
Após registrar resultados históricos em 2025, a indústria brasileira da carne bovina iniciou 2026 em um cenário de maior cautela. Embora o Brasil tenha consolidado a liderança mundial na produção e exportação do produto, representantes do setor avaliam que a combinação de menor demanda internacional, novas barreiras comerciais, especialmente da China e União Europeia, e desafios internos têm pressionado frigoríficos e reduzido as margens da atividade neste ano.
Conforme os dados do Beef Report 2026, divulgado pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), o país exportou 3,5 milhões de toneladas de carne bovina em 2025, alcançando faturamento próximo de US$ 18 bilhões. Segundo a entidade, o Brasil também passou a ocupar a posição de maior produtor mundial de carne bovina, com produção de 12,35 milhões de toneladas, além de exportar para 177 mercados.
Apesar dos números recordes registrados no ano passado, o presidente da Abiec, Roberto Perosa, reconheceu que o cenário atual exige atenção por parte da indústria. Entre essas dificuldades estão os problemas com a China, a diminuição ou interrupção temporária de exportações para a União Europeia, além de questões geopolíticas e guerras", afirmou o executivo. "Existe uma grande possibilidade de não conseguirmos mais vender para a União Europeia a partir de setembro, o que exigirá um período de adaptação envolvendo tanto a fiscalização do governo quanto a produção brasileira", acrescentou.
De acordo com o Perosa, as exportações continuam desempenhando um papel importante para equilibrar os preços da carne no mercado brasileiro. "Temos uma demanda aquecida no Brasil, mas é a demanda global pela carne que viabiliza a manutenção dos preços no mercado interno. O principal mercado brasileiro é o interno, onde deixamos cerca de 70% do que produzimos. No entanto, a exportação complementa e cria um mix que evita a necessidade de uma elevação aguda de preços no mercado interno", afirmou Perosa.
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Contudo, esse equilíbrio, historicamente sustentado pelos mercados externos, perdeu força nos últimos meses, principalmente em razão da redução da demanda chinesa, segundo Perosa. A queda nas exportações para a China se deve às novas cotas que começaram a valer desde o início do ano, de 1,1 milhão de toneladas. Volumes que excederem esse limite serão taxados com uma tarifa de 55%.
"Esse mix, que antes trazia a garantia de uma remuneração melhor no mercado externo, hoje não existe, principalmente por conta da China. Estamos vendo diversas indústrias com muita dificuldade, seja econômica ou de compra de animais, e a maioria está trabalhando no vermelho", disse.
Na avaliação do dirigente, o momento tem levado empresas a adotar diferentes estratégias para reduzir custos e preservar as operações. Entre as medidas estão férias coletivas, redução do ritmo de abate, readequação dos quadros de funcionários e, em alguns casos, demissões. Perosa informou ainda que, além da desaceleração das compras chinesas, o setor também enfrenta dificuldades relacionadas às restrições nas exportações para a União Europeia e aos impactos provocados pelo cenário geopolítico internacional. "Cada indústria adota sua própria estratégia para tentar passar por esse período de baixa demanda da Ásia e enfrentar as dificuldades vislumbradas à frente.
Demanda crescente
Apesar do cenário de curto prazo mais desafiador, os dados do Beef Report apontaram que a demanda mundial por proteína animal deve continuar crescendo nos próximos anos, especialmente, na Ásia. A entidade avalia que avanços em produtividade, sustentabilidade, rastreabilidade e abertura de novos mercados continuarão sendo fundamentais para manter a competitividade da carne bovina brasileira no comércio internacional.
Outro indicador apontado pela entidade foi a participação recorde das fêmeas no abate formal, que alcançou 46,8% em 2025. Segundo a Abiec, o resultado está relacionado ao avanço do descarte técnico e aos ganhos de produtividade dos rebanhos.
O impacto econômico da cadeia da carne bovina também cresceu. Segundo o Beef Report, o setor movimentou mais de R$ 1,15 trilhão em 2025, passando a representar 9% do Produto Interno Bruto (PIB).
Na área ambiental, o estudo de descarbonização incorporado ao relatório projeta uma redução de pelo menos 79,9% na intensidade das emissões de gases de efeito estufa por quilo de carne produzida até 2050. Caso sejam alcançadas metas como desmatamento zero, ampliação das tecnologias previstas no Plano ABC , redução da idade de abate e adoção de aditivos para mitigação das emissões de metano, essa redução poderá chegar a 92,6%.
*Estagiário sob a supervisão de Rosana Hessel

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