Política pública

Concentração de riqueza aumenta e amplia desigualdade no país

Relatório da Oxfam Brasil mostra que o 1% mais rico concentra 37,3% da riqueza no país, apesar da redução da pobreza

Sol Nascente: CNBB lamenta
Sol Nascente: CNBB lamenta "falta de responsabilidade das autoridades" para combater a desigualdade social e o aumento da violência - (crédito: Ed Alves/CB/DA.Press)

Apesar da melhora de alguns indicadores sociais nacionais após o retrocesso global provocado pela pandemia da covid-19, um novo relatório da Oxfam Brasil mostra que a desigualdade e a concentração de riqueza continuam aumentando no país de forma consistente. Segundo o relatório Um Retrato das Desigualdades Brasileiras — Poder, Privilégio e a Captura da Democracia, divulgado na noite de quarta-feira, a concentração de riqueza está cada vez mais acentuada no país e pode ameaçar a democracia, uma vez que o topo da pirâmide tem maior capacidade de influenciar eleições, políticas públicas, regulações e destinação dos recursos do Estado. 

Entre 2017 e 2023, segundo o relatório, a participação da fatia da população 1% mais rica passou de 20,4%, em 2017, para 24,3%. Além disso, cerca de 85% desse aumento ficou com o 0,1% mais rico, e metade foi apropriada pelo 0,01% situado no extremo superior da distribuição. A desigualdade ainda é maior quando se observa o patrimônio, conforme os dados do relatório, que utilizou como base as declarações do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF). Em 2023, os 10% mais ricos concentravam 64,2% da riqueza declarada, enquanto o 1% do topo detinha 37,3% do patrimônio. 

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E, para piorar, a desigualdade na tributação é escancarada entre ricos e pobres. A classe média assalariada paga 27,5% de Imposto de Renda. Já o topo da pirâmide que representa 0,01% dos mais ricos e recebe rendimentos por meio de lucros, dividendos, aplicações financeiras e ganhos de capital, paga alíquota efetiva 4,6%, "revelando os limites da progressividade tributária", alerta o estudo de 92 páginas.

O relatório também ressalta o abismo dos patrimônios entre os gêneros de trabalhadores brasileiros. As mulheres representam 44,1% dos declarantes de Imposto de Renda, mas recebem apenas 38% da renda declarada e concentram somente 29,5% dos bens líquidos. O patrimônio médio declarado pelas mulheres é de R$ 246 mil, pouco mais da metade dos R$ 463,6 mil registrados entre os homens, que continuam recebendo salários maiores do que as mulheres.

Na contramão, a pesquisa Síntese de Indicadores Sociais, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2025, mostra que 8,6 milhões de brasileiros deixaram a linha da pobreza e, com isso, a proporção da população nessa condição recuou 27,3% para 23,1%. No entanto, os perfis mais afetados pela vulnerabilidade extrema continuam sendo mulheres, crianças de zero  a 14 anos e a população negra, majoritariamente concentrados no Norte e Nordeste.

ECO-Oxfam Brasil
ECO-Oxfam Brasil (foto: Valdo Virgo)

O relatório mostra também que a desigualdade não é um privilégio do Brasil, mas o país está entre os mais desiguais do mundo. "Conforme levantamento do banco suíço UBS, o Global Wealth Report 2026, que coloca o Brasil na 4ª posição mundial em desigualdade patrimonial, com um coeficiente de Gini de riqueza de 0,81 (UBS, 2026)", destacou o estudo. O mesmo relatório apontou que o país encerrou o ano de 2025 com cerca de 386 mil milionários em dólar — o maior contingente absoluto da América Latina. 

Incômodo

Ao analisar os resultados do estudo da Oxfam Brasil, a economista Juliana Inhasz, professora do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), em São Paulo, reconhece que houve redução da pobreza no país, mas a desigualdade continua crescendo e isso é algo que incomoda bastante. "Especialmente no momento em que estamos com um governo que, teoricamente, tem essa inclinação maior para o social, isso realmente incomoda, porque os dados deixam muito claro, no final do dia, que crescer, e ao mesmo tempo, tentar reduzir a pobreza não é uma combinação suficiente para reduzir desigualdade, porque pobreza e desigualdade são fenômenos completamente diferentes", explicou.  

A professora do Insper lembrou ainda que, quem está na base dessa distribuição de renda, em grande parte, tem rendimentos predominantemente do trabalho, enquanto quem está no topo, tem renda diversificada, como ação, dividendo, imóvel, juro, lucro de empresa, ou seja, gestão de patrimônio.

Não à toa, frente de preocupação relacionada à questão política neste ano de eleições presidenciais apontada pelos autores é o Orçamento e as emendas parlamentares, que passaram de R$ 10,2 bilhões, em 2014, para R$ 49,17 bilhões, em 2024, ampliando a importância de mecanismos de planejamento, transparência, rastreabilidade e controle social sobre esses recursos. 

Diante do diagnóstico, a Oxfam Brasil defende, por exemplo, que o combate às desigualdades esteja associado ao fortalecimento da democracia. A entidade recomendou maior progressividade na tributação das altas rendas e patrimônios; tributação de grandes fortunas, lucros e dividendos e grandes heranças; revisão de benefícios fiscais regressivos; e maior transparência sobre renda e patrimônio. 

"Enfrentar as desigualdades no Brasil exige olhar não apenas para quanto cada pessoa ganha, mas também para quem acumula patrimônio, quem controla recursos e quem possui condições muito superiores para influenciar as decisões do Estado. A democracia perde força quando o poder econômico se transforma em poder político desproporcional", disse Viviana Santiago, diretora-executiva da Oxfam Brasil, em nota da entidade.

 


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postado em 21/08/2026 05:00
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