W3 | A AVENIDA DE BRASÍLIA
A irmã mais nova: W3 Norte só começou a se desenvolver nos anos 1970
Pensada inicialmente para uma destinação diferente da parte Sul, a avenida do lado Norte só começou a ser construída na década de 1970
W3 | A AVENIDA DE BRASÍLIA
Pensada inicialmente para uma destinação diferente da parte Sul, a avenida do lado Norte só começou a ser construída na década de 1970
Enquanto o início da ocupação da W3 Sul por lojistas e moradores remonta aos primeiros anos de Brasília, ainda na década de 1960, o lado Norte da avenida demorou um pouco mais para ser desenvolvido. A ligação entre os dois lados só aconteceria em meados dos anos 1970, quando as primeiras empresas fincaram raízes na avenida.
José Alberto Barros, técnico em recursos humanos da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), conta que a localidade foi determinante no desenvolvimento da W3 Norte. “Tem muita gente que pergunta por que a W3 Sul veio primeiro, mas vamos entender um pouco de geografia também”, explica. “A estrada que vinha de Anápolis e que ia para Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, passava ali. E onde tinha água abundante era do lado sul do quadrilátero.”
Uma edição do Correio Braziliense de junho de 1977 anuncia: “W3 Norte - empresários descobrem a outra face do centro”. Essa e outras notícias da época mostram a região como uma parte distante da movimentada Asa Sul. Com muita poeira, barracos de madeira e vegetação nativa, os relatos descrevem uma W3 Norte com cara de velho oeste.
“A W3 Norte tomou fôlego por ser a única via de saída para o Norte do Brasil”, aponta José Alberto Barros, apaixonado pela história da capital. “Assim, começaram a se instalar pequenas oficinas, barracos e comércios pela via, que servia como uma espécie de fornecedora de suprimentos para quem iria pegar estrada”, detalha.
Empresas como a Slaviero, Disbrave e Planalto dos Automóveis estão entre as primeiras a ocupar a avenida, ajudando a derrubar o mito daqueles anos que retratava a Asa Norte como um terreno infértil para investimentos.
Assim que começou a ser ocupada, o cenário da W3 Norte foi mudando rapidamente. “Em lugar de alguns barracos, logo foram surgindo construções de alvenaria, num estilo levemente distinto da Asa Sul”, relatou a repórter Maria Valdira, em uma edição do Correio Braziliense de 1974. “Os que acreditaram na W3 Norte, mesmo contra a solidão, o matagal e a escuridão, hoje dão graças a Deus porque perseveraram”, continua o texto.
José Alberto já atuava na Novacap quando as duas avenidas foram ligadas, em 1975, e participou das obras. “Aquele momento significou uma abertura de fluxo para as duas asas, que passaram a funcionar”, lembra.
Atualmente, o lado “caçula” da avenida se distingue da Asa Sul pela organização dos prédios - com a maioria das lojas nas quadras 700, deixando as 500 para prédios institucionais - e a vida noturna, com distribuidoras de bebidas, bares e restaurantes. Prédios comerciais recuados com estacionamento na frente e os blocos sem as tradicionais bancas e quiosques entre as lojas, como na W3 Sul, também são marcas únicas da W3 Norte.
Em reportagem especial publicada em maio de 2009, o repórter Marcelo Abreu e o fotógrafo Ronaldo de Oliveira mergulharam nas noites da W3 e mostraram as histórias por trás da mudança de pontos de prostituição da 314/315 Norte para a avenida.
"O movimento na 314/315 era infernal. Na madrugada, engarrafamento. Barulho, buzinas, gente alcoolizada, drogas, brigas, tiros. Alguns escândalos – sobretudo no embate entre as prostitutas de “castas” (as rainhas) e as “dalit” (as párias, em tempos de Caminhos da Índia...). Com receio da desmoralização da quadra, moradores e comerciantes se juntaram. Exigiram do governo o fechamento imediato da boate. Em nome da moral e dos bons costumes, a família venceu. A boate e suas meninas foram expulsas do paraíso. Em junho de 1996, fecharam a Queen’s", escreveu.
"É ali, ao longo de toda a avenida — mais precisamente nos pontos de ônibus — , que as moças agora se prostituem. Na madrugada de sexta-feira, entre 1h e 1h15, havia — espalhadas pelos 6km da comprida avenida e abrigadas nos 33 pontos de ônibus ou debaixo de marquises — 82 prostitutas à espera de um cliente. Isso sem levar em conta aquelas que já tinham embarcado nos carrões importados (alguns até com placas de corpo diplomático)", continua o texto.
A página dupla na edição de domingo trazia as imagens e os relatoes de quem viveu essa outra face da W3. Confira:
A história da comerciante e presidente da associação de moradores da 713 Norte, Crystyna Lessa, com a W3 Norte, é de berço. Os pais, que vieram da Bahia, se conheceram em Brasília e construíram o prédio na avenida, onde ela mora até hoje, aos 57 anos.
Dona do Armarinho Clarisse, inaugurado em 1968 na 713 Norte, ela conta que a escolha dos pais pela localidade foi contestada por familiares, que viam a Asa Norte como um verdadeiro deserto de terra vermelha. “Meu pai, apaixonado pelo Juscelino, falou: ‘Vocês vão ver! Em 20 anos, isso aqui vai ser o futuro do Brasil’”, lembra.
A aposta foi tão certeira que o comércio conserva a mesma placa desde a inauguração. O carinho pela avenida fica expresso na piada de Crystyna, de que as mangueiras no canteiro central em frente ao comércio são o seu quintal, e guardam as memórias de infância. “Eu nasci aqui. Conheço todo mundo e todo mundo me conhece”, afirma, orgulhosa. “Acho que herdei dos meus pais essa paixão pela Asa Norte.”
Nas lembranças sobre os primeiros anos da avenida, a comerciante lembra dos poucos prédios, barracos e a característica terra vermelha do cerrado. “Da 714 em diante, não havia mais nada”, lembra. “Era uma cidade do interior.”
O vizinho do Armarinho Clarisse, Augusto Azevedo, mora na W3 Norte há quase uma década. Com a mulher, Priscila, ele abriu a escola de costura Vestida de Sonhos. “Sou meio suspeito para falar, porque gosto muito de morar aqui”, brinca.
Augusto afirma que um dos principais atrativos da localidade é a tranquilidade, mesmo em uma capital. “Nos fins de semana, fica aquela calmaria aqui”, declara. “Você tem qualquer comércio aqui perto. Mercado de frutas, farmácia, padaria, tudo o que precisa.”
O fácil acesso da avenida também é um atrativo para Augusto. “Eu não tenho carro e não pretendo ter”, aponta. “O ônibus passa na porta da minha casa para qualquer lugar do DF, isso facilita muito. É uma coisa que acho que os moradores da Asa Norte não valorizam muito”.
Perguntado sobre a W3 ideal para ele, o morador afirma que sente falta de mais opções de lazer. “Temos espaços para criar pistas de skate, mini parques, borboletários. Com pequenas coisas, a gente acaba trazendo mais movimento para o nosso comércio. Seria um chamariz, todo mundo ia querer estar aqui nos fins de semana”, afirma.