilidade Waze, Levine lembrou que a proposta inicial era tornar a ferramenta muito simples. “E, se você comparar o Waze hoje com o Google Maps ou o Apple Maps — ou qualquer outro —, ele é muito mais simples que todos os outros. A abordagem foi: "Espere um pouco, se queremos que as pessoas usem, precisamos...", explica.
Levine recorda que o Waze tinha um objetivo simples, pois buscava resolver um problema que, hoje, ajuda muitas pessoas, e, ao ver foi bem-sucedido, sente-se muito orgulhoso. “Se você resolver um grande problema, terá um grande sucesso. Tenho muito orgulho do Waze — e, aliás, especialmente aqui no Brasil —, porque ele gera muito valor para tantas pessoas. E sinto orgulho de ser o fundador que criou todo esse valor para elas”, afirma.
De acordo com Levine, a tese central do livro é a simplicidade, com abordagem centrada no problema e, no caso do Waze, a ferramenta era intencionalmente simples em comparação com as alternativas (mapas), porque entregava valor ao resolver incertezas relacionadas ao trânsito e às rotas. “A simplicidade é a vantagem competitiva definitiva, não apenas em produtos, mas também na comunicação, nos modelos de negócios e na experiência do usuário. Os empreendedores devem apaixonar-se pelo problema, não pela solução": identificar um problema real, descobrir quem o enfrenta, validar com usuários e, então, iterar sobre a solução”, explica.
Produtividade
Em relação ao avanço exponencial do uso da inteligência artificial no cotidiano das pessoas e das empresas, Levine considera que a grande utilidade da IA é quando ela aumenta a produtividade. “Ela ajuda-nos a fazer as coisas mais rápido e melhor, e em muitos aspectos da nossa vida, a obter informações, fazer análises básicas de dados, criar produtos... Você pode usar a IA para criar um produto de software, mesmo sem saber programar; você pode usar ferramentas para fazer isso por você. Criar produtos ficou muito mais rápido”, destaca.
“Você precisa usar IA para aumentar sua produtividade. E isso acontece em todas as gerações. O iPhone fez o mesmo: aumentou drasticamente a produtividade. A internet, antes disso, fez o mesmo; aviões e carros também. Quase todas as revoluções que você imaginar proporcionaram um grande salto na nossa capacidade de produzir coisas — mais rápido, melhor e em maior quantidade. E, em muitos casos, com muito menos esforço. O resultado é que, sempre que ocorre uma revolução desse tipo, vemos um aumento na produtividade. Ao mesmo tempo, diria que criar um produto em um período muito curto já não é mais uma vantagem”, acrescenta. Para ele, o uso da IA tende a tornar a vida de todos muito melhor em diversas áreas.
Apesar do conflito no Oriente Médio aumentando as incertezas globais, Levine demonstra otimismo com a possibilidade de um acordo de paz realmente ser bem-sucedido. “Talvez exista uma oportunidade para um novo Oriente Médio, voltado para a paz. E essa nova oportunidade criará, de fato, uma nova realidade, e espero que vejamos isso acontecer. Então, espero que vejamos um novo Oriente Médio”, afirma.

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