Política monetária

Proposta de ‘pai do Plano Real’ para taxa de juros divide economistas

Enquanto mercado financeiro rejeita ideia de Lara Resende de implementar meta e banda para reduzir a Selic, outra ala acredita que deve haver debate sobre o tema

Lara Resende critica a atual política monetária do Banco Central e questiona a prioridade dada às despesas primárias -  (crédito: Agência Brasil)
Lara Resende critica a atual política monetária do Banco Central e questiona a prioridade dada às despesas primárias - (crédito: Agência Brasil)

Às vésperas da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que define nesta quarta-feira (4/11) a nova taxa básica de juros (Selic), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a proposta do economista André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, de limitar os juros no país tem "várias deficiências". Ele também negou que o governo tenha um plano semelhante em discussão. Segundo o chefe da equipe econômica, não há uma agenda marcada entre Lara Resende e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).


“Não há agenda nenhuma fixada com o presidente. Do meu ponto de vista, é uma ideia incipiente que foi colocada para debate público, mas não é uma proposta a ser avaliada ainda. Tem várias deficiências do meu ponto de vista e que eu mesmo, a minha equipe, vamos poder conversar com ele, com outros economistas, como já temos feito. Mas não há nada nesse sentido sobre a mesa, é importante deixar claro”, destacou o ministro.

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As ideias foram publicadas em um artigo do último dia 25 de setembro, onde o economista critica a atual política monetária do Banco Central e questiona a prioridade dada às despesas primárias. Entre as medidas defendidas por Lara Resende está a redução gradual da taxa básica ao longo de, aproximadamente, 12 meses, até atingir cerca de 7,5% ao ano.


Além disso, ele acredita que a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN) seria fundamental para a continuidade dessa estratégia. O grupo seria responsável por definir metas fiscais e monetárias para um período de quatro a cinco anos à frente. Economistas consultados pelo Correio divergem em criticar ou defender as ideias levantadas pelo economista.


Apesar de concordar com o diagnóstico do economista sobre o nível elevado dos juros no país, que sufoca o crescimento, o professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) William Baghdassarian acredita que a política de reduzir à base da “canetada” os juros poderia apenas causar impactos negativos na inflação e no câmbio a níveis extremos.


“Na hora em que você aumenta a demanda agregada em um contexto como esse, você tem um efeito rápido em cima de preço. Então, o grande ponto da proposta dele é que, se não houvesse inflação, você talvez até pudesse ter algum efeito positivo. Mas, com a inflação, você, na hora que baixar, você já vai ter uma inflação pressionada”, destaca o professor.



No artigo, o economista que atuou no Plano Real também propõe a utilização de reservas internacionais como instrumento de manutenção da taxa. A medida, na avaliação do professor do Ibmec, seria arriscada e poderia provocar uma falta de capacidade do país para se defender de choques internacionais de preço, como o do petróleo, recentemente, após o início dos conflitos no Irã e no Oriente Médio.


“A gente tem reservas razoáveis, mas a gente levou alguns anos para juntar. Do mesmo jeito que a gente levou anos para juntar, em poucos anos a gente consome essas reservas. A reserva tem sido uma grande proteção para o país contra choque externo, que a gente não tem desde a década de 2000. Aí, de repente, eu vou gastar essa reserva simplesmente para uma política que já provou que não dá certo?”, questiona Baghdassarian.


Mercado não pode ser termômetro


A maioria dos agentes que atuam no mercado financeiro vê risco com as medidas defendidas pelo economista. O posicionamento contrário ao tabelamento da taxa de juros não é nenhuma surpresa, já que também é quase um consenso entre o mercado de que a política restritiva do Banco Central é o melhor caminho para conter as expectativas de inflação.


Apesar da resistência desse setor, o professor de Economia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Benito Salomão considera que o mercado financeiro não pode servir como “termômetro” de uma medida ser boa ou ser ruim para o país. “Se ela agrada o mercado, ela é boa, se ela desagrada o mercado, ela é ruim. Eu acho que esse é um mal termômetro”, avalia o especialista, que comparou com as medidas de contenção de gastos aprovadas em novembro de 2024, que foram mal recebidas pelos agentes.


“O mercado reagiu mal naquele momento, houve ali movimentos de curto prazo na bolsa, no câmbio, nos juros futuros, etc. Mas depois, hora que se esfriou a cabeça, o mercado acho que reviu a sua posição e viu que aquela era uma medida que, apesar do impacto fiscal, ela era uma medida relevante para os objetivos distributivos do país”, pontua.



Sobre as medidas em si, Salomão destaca que elas “fogem à regra” da literatura econômica clássica e que, mesmo assim, ela não deve ficar fora de discussão, a exemplo do Plano Real, que teve êxito em combater a inflação com a indexação da moeda brasileira.


“Se a gente for seguir a solução de livro texto há 30 anos atrás para a questão do real, a gente não teria feito o real. Então, a proposta do real foi exatamente uma proposta que você não encontra em nenhum livro de macro convencional”, lembra o professor, que defende o debate sobre uma meta para a inflação e para os juros.


“Se a hipótese dele estiver certa, de que a taxa de juros é relacionada positivamente — e não negativamente — com a inflação, que essa é uma coisa que a gente precisava constatar nos dados, também, para tentar viabilizar uma proposta dessa, aí é uma outra discussão”, completa.



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postado em 04/11/2026 13:19
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