Empreendedorismo

Desigualdade ainda limita oportunidades para jovens brasileiros

Pesquisa do Observatório Fundação Itaú mostra que 70% dos brasileiros de 16 a 29 anos trabalham ou fazem estágio; falta de experiência, desigualdade de renda e responsabilidades domésticas estão entre os principais desafios

A disparidade de renda aparece em vários indicadores da pesquisa -  (crédito:  Sebrae/IBQP)
A disparidade de renda aparece em vários indicadores da pesquisa - (crédito: Sebrae/IBQP)

Sete em cada dez brasileiros de 16 a 29 anos estão no mercado de trabalho ou fazem estágio, mas a entrada e a permanência profissional ainda são atravessadas por diferenças de renda, acesso à educação, falta de experiência e responsabilidades familiares. É o que aponta a pesquisa "Juventudes e o Mundo do Trabalho", realizada pelo Observatório Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva.

O levantamento foi apresentado durante o evento Trampos do Futuro e ouviu 1.816 jovens de todo o país. A pesquisa foi dividida em duas etapas: a primeira contou com 16 grupos focais virtuais, reunindo participantes de 16 a 29 anos de diferentes condições socioeconômicas; a segunda teve entrevistas quantitativas com jovens da mesma faixa etária.

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Entre os entrevistados, 70% trabalham ou fazem estágio. Do total, 32% conseguem conciliar emprego e estudos, enquanto 39% se dedicam somente ao trabalho. Outros 16% apenas estudam e 13% não trabalham nem estudam. Para Carla Chiamareli, gerente do Observatório Fundação Itaú, o número de jovens ocupados representa um indicador relevante, mas não elimina os desafios de inclusão produtiva. "Um dado positivo é ver que 70% dos jovens estão trabalhando. Ainda temos um problema de inclusão produtiva da juventude no país, mas esse é um indicador relevante diante do cenário econômico que vivemos", afirma.

A diferença entre os grupos aparece com maior intensidade quando a renda é considerada. Entre jovens das classes A e B, 48% conseguem estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Na classe D/E, o percentual cai para 16%. O recorte racial também mostra diferença: 38% dos jovens brancos conciliam as duas atividades, contra 29% dos negros.

A necessidade de priorizar o emprego aumenta conforme diminui a renda familiar. Nas classes A e B, 28% afirmam apenas trabalhar. O índice chega a 39% na classe C e alcança 47% entre os jovens das classes D e E. Para Chiamareli, a desigualdade econômica é um dos principais pontos revelados pelo levantamento. "Uma das coisas que mais me chamou atenção neste estudo foi a desigualdade de renda. Ela aparece de forma muito forte em vários indicadores da pesquisa, mais até do que em outros recortes", diz.

A educação também aparece associada às expectativas profissionais. Segundo o estudo, 88% dos participantes consideram necessário estudar mais atualmente para conseguir um bom emprego, enquanto 85% avaliam o diploma como importante para a trajetória profissional. O ensino técnico também ganha espaço: 91% consideram cursos técnicos e profissionalizantes um caminho rápido para entrar no mercado de trabalho.

A rotina, porém, não se resume ao emprego e à formação. Metade dos entrevistados afirma ser responsável pelos cuidados da casa. Entre as mulheres, 60% realizam tarefas domésticas, diante de 40% dos homens. No cuidado de crianças, idosos ou outras pessoas, a diferença também aparece: 28% das mulheres desempenham essas atividades, contra 14% dos homens.

"Essa juventude é uma juventude de batalhadores. Ela precisa estudar, trabalhar e, muitas vezes, também cuidar da família, dos pais, dos filhos ou de outras pessoas", afirma Chiamareli. Segundo ela, os dados mostram que as responsabilidades de cuidado continuam distribuídas de maneira desigual e atingem principalmente quem já enfrenta dificuldades econômicas.

A procura por uma vaga também impõe obstáculos. Do total de participantes, 61% dizem ter buscado emprego no último ano e 20% estão procurando trabalho atualmente. A falta de experiência prática foi apontada por 49% como a principal dificuldade para conseguir uma oportunidade. Em seguida aparecem a concorrência por vagas, mencionada por 39%, os problemas de deslocamento, com 28%, e a falta de qualificação, citada por 25%.

As redes de relacionamento também participam desse processo. Para 46% dos jovens, a família é a principal fonte de orientação profissional. Amigos e conhecidos aparecem em seguida, com 40%. Entre aqueles que trabalham ou já trabalharam, 77% afirmam ter conseguido emprego por indicação pelo menos uma vez.

A experiência prática é valorizada pela maioria. Nove em cada dez participantes dizem aprender mais na prática do que somente por meio dos estudos teóricos. Além disso, 60% defendem que programas de apoio ao emprego deveriam oferecer atividades práticas, e não apenas conteúdos em sala de aula.

“Os jovens estão vendo muito mais sentido na prática e no mundo do trabalho do que no processo educativo tradicional. Isso nos faz refletir sobre que currículo a escola e a universidade estão oferecendo”, afirma Chiamareli. Para a especialista, é necessário aproximar a formação das situações encontradas no cotidiano profissional.

A superintendente do Itaú Educação e Trabalho, Silvana Oliveira, também defendeu maior participação do setor produtivo na formação profissional. Durante o evento, ela afirmou que “o setor produtivo tem que sair do final da linha, de quem só recebe o talento, e tem que fazer junto”. Segundo Silvana, escolas, empresas e governo precisam atuar de forma articulada para responder às demandas da educação brasileira.

Outro resultado aponta para o interesse dos jovens pela formação técnica. A Fundação Itaú defende a ampliação da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) e cita resultados do estudo longitudinal Para onde vão os egressos da EPT. Segundo a instituição, jovens formados nessa modalidade apresentam melhores condições de entrada no mercado e também registram taxas superiores de ingresso e conclusão no ensino superior.

O levantamento ainda mostra que os jovens não enxergam o futuro apenas pela perspectiva do emprego formal. Atualmente, 30% afirmam desejar trabalhar com carteira assinada. Quando projetam os próximos cinco anos, esse percentual cai para 16%, enquanto a preferência pelo trabalho autônomo passa de 28% para 42%.

O salário continua sendo o principal fator na escolha de uma vaga, citado por 64% dos entrevistados. Ao mesmo tempo, 62% afirmam que aceitariam receber menos para trabalhar em um ambiente com menor pressão e estresse. O dado mostra que a qualidade da rotina profissional também ocupa espaço nas decisões sobre carreira.

As expectativas financeiras permanecem elevadas. Segundo a pesquisa, 91% acreditam que estarão em uma condição financeira melhor daqui a cinco anos. Outros 88% esperam ter uma situação econômica superior à de seus pais. Apesar disso, 61% temem não conseguir pagar as contas e ter uma vida tranquila.

A tecnologia aparece como outro ponto de atenção. Metade dos jovens demonstra receio de perder oportunidades profissionais por causa da inteligência artificial. Ao mesmo tempo, 97% afirmam utilizar a internet e ferramentas de IA para aprender e buscar crescimento profissional, indicando que a tecnologia é vista tanto como possibilidade de desenvolvimento quanto como fonte de incerteza.

Para Chiamareli, a mudança nas expectativas profissionais não representa necessariamente uma rejeição ao emprego formal. “Hoje eles querem um trabalho estável para amanhã serem autônomos. Eu vejo isso como um sinal de amadurecimento e de construção de projeto de vida”, explica.

Os resultados da pesquisa apontam, portanto, para uma juventude que já participa do mercado de trabalho, mas precisa conciliar diferentes responsabilidades e enfrentar barreiras para avançar profissionalmente. A falta de experiência prática, as diferenças de renda, as dificuldades de deslocamento e a divisão desigual das tarefas de cuidado aparecem entre os fatores que interferem nessa trajetória.

Ao reunir dados sobre emprego, educação, renda, tecnologia e expectativas, o estudo reforça a necessidade de aproximar formação e mercado de trabalho. A proposta defendida pela Fundação Itaú envolve ampliar experiências práticas, fortalecer a educação profissional, aproximar empresas das instituições de ensino e ampliar oportunidades para jovens de diferentes regiões e condições sociais.

 *Estagiárias sob a supervisão de Edla Lula

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GS
postado em 22/08/2026 03:28
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