
O Instituto Brasieiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, ontem, a prévia da inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15). O indicador acelerou para 0,70% em setembro frente à queda de 0,40% de agosto, após o fim do Bônus de Itaipu nas tarifas de energia e a retomada da inflação de alimentos.
O resultado revelou uma aceleração do custo de vida em todos os nove grupos pesquisados, com destaque para os altos preços no mês de 7,4% na energia elétrica residencial, de 14% no cigarro, de 9,8% nas passagens aéreas e de 20,8% no tomate.
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De acordo com analistas, o salto de 0,70% no IPCA-15 de setembro ficou ainda acima das estimativas do mercado, cujas medianas variaram entre 0,53% e 0,55%, com máximas de 0,66%. No acumulado do ano, o IPCA-15 registrou alta de 3,82%, e, nos 12 meses até setembro, a alta ficou em 4,47%.
Após a surpresa nos dados da prévia da inflação de setembro, economistas voltaram para as planilhas e seguem revisando para cima as projeções para o IPCA deste ano. Alguns deles já voltaram a prever a inflação acima do teto da meta, de 4,50% no indicador deste mês fechado. É o caso de Fabio Romão, economista da consultoria 4 Intelligence, que previa alta de 0,46% no IPCA-15 deste ano, e elevou de 5,1% para 5,2% a previsão para a inflação oficial acumulada de 2026, mas com viés de alta. Pelas estimativas dele, o IPCA de setembro deverá acelerar para 0,80% e registrar alta acumulada em 12 meses de 4,56%, acima dos 4,22% registrados no mesmo intervalo até agosto.
"A nova taxa anual para o IPCA vai superar a de 2025, pois os efeitos vindouros da ocorrência do fenômeno climático El Niño, o recrudescimento das incertezas ligadas ao conflito no Oriente Médio e as pressões na precificação na cadeia de bens e serviços, ainda poderão ser vistas", afirmou Romão.
O economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio Leal, resumiu o dado do IPCA-15 de setembro como "um balde de água no otimismo com a inflação" e informou que prevê alta de 0,65% no IPCA de setembro. "Já era esperada uma aceleração bem razoável do IPCA-15, entre agosto e setembro, por conta da reversão do Bônus de Itaipu, que fez que com que o item 'energia elétrica' passasse de uma deflação de 6,25% para uma inflação de 7,42%, o que, sozinho, respondeu por 0,54 ponto percentual da aceleração do índice geral entre um mês e outro", explicou Leal. Ele lembrou que outros grupos apresentaram uma mudança de direção inesperada, como o caso dos transportes, que saíram de uma variação negativa de 1% para alta de 0,60%, acelerando o índice geral em 0,32 ponto percentual. Nesse caso, dois itens foram responsáveis por praticamente toda a surpresa: a passagem área, que passou de uma deflação de 13,30% para uma inflação de 9,82%, entre agosto e setembro; e a gasolina, que passou de uma queda de 1,23% para alta de 0,30%, no mesmo intervalo, "respondendo, juntos, para 0,26 ponto percentual na aceleração do índice geral". Por fim, Leal destacou como a "cereja do bolo" a inflação do 'tomate' que variou de uma queda de 27,38% para uma alta de 20,76%, entre agosto e setembro.
"O IPCA-15 de setembro parece ter encerrado o período de bonança da inflação brasileira, que começou com as surpresas para baixo de junho e julho e se consolidou com a deflação de agosto. A partir de agora, teremos um período perigoso para a inflação, quando os preços dos alimentos deverão começar a pressionar a inflação", alertou Leal. Ele também elevou de 5,1% para 5,2% a previsão para o IPCA deste ano. Além disso, disse que mantém a previsão para a taxa básica da economia (Selic) em 13,75% até o fim do ano e não acredita que o Banco Central deverá realizar mais cortes nos juros nas duas últimas reuniões do ano do Comitê de Política Monetária (Copom) após as eleições.
Na contramão, o economista André Braz, coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), contou que manteve em 4,9% a projeção para o IPCA deste ano, apesar da surpresa da prévia de setembro, mas admitiu maiores riscos inflacionários no último trimestre de 2026. "Minha avaliação é de maior risco de alta dos alimentos, com movimentos diferentes entre os produtos. A sazonalidade menos favorável e os riscos climáticos associados ao El Niño podem dificultar a recuperação da oferta. Esse risco já aparecia nas análises econômicas antes do resultado de setembro, mas sua intensidade ainda dependerá do comportamento do clima nas regiões produtoras", afirmou.
Para Júlio Barros, economista do Daycoval, após a surpresa nos dados do IPCA-15 de setembro, o Copom deverá manter a taxa Selic em 13,75% na próxima reunião do Copom, em novembro. "No âmbito geral, a prévia da inflação de setembro mostra um resultado desafiador para o Banco Central por conta dos eventos temporários que beneficiaram a inflação recentemente para baixo, agora vem pro lado altista da inflação, contribuindo para a pressão altista, e o núcleo da inflação, que embora tenha vindo em linha com o que a gente esperava, ainda segue num patamar desafiador alto e se eleva ali na variação interanual", destacou.
Acima da média
Em Brasília, o IPCA-15 registrou alta de 0,76% em Brasília em setembro. O resultado de setembro ficou 0,39 ponto percentual acima do índice calculado no mesmo mês de 2025, que foi de 0,37%. Com isso, o IPCA-15 na capital federal acumula alta de 3,80% no ano e de 4,74% em 12 meses.
O grupo de transportes foi o que mais contribuiu para o avanço do índice em Brasília, com uma variação de 1,39%. O resultado foi diretamente influenciado pelas altas nos preços da gasolina (3,20%), passagem aérea (6,27%) e transporte por aplicativo (5,86%).
Em contrapartida, alguns itens do mesmo grupo registraram queda, como o seguro voluntário de veículo (-2,69%) e o automóvel usado (-1,65%). O maior impacto individual no índice do mês, contudo, veio da energia elétrica residencial, que subiu 8,78%. A alta acontece após o fim do Bônus de Itaipu, que havia sido creditado nas faturas do mês anterior. A bandeira tarifária amarela continua vigente.
No grupo de alimentação e bebidas, as maiores contribuições vieram do tomate (24,77%) e do limão (48,63%). Também registraram aumento os preços da alcatra (4,75%) e da banana-prata (5,63%). Entre as quedas, destacam-se o café moído (-5,22%), a melancia (-14,5%) e o feijão-carioca (-7,80%).
(Colaborou Pedro José Borges)
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