W3 | A avenida de Brasília
Comércios antigos se reinventam e mostram desafios para permanecer na W3
Comerciantes falam sobre os anos na via histórica do Plano Piloto, hoje marcada pelo esvaziamento e rotatividade do comércio
W3 | A avenida de Brasília
Comerciantes falam sobre os anos na via histórica do Plano Piloto, hoje marcada pelo esvaziamento e rotatividade do comércio
Passam pelas ruas das Vias W3 Sul e Norte a história de toda Brasília. A avenida planejada por Lucio Costa — e que se transformou ainda durante a construção — foi palco de momentos célebres na capital, reuniu pioneiros e candangos, levou famílias para os passeios pelo comércio.
As vivências na W3 são o que a torna tão especial para os moradores. O Correio conversou com pessoas que se instalaram na via ainda no início e revelam detalhes da história da capital federal por outro ângulo.
Entre os eventos, momentos emocionantes como o cortejo do presidente Juscelino Kubitschek e outros apreensivos, como a passagem dos tanques do exército no golpe militar de 1964. “Tudo que acontecia passava aqui”, conta o morador Humberto Fortes.
Em Brasília desde que tinha poucos meses de idade, ele viu a W3 Sul se desenvolver ao lado do pai, que tinha um mercadinho na via. Mesmo residindo em outra região administrativa, ele não deixa de visitar o local e os amigos que conquistou por ali. “Todo mundo tem um afeto pela W3 porque era a principal avenida de Brasília”, comenta. Proprietário de um imóvel de frente para a W3, ele investe em uma reforma para atrair interessados, mas comenta que a situação na via afasta os compradores.
A movimentação da W3 atraiu pessoas de diferentes parte do país, como Francisco Barros, dono do Elyzeu Restaurante, que já soma mais de 40 anos na via. “Eu já tinha uma cunhada que morava aqui, aí ela perguntou se eu queria vir para Brasília e eu disse: ‘Na hora’”, conta. “Eu trabalhava no barzinho de um conhecido meu e falei que queria vir a Brasília, aí ele me deu uma bicicleta e vendemos para completar a passagem. Cheguei na 510 [Sul], procurei emprego e fiquei 10 anos nessa empresa lá.”
O local leva o nome do ex-sócio, que morreu, um cozinheiro renomado na época que chegou a cozinhar para ex-presidentes. “Recebi uma indenização e montei (um restaurante) no Setor de Indústria, mas vendi porque achei que a W3 estava melhor. Hoje está pior”, conta.
Seu Chico, como é popularmente chamado pelos fregueses e amigos que frequentam o local, fala da W3 com uma certa nostalgia, além de uma frustração pela queda do movimento. “A W3 até 1980 era muito movimentada, hoje acabou. Está tudo falido, tudo fechado. Os impostos muito altos, aluguel alto, lojas grandes, ninguém está montando nada, tem gente que não fechou porque não tá podendo fechar”, lamenta. “Carnaval era na 510, dava um movimento para nós, mas tiraram o carnaval da W3.”
Apesar do esvaziamento, o comerciante mantém uma clientela fiel e aposta na qualidade para continuar em alta. O ponto alto é a feijoada das sextas-feiras, que causa até filas no restaurante. Com a idade, ele pretende se aposentar em breve, mas a relação com o comércio é essencial para o bem-estar: “Para mim, é muito bacana não ficar parado, um monte de fregueses bons. Tem bom, tem ruim e vai levando a vida”.
Para Rosana Cardoso, do Museu dos Pisos e Azulejos Antigos, a W3 é um lugar “que nunca vai morrer”. “É um lugar que eu amo, é um lugar que se eu puder ajudar para revitalizar de uma forma que a gente consiga trazer mais o público, eu tô pronta”, afirma.
Há mais de 35 anos, a empresária trouxe o estabelecimento para a W3. Primeiro na Asa Norte, para depois se espalhar pela Asa Sul. Com a separação da sociedade, a loja da parte norte ficou com outro proprietário, enquanto ela mantém o ponto da 507 Sul.
A escolha foi estratégica, principalmente pela arquitetura do local, com construções antigas e presença marcante dos amados azulejos. “A primeira cidade que surgiu foi o Núcleo Bandeirantes e hoje preservam muito lá, quase todas as casas lá tem ainda tem os azulejos antigos, os pisos antigos”, conta. “Então e resolvemos ficar aqui, porque ficaríamos mais ou menos de uma forma agregada.”
Mas não são apenas as restaurações de imóveis antigos que movem o negócio. Os azulejos estão de volta como elementos decorativos que unem o moderno e o retrô, atraindo jovens que buscam explorar o Museu.
A memória afetiva também é sentimento corriqueiro para Jorge Bezerra, 52, que conta estar atendendo à quinta geração de clientes na Barbearia do Onofre. O estabelecimento foi fundado na W3 em 1971, na 703. Na década de 1980, eles se mudaram para a 709 Norte, onde permanece até hoje.
A escolha em continuar o legado foi praticamente natural após a perda do pai, que dava o nome à barbearia, em 2008, e da mãe, em 2010. “Nós somos filhos dos pioneiros, vou dizer assim, já é uma geração que está dando continuidade ao segmento que os pais criaram, tem bastante empresas que os filhos deram continuidade”, destaca.
E nesse negócio, ele conta com a ajuda dos próprios filhos para continuar atraindo clientes. Para Jorge, o segredo está em unir modernidade e tradição. “Eu mantive a tradição, mas sempre estou inovando”, conta. “A gente faz uso de toalha quente, mas se adequa à questão da modernidade, sempre atualizando os modelos de corte, sempre à frente das tendências."
Negócios como esses mostram a complexidade do comércio brasiliense em uma via marcada pelo abre e fecha de lojas. Para eles, a W3 está longe de ser ideal, e a concepção de uma W3 perfeita também diverge entre todos, mas uma coisa permanece: a resiliência para se manter fiel ao legado nos novos tempos da cidade que muda a todo instante.