Brasília ganhou vida, como previa Lucio Costa, e começou a ganhar desenho próprio ao longo dos anos, à medida que as necessidades da população emergiam. Na W3, não foi diferente. Com o passar dos anos, transformou-se não apenas em um eixo comercial, mas em um organismo vivo capaz de abrigar perfis sociais diversos e dinâmicos na capital. Foi assim que surgiram as primeiras casas ao longo da avenida, que hoje dominam as quadras 700. Lá viveram moradores ilustres, como Athos Bulcão, e até hoje o local é morada de pioneiros, como a professora de música Lydia Garcia.
-
Leia também: W3: A avenida de Brasília
O professor doutor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (FAU/UnB) Ricardo Trevisan descreve a avenida como uma "artéria pulsante da vida brasiliense, lugar de passagem e de permanência; de trabalho e de moradia. "Não há cidadão que não a conheça; e poucos são aqueles que, ao observá-la com um olhar mais cuidadoso, sensível e livre de preconceitos, não se encantem com sua diversidade, sua urbanidade e sua potencialidade."
Sua história é marcada pela ressignificação do espaço pelo uso cotidiano. Inicialmente, a W3 tinha sido planejada para ser uma via de serviços e abastecimento. No entanto, ainda nos primeiros anos da construção da capital o projeto inicial foi modificado acrescentando a superquadra residencial 700 Sul - para atender a necessidade de funcionários de níveis hierárquicos mais baixos.
As alterações propostas para a W3 evidenciam sua revitalização não só como eixo comercial, mas também para torná-la um espaço acolhedor e seguro para as pessoas. “A W3 encontra-se em permanente processo de mudança – ora sob a vigilância atenta, por vezes rígida, dos mais conservadores; ora sob a relativa inércia daqueles que deveriam acompanhar e orientar suas transformações edilícias. Mas, sobretudo, ela se transforma diariamente sob os passos de quem realmente a utiliza: moradores, trabalhadores, passageiros, comerciantes e transeuntes que, na prática, reinventam continuamente o sentido do espaço urbano", reforça Trevisan.
As primeiras residências da W3 foram construídas pelo governo federal, por meio da Novacap, e seguiam a lógica de construção rápida de Brasília. "Elas tinham um papel complementar às superquadras, com tipologia padronizada, lotes estreitos e relação direta com a rua. Não eram pensadas como peças arquitetônicas isoladas, mas como parte da estrutura urbana — o que, inclusive, facilitou sua transformação ao longo do tempo para o uso misto que vemos hoje", explica a arquiteta, urbanista e diretora executiva do Conselho de Desenvolvimento Econômico, Sustentável e Estratégico do DF (Codese/DF). "Tratava-se de unidades habitacionais de menor metragem e de concepção mais econômica, tanto em termos construtivos quanto de manutenção (sem elevadores e garagem subterrânea)", complementa Ricardo Trevisan.
Segundo ele, as heterogêneas paisagens tão presentes na extensão da avenida são oriundas das diversas formas de ocupação das Asas Sul e Norte. "Na Asa Sul, a W3 é marcada pela clara separação entre, de um lado, o eixo de comércio-serviços-habitacional (500s) e, de outro, o conjunto de casas unifamiliares geminadas, de um ou dois pavimentos, implantadas em paralelo ou perpendicular à avenida", explica. "Já na Asa Norte, observa-se a presença de unidades habitacionais de menor metragem quadrada e em maior quantidade, o que contribui para maior adensamento, diversidade de usos e a coexistência de diferentes perfis sociais”, continua.
Contudo, o docente aponta que em ambas as Asas têm semelhanças e desafios comuns, os chamados “puxadinhos”. Para a Trevisan, essa ampla presença revela a constante alteração do projeto original da avenida, estabelecendo uma camada de autoconstrução ordinária na cidade. “Entre acertos e excessos – por vezes tensionando os limites da própria liberdade de intervenção arquitetônica – o que se vê é uma constante negociação entre desenho projetual e vida vivida”, assegura o docente.
Do tradicional à sofisticação
De forma semelhante, projetos atuais mantêm esse intuito de transformar a avenida em um ambiente agradável para os moradores. Um exemplo premiado é a Casa 711H. Elaborado pelo escritório BLOCO Arquitetos, ele propõem um modelo com o objetivo de recuperar a ativação das áreas verdes adjacentes às casas por meio da "descoberta" do quintal frontal (que hoje são normalmente cobertos) e da criação de possibilidades da integração total entre o quintal e a área pública, com jardins.
"O contato visual da casa com os espaços públicos adjacentes (jardim e rua de serviço) e a possibilidade de conexão dos espaços promoverá o efeito da 'vigilância natural', o que resultará na diminuição da sensação de insegurança e estímulo do uso e qualificação do espaço público, num ciclo de benefício mútuo entre o espaço público e o privado", detalha o arquiteto Henrique Coutinho, um dos sócios do escritório.
Henrique ainda conta que, atualmente, a maioria dos projetos realizados pelo escritório ocorre em lotes onde as construções originais já foram demolidas. "Ainda existem exemplares com alguma relevância arquitetônica, porém, em muitos casos, as casas remanescentes já passaram por transformações que as descaracterizaram por completo", afirma o arquiteto.
Ele também frisa que tem como referência e se inspira na arquitetura de Brasília. "Acreditamos que muitos clientes nos procuram justamente por compartilharem esse interesse pela história e arquitetura de Brasília. Buscamos desenvolver um olhar crítico sobre esse legado, identificando estratégias de projeto que ainda sejam pertinentes ou que possam ser reinterpretadas frente às demandas contemporâneas", diz Henrique.
W3 mostra a verdadeira vocação
Para Ivelise Longhi, a W3 não mudou de função, mas, sim, mostrou, no decorrer do tempo, sua vocação. "O problema é que a tipologia original dessas casas não foi pensada para isso. Por isso, vemos adaptações precárias, conflitos com o espaço público e perda de qualidade urbana. As intervenções prioritárias passam por três pontos: requalificar a relação com a rua, com fachadas mais ativas — ou seja, com acessos diretos, transparência e usos no térreo que gerem interação com o espaço público — e calçadas adequadas; adaptar as edificações para uso misto real, com melhor organização interna e acessos independentes; e organizar a infraestrutura urbana, como carga e descarga e estacionamento. O modelo ainda faz sentido como conceito urbano, mas não como tipologia", pontua Ivelise.
Ela ainda aponta que o desafio, agora, não é transformar a W3, mas qualificar essa transformação. O tombamento não representa engessamento, mas a preservação de um conceito urbanístico moderno singular, baseado na organização do território, na escala e na relação entre espaços públicos e privados.
Ivelise finaliza citando uma frase de Lucio Costa que, para ela, define um dos "nossos maiores desafios": "De um lado, como crescer assegurando a permanência do testemunho da proposta original; de outro, como preservá-la sem cortar o impulso vital inerente a uma cidade tão jovem".
Já o professor da UnB avalia que a W3 nunca deixou de ter vida. Para ele, o que ocorre é uma tentativa de elitização da avenida. "A Avenida W3 não é, e tampouco será, um condomínio fechado, murado e com controle de acesso. Para quem busca esse tipo de espaço, a capital oferece inúmeros enclaves urbanos voltados à seletividade social. A W3 é uma via pública, democrática e acessível. Da população em situação de vulnerabilidade ao executivo que trabalha nos edifícios corporativos, é preciso lembrar que a cidade é constituída por corpos plurais e diversos, que garantem, em diferentes graus, o exercício da cidadania", afirma o docente.
Saiba Mais
-
Especial W3 O som da W3: escolas de dança e música levam harmonia à avenida
-
Especial W3 VLT na W3 acumula uma década de atraso: promessa de modernização
-
Especial W3 Novas lojas reinventam a W3 de Norte a Sul com propostas diversificadas
-
Especial W3 W3 com mais vida: Infinu e Sesc mostram que revitalização é possível
-
Especial W3 Bancas de jornal resistem na W3 e quiosques se reinventam
-
Especial W3 A irmã mais nova: W3 Norte só começou a se desenvolver nos anos 1970
