W3 | A AVENIDA DE BRASÍLIA

Pioneira da Borracha atravessa três gerações e resiste na W3 Sul

Fundada na Cidade Livre, loja acompanhou o auge da avenida como principal polo comercial de Brasília e hoje enfrenta os desafios do comércio na região

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Amanda S. Feitoza
21/04/2026 05:00
5min de leitura

Aos 100 anos, Hely Walter Couto atravessa a história de Brasília como quem percorre a própria W3 Sul — passo a passo, entre memórias de um tempo em que a região concentrava encontros, negócios e a vida da cidade. Fundador da Pioneira da Borracha, uma das lojas mais antigas de Brasília, ele não apenas acompanhou a transformação da via: ajudou a construí-la.

“A coisa fabulosa é ter coragem de vir enfrentar Brasília”, resume, ao lembrar da decisão que mudou sua vida. Antes de fincar raízes na W3, o mineiro de Carmo do Paranaíba chegou ao Distrito Federal ainda nos primeiros anos da capital, hospedado na casa de um amigo que havia se mudado para trabalhar na nova cidade. “Ele me ligou e falou: ‘Vem conhecer Brasília’. Eu vim e fiquei.”

O começo foi no Núcleo Bandeirante, então chamado de Cidade Livre, onde iniciou o negócio meses antes da inauguração oficial da cidade. “Antes da inauguração, três meses, comecei a fundar a Pioneira lá”, conta. O crescimento veio junto com Brasília, e, pouco depois, com a própria W3 Sul, que começava a se consolidar como eixo comercial. “Veio a W3, eu parti para cá”, diz.

Foto histórica da fundação da Pioneira da Borracha, na Cidade Livre (hoje Núcleo Bandeirante)
Foto histórica da fundação da Pioneira da Borracha, na Cidade Livre (hoje Núcleo Bandeirante) (foto: Jhoalerson Dias/CB)

Migração para uma promessa de sucesso

A história contada por Hely encontra eco na memória do filho mais velho, Eduardo Couto, 67 anos, que cresceu dentro da loja e acompanhou de perto a transformação da avenida desde a infância. “A Pioneira inaugurou na Cidade Livre, em 1959 e, em 1964, as lojas começaram a migrar para a W3, que era o principal ponto comercial de Brasília”, explica.

Na avenida, o comerciante não apenas abriu uma loja: construiu uma trajetória. Aos poucos, foi adquirindo terrenos, ampliando o espaço e consolidando a presença da empresa. “Comprei um lote, depois outro, depois outro. Hoje tenho cinco lotes aqui”, afirma o fundador, com a naturalidade de quem viu o próprio negócio crescer com a cidade.

Mas a W3 não era só comércio. Era ponto de encontro. Era movimento. Era vida. “Em Brasília, todo mundo se encontrava na W3. Tinha inauguração de loja, de prédios, de tudo”, lembra Hely. Na memória de quem viveu aquele período, a avenida era o centro pulsante de uma capital em formação, onde moradores, trabalhadores e visitantes se cruzavam diariamente.

O relato ganha contornos ainda mais concretos nas lembranças do filho. “O comércio todo era concentrado aqui. Era onde as pessoas circulavam, onde compravam”, diz Eduardo. Ele recorda cenas que hoje parecem distantes: “A gente tinha que fechar a loja para sair gente e entrar mais gente”, conta, ao descrever o fluxo intenso, especialmente em datas como o Natal.

Hely Couto, fundador da Pioneira da Borracha, aos 100 anos
Hely Couto, fundador da Pioneira da Borracha, aos 100 anos (foto: Jhoalerson Dias/CB)

Mais uma geração impactada

Décadas depois, essas histórias seguem vivas também na terceira geração. Neto de Hely, Guilherme Couto cresceu ouvindo sobre o auge da W3 — um tempo que não viveu, mas que ajuda a manter presente. “Cansei de escutar histórias do meu avô tendo que fechar as portas de tanto movimento”, diz.

Ao longo das décadas, Hely viu a paisagem mudar. O surgimento dos shoppings alterou o fluxo de clientes e redesenhou o comércio da cidade. A própria Pioneira acompanhou esse movimento, abrindo lojas em centros comerciais. Ainda assim, a W3 permaneceu como referência, inclusive afetiva. “A W3 foi um encontro maravilhoso que deixou saudade pra muita gente”, diz. “Amo muito a W3.”

" Toda grande cidade tem uma via principal: Nova York tem a Quinta Avenida, Paris tem a Champs-Élysées e Brasília tem a W3”, afirma Eduardo, ao destacar o papel simbólico da região no desenho urbano da capital" Eduardo Couto, filho de Hely, fundador da Pioneira da Borracha

Hoje, no entanto, o cenário é outro. O movimento diminuiu, lojas fecharam as portas e o comércio já não tem a mesma força de antes. “Hoje, com a evolução da internet, o movimento é mais escasso”, avalia Guilherme, que representa a continuidade do negócio na avenida. “Sou neto do fundador da Pioneira da Borracha e agora mais um investidor da W3 Sul.”

Para quem viveu o auge, a diferença é evidente. “A W3 Sul hoje tem quase 100 lojas fechadas. O fluxo de rua não tem mais”, diz Eduardo. Para ele, a falta de políticas consistentes ao longo dos anos contribuiu para o esvaziamento: “Sempre tiveram promessas de revitalização, mas nunca levaram adiante”.

Hely Couto, fundador da Pioneira da Borracha, com o filho Eduardo e o neto Guilherme
Hely Couto, fundador da Pioneira da Borracha, com o filho Eduardo e o neto Guilherme (foto: Jhoalerson Dias/CB)

Ainda assim, a família segue apostando na região. Entre dificuldades e transformações, a permanência também é uma escolha. “A gente ainda investe e corre atrás de trazer movimento para a W3”, afirma Guilherme.

Mais do que um negócio, o que se mantém ali é um legado. “É um desafio muito grande seguir essa história, mas vamos correr atrás para continuar por muitos anos”, diz o neto.

Mesmo com as mudanças, Hely segue no mesmo endereço que ajudou a transformar ao longo de mais de seis décadas. Entre lembranças e críticas, carrega a história de uma avenida que já foi símbolo de modernidade e convivência, e que, para ele e para as gerações que vieram depois, continua sendo, acima de tudo, um lugar de pertencimento.