Em um passado não tão distante, a Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD) enfrentava uma crise profunda: dívidas milionárias, sede fechada, escândalos de corrupção e impedimento para receber recursos das loterias. Porém, um processo de reorganização nos últimos anos mudou o cenário. Com resultados esportivos expressivos — como o bronze olímpico de Edival Pontes, o Netinho, e as quatro medalhas no último Mundial, incluindo dois ouros —, a modalidade volta a ganhar protagonismo. O momento é simbolizado por reconhecimentos continentais. Na quinta-feira (5/3), a União Pan-Americana de Taekwondo (Patu, na sigla em inglês) elegeu a CBTKD como a melhor confederação, durante cerimônia em Las Vegas.
O país também foi brindado com prêmios individuais. Henrique Marques, eleito melhor atleta do mundo em 2025, recebeu a honraria de principal das Américas, assim como a companheira Maria Clara Pacheco, campeã no último Mundial. Hyuri Martins foi condecorado com o troféu de parataekwondo. Diego Ribeiro celebrou o reconhecimento de melhor técnico, a exemplo de Rodrigo Ferla na modalidade paralímpica.
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Presidente da CBTKD, Rivanaldo Freitas, atribui os galardões a um processo de reorganização iniciado em 2017. Segundo ele, o primeiro passo foi resolver a situação financeira da entidade para permitir a retomada do planejamento esportivo. “Resgatamos a Confederação de uma situação de penúria, repleta de dívidas e impedida de receber recursos das loterias. Com muito sacrifício, arrumamos a casa. Hoje, temos uma entidade saneada financeiramente, com projeto esportivo sólido e gestão comprometida”, explica.
A recuperação administrativa e financeira permitiu à CBTKD ampliar investimentos no desenvolvimento técnico e na preparação das Seleções. “Focamos no processo todo, da base ao topo. Contemplamos os jovens em nossos campeonatos e queremos aumentar essa atração para que as próximas gerações venham com força também”, destaca Freitas.
Diretor técnico da CBTKD, Henrique Precioso acredita que a evolução da modalidade no Brasil é uma combinação entre vocação e maior investimento em estrutura. “O taekwondo brasileiro sempre foi forte, como mostram as medalhas olímpicas (de bronze) de Natália Falavigna e Maicon Andrade. Nos últimos anos, conseguimos refinar a detecção de talentos, investir mais na preparação das Seleções e fortalecer o corpo técnico”, analisa.
Dentro do tatame, o momento positivo se reflete em nomes como Henrique Marques, Maria Clara Pacheco e Hyuri Martins. “É um título muito importante para minha carreira. Sem dúvidas, ser o melhor do que faz no seu continente não é para qualquer um. A única responsabilidade que eu pego é a de melhorar e trabalhar ainda mais para continuar sendo o melhor das Américas e deixar esse título para o nosso Brasil”, discursou Henrique Marques.
Perguntado sobre em qual momento do ciclo sentiu que poderia obter tamanho reconhecimento, Henrique não ficou em cima do muro. “Quando medalhei no Grand Prix Challange, onde cheguei muito perto da final e do ouro, foi a virada de chave, na qual consegui me ver entre os melhores e poderia me tornar o melhor da categoria”, analisou.
Parte dessa evolução passa por programas de desenvolvimento implementados pela confederação nos últimos anos. Entre eles estão iniciativas de capacitação de treinadores em diferentes regiões do país e o Projeto Radar, voltado à identificação de jovens atletas com potencial para o alto rendimento.
A Confederação também destaca o papel social da modalidade na formação de atletas. Segundo a entidade, cerca de 80% dos competidores da Seleção Brasileira tiveram origem em projetos sociais espalhados pelo país.
Com o reconhecimento continental consolidado, a comissão técnica direciona o planejamento para o próximo ciclo olímpico. As principais metas incluem bons resultados nos Grand Prix da modalidade, nos Campeonatos Mundiais e nos Jogos Pan-Americanos de Lima-2027, competições consideradas estratégicas para a classificação rumo aos Jogos de Los Angeles-2028.
O avanço estrutural também se reflete no volume de investimentos. Para 2026, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) destinará R$ 8,1 milhões à Confederação Brasileira de Taekwondo, o maior repasse já recebido pela modalidade.
No ranking de distribuição de recursos entre as confederações olímpicas, o valor coloca o taekwondo entre as 15 modalidades mais contempladas, à frente de esportes como ciclismo, tênis e rugby. A verba será aplicada na preparação das Seleções, na participação em competições internacionais e em programas de desenvolvimento ao longo do ciclo até os Jogos de Los Angeles-2028.
