
Reduzir a jornada de trabalho sem ampliar a produtividade pode comprometer a competitividade da indústria e a geração de empregos no país. Esse foi o principal alerta do especialista em Políticas e Indústria da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Pablo Rolim, e do superintendente de Economia da entidade, Márcio Guerra, em entrevista aos jornalistas Denise Rothenburg e Carlos Alexandre de Souza, no
Podcast do Correio. Segundo eles, antes de qualquer mudança na carga horária dos trabalhadores, é preciso criar condições para que as empresas produzam mais, mantendo a capacidade de investimento e de contratação.
Os especialistas defenderam também que é preciso uma discussão ampla do tema antes da aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 8/2025, que trata do fim da jornada 6x1 e está parada no Senado Federal.
Nesse sentido, Pablo Rolim destacou que a CNI não é contrária à discussão sobre novos modelos de jornada, mas é favorável a uma alteração que seja construída por meio do diálogo entre trabalhadores, empresas e poder público. "Nós defendemos uma discussão ampla, transparente e racional. O objetivo deve ser encontrar um equilíbrio entre qualidade de vida, produtividade, competitividade e preservação dos empregos", garantiu.
De acordo com Rolim, a produtividade depende de investimentos em tecnologia, inovação, qualificação da mão de obra e melhorias nos processos produtivos. Na avaliação do especialista, discutir apenas a redução da jornada sem observar esses fatores pode gerar custos para empresas e para o próprio país. "A conta não pode ficar apenas para as empresas. Se perdermos competitividade, quem paga essa conta é o Brasil como um todo."
Para o executivo, a discussão deve ir além do desejo de diminuir as horas trabalhadas e considerar o funcionamento da economia. "Existe um apelo social. As pessoas pensam que vão ter mais tempo e mais qualidade de vida. Mas é preciso criar o caminho para essa flexibilização da jornada, e não o contrário. Não é a simples mudança do regime de trabalho que vai gerar produtividade do dia para a noite", afirmou.
Rolim ressaltou ainda que a realidade da indústria brasileira é bastante diversa e que uma regra única dificilmente atenderia todos os segmentos. "Há setores que conseguiram ganhos expressivos de produtividade por causa da tecnologia e dos investimentos. Outros ainda enfrentam dificuldades para competir. É preciso identificar essas diferenças antes de estabelecer qualquer mudança", explicou.
Negociação
A negociação coletiva continua sendo o melhor caminho para adaptar a jornada às necessidades de cada atividade econômica, ao ver de Rolim. "A solução mais rápida e que permite adaptações é a negociação coletiva. Ela possibilita construir acordos entre empresas e sindicatos de acordo com a realidade de cada categoria", defendeu.
Márcio Guerra, por sua vez, argumentou que a principal preocupação da indústria é garantir que mudanças na legislação não reduzam a capacidade de competir no mercado nacional e internacional. Segundo ele, muitas empresas não conseguiriam simplesmente contratar novos trabalhadores para compensar uma eventual redução da carga horária.
"O supermercado talvez consiga reorganizar a equipe, porque encontra profissionais com mais facilidade. Mas há setores que trabalham com soldadores especializados, técnicos e profissionais altamente qualificados. Essas pessoas não estão disponíveis no mercado para serem contratadas de uma hora para outra", pontuou.
O economista destacou que a falta de mão de obra especializada já é um problema enfrentado por diversos segmentos industriais e que isso pode levar empresas a reorganizar turnos, investir em tecnologia ou ampliar o pagamento de horas extras, em vez de abrir novas vagas. "Não é uma conta linear. Nem toda empresa vai contratar mais gente. Dependendo da atividade, ela pode reduzir a produção porque simplesmente não consegue encontrar trabalhadores qualificados", afirmou.
Na entrevista, Guerra também contestou a ideia de que a redução da jornada, por si só, resultaria na criação de empregos. "A expectativa de que todas as horas reduzidas serão transformadas em novas vagas não corresponde à realidade. Cada empresa vai reagir de uma maneira diferente, conforme seus custos, seu processo produtivo e a disponibilidade de profissionais", alertou.
Bem-estar
Outro ponto levantado pelos entrevistados foi a necessidade de ampliar o debate sobre qualidade de vida. Para Pablo Rolim, a jornada de trabalho é apenas um dos fatores que influenciam o bem-estar da população. "A média do brasileiro passa mais de duas horas por dia em deslocamentos. Saúde, mobilidade, educação e qualidade de vida são questões multifatoriais. Não podemos colocar tudo na conta do trabalho", disse.
Os representantes da CNI também demonstraram preocupação com o momento em que o debate ocorre. Segundo Rolim, propostas estruturais precisam ser discutidas de forma técnica e sem influência do calendário eleitoral. "Quando esse debate é generalizado em um ano eleitoral, parece que o interesse deixa de ser resolver o problema no longo prazo. Precisamos de informação, avaliação de impacto e diálogo", acrescentou.
Márcio Guerra ainda ressaltou que mudanças dessa dimensão devem ser implementadas de forma gradual e acompanhadas de indicadores que permitam medir seus resultados. "O ideal seria testar modelos, acompanhar os impactos e fazer ajustes. É uma mudança muito importante para ser feita sem controle e sem avaliação", disse.
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Ao abordar o cenário econômico, Guerra lembrou que a indústria brasileira perdeu participação no Produto Interno Bruto (PIB) do país ao longo das últimas décadas, e enfrenta concorrência crescente de produtos importados. "O setor vem perdendo competitividade há muitos anos. Se aumentarmos os custos sem elevar a produtividade, podemos perder investimentos, empregos e espaço no mercado internacional", declarou.
*Estagiária sob a supervisão de Rosana Hessel
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