Durante as duas primeiras décadas de Brasília, a W3 Sul despontava como um dos principais cartões postais da nova capital. Como um shopping a céu aberto, reportagens do Correio da época chegavam a comparar a via com a Rua Augusta, de São Paulo, e até com Copacabana, no Rio de Janeiro.
O perfil escrito sobre a avenida pela repórter Maria Valdira, em dezembro de 1968, mostra que, em 1964, dos 6.834 estabelecimentos comerciais no Distrito Federal, mais de dois mil se estavam na W3 Sul.
A era de ouro, no entanto, não durou muito. Entre as décadas de 1970 e 1980, foram inaugurados os primeiros shoppings, tirando o protagonismo da W3 no comércio da cidade. O crescimento das regiões administrativas e as mudanças dos hábitos de consumo também desviaram a rota de parte dos clientes que lotavam as calçadas das quadras 500 na Asa Sul.
Outra reportagem do Correio Braziliense, de setembro de 1979, já anunciava o desencanto da via. Intitulada “Um projeto para salvar a W3-Sul”, a matéria, assinada por José Roberto, elenca sugestões de comerciantes associados para trazer de volta o fluxo de clientes à avenida.
A sensação de abandono se arrastou pelas décadas seguintes, com pedidos de socorro de lojistas e de moradores aparecendo constantemente nas páginas do jornal. Nos anos 2000, reportagens mostram que a situação da avenida mais famosa da cidade era descrita como “decadente”.
Altos preços
“Para uma pessoa sustentar um aluguel aqui, mesmo que seja uma sala pequena, é preciso ter uma renda muito boa”, afirma Eurico Burns, da Academia de Música Miziara, na 513 Sul. A reclamação do professor de música se soma à de muitos outros lojistas que apontam o preço dos aluguéis como um dos motivos para o esvaziamento da avenida.
Levantamento do Sindicato do Comércio Varejista (Sindivarejista) dá um panorama: 20% das lojas da avenida estão fechadas. O cenário é mais grave na W3 Sul, onde 105 das 356 lojas estão desocupadas. Na W3 Norte, 43, de um total de 379, estão fechadas.
A fama de cara é tão antiga quanto a própria avenida e, com o fluxo de clientes diminuindo, o aluguel passou a pesar cada vez mais no bolso dos comerciantes. Para Raphael Silva, que já foi proprietário de uma escola de música na 510 Sul, a dificuldade para equilibrar as contas foi fatal para a empresa.
“Os proprietários cobram aluguel como se fosse em um shopping”, afirma Raphael, que teve de fechar a loja durante a pandemia. “Precisa haver uma reunião entre lojistas e proprietários para voltarem a alugar espaços na W3. Acredito que muitas pessoas estariam interessadas se não fossem os valores altíssimos.”
O aluguel se soma à sensação de insegurança que lojistas enfrentam na avenida, principalmente durante a noite. Francisco de Assis Barros, dono do Elyzeu Restaurante da 513 Sul, afirma já ter sido assaltado quatro vezes.
“Arrebentaram os cadeados e levaram televisão, bicicleta e o dinheiro do caixa. A polícia até hoje nunca veio aqui perguntar como é que foi”, protesta Chico, que mantém o estabelecimento na avenida há mais de 40 anos.
Agora, além do aluguel e impostos, Chico precisou arcar com a instalação de alarmes no restaurante para evitar novos roubos. “Não durmo direito com medo de arrebentarem aqui de novo”, afirma.
Em busca de oportunidades
O esvaziamento do comércio é algo rotineiro para Herick, dono do Ateliê Vitória, na 510 Sul. Natural do Piauí, ele chegou em 2015 e se apaixonou por Brasília. “Eu sempre sonhei em morar numa cidade grande. Lembro que eu estava passando em uma via na Samambaia que dava para ver Taguatinga e Águas Claras — só uma ponta —, mas eu já imaginei que aquilo era muito grande. Quando eu vi aquilo, eu disse: ‘Eu quero vir morar aqui’”, relembra.
A costura já era uma tradição de família, mas ele não seguiu a carreira logo de início. O começo do ateliê veio anos depois, e está ligado à própria W3 Sul, um centro comercial de tecidos e de aviamentos. “Minha tia trabalhava aqui numa loja de aviamentos. Eu sonhei que estava costurando e que ela arrumava clientes lá para mim”, relata. Herick compartilhou a ideia com a tia, que gostou e propôs que comprassem as máquinas de costura, que ele usa para o ofício até hoje.
O costureiro chegou a morar na via uma época e sonha com uma ampliação da unidade e com localização melhor, em andar térreo, ali mesmo. “Fui para Samambaia com o objetivo de economizar e poder comprar o meu imóvel próprio. Se eu tivesse condições, eu não teria saído daqui”, afirma. O aluguel é um fator decisivo. No mesmo bloco, um ponto destinado a restaurantes mudou diversas vezes de dono. “Eu gostaria, por exemplo, de alugar essa sala aqui ao lado, que estava vazia, mas fico com medo de assumir mais esse compromisso”, relata Herick.
Sem conforto
Mesmo com os altos valores, o Sindicato da Habitação do DF (Secovi-DF) pontua que a W3 reúne os aluguéis mais acessíveis do Plano Piloto. As condições dos prédios e a própria infraestrutura, no entanto, são precárias.
Essa característica não é de hoje. Matéria do Correio de 1995, com o título “A degradação atinge setores da W3 Norte”, descreve o caos na via. No texto, o repórter Marcelo Abreu descreve os residentes nas comerciais da W3 como “famílias que não abrem mão de residir no Plano Piloto. Mesmo que para isso tenham que pagar com a própria saúde”.
As obras de revitalização ainda estão em andamento na W3 Norte, e os problemas na infraestrutura e na limpeza urbana são algumas das principais preocupações de quem mora por ali. Lojista e presidente da associação de vizinhos da 713, Crystyna Lessa, 57 anos, vive na W3 desde que era bebê e relata as transformações ao longo das décadas.
Para a moradora, um dos principais problemas é a falta de pontos de coleta para o lixo. “Todos os dias eles recolhem o lixo aqui no chão”, descreve. “Não tem um local certo, o SLU não disponibiliza isso para comunidade, eles disponibilizam apenas papeleiras, mas onde a comunidade descarta o lixo? Não tem”, observa.
Procurado, o SLU informou que “os próprios condomínios residenciais e moradores são os responsáveis pela aquisição de contêineres particulares na quantidade adequada e suficientes para atender a demanda de geração de resíduos do local”. Também pontuou a importância de deixar o lixo para coleta de acordo com o calendário disponibilizado nas plataformas oficiais do serviço.
Crystyna pontua que a população tem uma parcela de culpa e lista ações de descarte irregular. “Já vi descartarem geladeira”, relata. No entanto, a comerciante afirma que faltam campanhas de conscientização, além de comunicação efetiva com a comunidade sobre os horários das coletas, que, segundo ela, mudam sem aviso prévio.
Acessibilidade nos estacionamentos também entra no rol de reclamações. “Eles tinham fechado a entrada desse estacionamento. Eu falei: ‘Olha, aqui não passa um carro, caminhão que precisa entregar colchão, por exemplo’”, conta. “Na outra semana, deram uma melhorada, mas só afastaram um pouco.” Segundo a comerciante, essa restrição na entrada faz parte de plano para instaurar estacionamentos privados na W3, como foi feito em regiões como o Setor de Diversões Norte (SDN). A área é um dos locais previstos para a implementação da chamada Zona Verde. “E a gente que mora aqui? Vai pagar? Eles vão dar credencial para quem mora?”, questiona.
As obras nos estacionamentos coincidiram com o início do funcionamento do Bimi, cafeteria na 715 Norte, o que afastou a clientela no primeiro momento. “Isso atrapalhou horrores o nosso movimento. Ficamos três meses funcionando como uma loja recém-aberta, e três meses com esse estacionamento caótico”, comenta Cyntia Ashiuchi, confeiteira e uma das proprietárias do café.
“Na época da seca, era uma poeira, a loja branca, a gente limpou tudo, mas, durante esses três meses de seca e de obra, a fachada ficou laranja”, conta. Para ela, as obras de infraestrutura na W3 são essenciais, mas falhas no planejamento e a execução demorada transformam as melhorias em transtornos.
Infraestrutura precária
Na W3 Sul, onde as obras de revitalização já foram concluídas, alguns fatores ainda incomodam. Mais que impactos estéticos, moradores reclamam de riscos de segurança.
“Eu tenho medo dessas marquises, passo embaixo delas com medo de cair na minha cabeça. Teve um período que caiu na cabeça de uma mulher”, conta o costureiro Herick Ribeiro. “É muito caro só pela localização, mas a fachada horrorosa, você olha e não diz que está pagando 2 mil reais para morar”, afirma. Apesar disso, ele reconhece que o projeto de revitalização foi essencial para a via, sobretudo com a nova iluminação pública.
O GDF argumenta que os prédios da W3 são privados e que a reforma das fachadas é uma responsabilidade dos proprietários. O impacto na segurança da população, no entanto, causa discussões entre especialistas.
O Secovi-DF reconhece a responsabilidade privada. A organização, no entanto, destaca a necessidade de incentivos. "Seria preciso um incentivo para que os empresários que fizessem retrofit nos seus prédios, ampliações, reformas, até porque a W3 Sul começou a construção há muitos e muitos anos, então tem muitos prédios que precisam de melhorias”, pontua o presidente da instituição, Ovídio Maia. Entre os benefícios defendidos estão descontos no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU).
Sensação de inseguraça
Basta anoitecer para que o burburinho do dia a dia das W3 dê lugar a calçadas esvaziadas. Na Asa Norte, mercado da prostituição, distribuidoras de bebidas e trailers de lanches dominam a paisagem. A segurança é uma questão amplamente levantada por quem mora e trabalha na avenida, sobretudo questões relacionadas a pessoas em situação de rua e ao comércio de drogas na região. Os furtos e assaltos também geram prejuízos para os comerciantes.
O subsecretário de Operações Integradas Centro de Integrado de Operações de Brasília (CIOB) da Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP-DF), coronel Carlos Eduardo Melo de Souza, explica que o patrulhamento da W3 é feito rotineiramente por batalhões da Polícia Militar, com viaturas, policiais a pé e a cavalo.
O coronel afirma que os furtos são a maior demanda relacionada à segurança da região. Nos três primeiros meses de 2026, foram registradas 355 ocorrências de furto em veículos no Plano Piloto.
Não há dados específicos da região das quadras 500 e 700, mas os lojistas da W3 vivenciam diariamente o reflexo desses números. Cláudia Bengtson, fundadora da escola de dança Bailarinas Por Que Não, na 503 Sul, afirma que furtos e depredações são constantes.
“Já tive um jardim aqui, mas roubaram as torneiras e a iluminação. Do lado da W2, roubam os fios de cobre”, lamenta. “Meu ar-condicionado vivia com problema, porque roubavam os cabos. Tivemos que fazer uma proteção e gastamos muito dinheiro. Aqui mesmo, já entraram pelas janelas de vidro e roubaram coisas”, relata.
Segundo o Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), em 2025, 897 pessoas estavam vivendo nas ruas do Plano Piloto. Rejane de Castro Lessa, administra a Martelinho Lessa, na 702 Norte, enquanto o filho é o responsável por outra unidade, na 708. Nesta última, segundo ela, nem o toldo da loja foi poupado pelos ladrões. “Meu filho terminou de instalar um toldo retrátil às 20h. Quando deu 21:30, os moradores de rua levaram. A polícia passa por aqui à noite, mas é difícil”, relata.
A falta de iluminação na via também é motivo de preocupação. Ao Correio, um morador que não quis se identificar relata insegurança nas paradas e no trajeto entre o transporte público e o lugar onde mora, nas quadras 700. Ele destaca ainda o esvaziamento da W3 durante a noite e afirma que o policiamento na área é insuficiente. “Tem policiamento, mas não é fixo, as viaturas passam uma hora ou outra, então eu sinto que não dá muito para contar com ele”, comenta. “Eu sinto medo de voltar sozinho, mas acabo voltando porque não tenho outra opção”, conta o morador, que chega do trabalho por volta de 23h. “Nunca me aconteceu nada, mas a sensação de insegurança é real.”
Enfim, uma “nova” W3?
Décadas de esvaziamento deixam marcas visíveis e imateriais na via que um dia foi berço pulsante no centro de Brasília. Construídas nas décadas de 1960 e 1970, respectivamente, as vias W3 Sul e W3 Norte representam um dos ambientes mais diversos em uma construção setorizada como o Plano Piloto.
Os locais que abrigam comércios, bares, casas, quitinetes e aparelhos culturais, no entanto, sofrem com problemas como infraestrutura e segurança. Em meio a condições pouco atrativas para os comerciantes e moradores, aqueles que não querem deixar a via batem na mesma tecla: a W3 precisa de revitalização. Mas o que essa palavra significa exatamente?
Mais do que reparos e reformas estéticas, o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal (CAU/DF), Ricardo Meira, explica que esse processo precisa levar condições para que o local possa se desenvolver. “Quando a gente pega a etimologia da palavra, revitalizar é levar a vida de novo, e vida em cidade é um sinônimo de gente”, pontua.
“É importante que o Estado atue, seja coibindo a desocupação, seja incentivando a ocupação, com condições como IPTU progressivo, linhas de crédito para que empresas se instalem nesses locais, incentivos de alguma forma”, destaca. “E, enquanto isso, ela cumpre o seu papel de cuidar do espaço público, com segurança, limpeza, iluminação, acessibilidade. Isso é obrigação.”
Após décadas de movimentação dos donos de estabelecimentos pela revitalização da avenida, em 2019 o Governo do Distrito Federal investiu recursos na renovação da W3. Desde então, foram firmados 18 contratos para obras, somando mais de R$ 90 milhões em investimentos na infraestrutura da via.
As obras de requalificação da W3 Sul já foram concluídas e, na Norte, seguem em fase de execução. Estão em andamento, hoje da quadra 713 à 716. As ações devem seguir para as demais quadras após o término do período chuvoso, de acordo com Secretaria de Obras, que não informou datas mais precisas. Segundo a pasta, as reformas incluem “execução de calçadas acessíveis, a instalação de piso fulget e pedras portuguesas, a adequação de acessibilidade, a sinalização viária, melhorias na drenagem pluvial, a adequação de acessos, a pavimentação da via exclusiva de ônibus, a recuperação da pavimentação asfáltica, além de ações de paisagismo e a instalação de mobiliário urbano”.
Mesmo reconhecendo as melhorias em iluminação, calçadas e vias, as obras ainda são avaliadas como insuficientes pelos comerciantes. O GDF não indicou programas de incentivos fiscais direcionados a esses empresários. Em relação a aluguéis e revitalização de fachadas e marquises dos prédios, o governo sustenta que a responsabilidade é privada e relativa aos proprietários das construções.
Já a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) afirma que os comerciantes da via estão enquadrados no programa Emprega-DF. “O programa oferece uma série de benefícios para as empresas participantes. Dentre eles, destacam-se os descontos de até 67% no ICMS, proporcionando uma redução significativa da carga tributária. Além disso, o programa visa promover o crescimento sustentável do setor, com apoio tanto para a criação de novos negócios quanto para a expansão dos já existentes”, diz o texto.
No entanto, lojistas continuam pedindo por mais apoio do GDF e as lojas vazias permanecem como parte do cenário. “Antigamente, uma hora dessas eu não conseguiria parar para dar uma entrevista aqui”, brinca Romeu Soares, dono do Sebo do Romeu, na 511 Sul, durante uma manhã de baixo movimento na avenida.
