
Revelado pelo Gama e campeão da Série B do Campeonato Brasileiro pelo Brasiliense em 2004, Leandro Padovani participou de um "ritual" que misturava futebol e política antes das partidas no Irã. Jogadores dos dois times se alinhavam para cantar o hino nacional enquanto, no gramado, bandeiras de Israel e dos Estados Unidos eram estendidas. Homenagem? Nada disso. Ao fim da execução, os atletas se cumprimentavam pisando sobre os símbolos dos principais adversários do regime iraniano. Quase uma década depois de viver intensamente o futebol no Oriente Médio, o ex-zagueiro acompanha à distância a escalada do conflito e revive memórias daquele período no país.
O zagueiro vestiu as camisas de Foolad FC, Naft Tehran, Sepahan e Esteghlal Tehran por seis temporadas e construiu laços com torcedores e companheiros de equipe. A adaptação inicial, no entanto, não foi simples. O idioma persa, o calor extremo e costumes, como o Ramadã, transformaram os primeiros meses em um período de aprendizado fora e dentro de campo.
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"Os primeiros seis meses foram muito difíceis. O persa é complicado de aprender e cheguei sozinho, sem minha esposa. Era época do Ramadã, não havia restaurante aberto durante o dia, e eu precisava comprar comida para fazer em casa", recorda. O clima também impunha desafios. "Cheguei em um período de calor de quase 60 graus. Os treinos eram sempre à noite, depois das orações", relata.
Apesar das dificuldades de adaptação no início, Padovani encontrou rapidamente um elemento familiar no país: a admiração dos iranianos pelo futebol brasileiro. Em muitas partidas, o zagueiro se deparava com torcedores usando camisas e bandeiras do Brasil nas arquibancadas. A ligação com a Amarelinha também aparece na história de alguns clubes locais. Na década de 1970, após a conquista do tricampeonato mundial pela Seleção, torcedores criaram equipes inspiradas no Esquadrão com camisa amarela, calção azul e meião branco, como o Sanat Naft, de Abadan.
Em campo, o atleta percebeu rapidamente que o futebol no país também refletia as tensões políticas da região. As tensões chegaram a interferir diretamente em algumas competições. Com o agravamento das relações entre Irã e Arábia Saudita, por exemplo, partidas entre clubes dos dois países passaram a ser disputadas em campo neutro, como aconteceu com Israel nas Eliminatórias da Europa para a Copa de 2026 e com a Ucrânia. O "ritual" pré-jogo com bandeiras de Israel e dos Estados Unidos era outra manifestação simbólica do conflito geopolítico presente no cotidiano iraniano.
Fora dos gramados, a tensão política aparecia em outras situações. Ao chegar ao país, Padovani recebeu orientações diretas da direção do clube sobre cuidados com determinadas questões diplomáticas. "O diretor falou que eu podia ligar para vários países, menos para Israel. Se ligasse, mesmo sem ter nada a ver com política, a polícia poderia bater na minha porta para perguntar o motivo", recorda.
A aclimatação também exigia atenção às normas locais. Segundo o ex-zagueiro, estrangeiros precisavam seguir regras rígidas de comportamento para evitar problemas com as autoridades. "Se um estrangeiro for pego com bebida alcoólica, protesto ou adultério, o contrato pode ser cancelado. Quem vai para lá precisa entender que tem de respeitar as regras do país."
Apesar da imagem frequentemente associada à instabilidade no Oriente Médio, Padovani diz que nunca teve problemas de segurança durante os anos em que viveu no Irã. "Achei o país muito seguro. Eu nunca tive nenhum problema", afirma. A experiência da esposa, no entanto, foi diferente. "Ela passou por algumas situações na rua, com pessoas fazendo gestos ou comentários. Eu sempre dizia para não sair sozinha."
Também foi no país em que a carreira do zagueiro sofreu a virada mais dramática. Em 2016, durante uma partida do campeonato local, sofreu uma grave lesão na coluna após um choque em campo. O acidente o deixou paraplégico e o forçou a encerrar a carreira.
Mesmo após a lesão, o vínculo de Padovani com o país permaneceu. "Tenho muito prestígio até hoje no Irã, graças à minha postura como atleta e também depois do acidente", afirma. Mais de uma década após a experiência no Oriente Médio, o ex-jogador observa a nova escalada de tensões na região com um olhar marcado pelas lembranças de quem viveu o cotidiano do país por dentro do esporte.
Padovani acompanha o cenário atual com preocupação, principalmente por manter contato com ex-companheiros de equipe e amigos que permanecem no país. "É triste. Conheço muita gente lá. Tenho amigos que jogaram comigo que foram presos. Tentaram derrubar o regime algumas vezes e muita gente acabou presa ou morta", expõe.
Para ele, o futebol costuma oferecer momentos de alívio à população em meio às tensões políticas. Ao mesmo tempo, admite que é difícil separar completamente esporte e realidade social em períodos de conflito. "O futebol traz alegria momentânea para o povo. Os estádios ficam cheios e as pessoas vivem aquilo intensamente. Mas, quando você vê gente morrendo, sendo presa, fica difícil separar as coisas", diz.
Questionado se o Irã deveria manter-se na Copa do Mundo de 2026, no Canadá, no México e nos Estados Unidos, o ex-zagueiro diz que há dois aspectos. "Por um lado, você pensa no povo que ama futebol e teria uma alegria em ver o país jogando. Por outro, existe um conflito dentro do país e muita gente sofrendo. É uma situação muito delicada", comenta.
Longe dos gramados desde o acidente, Padovani encontrou no esporte paralímpico uma nova forma de seguir em movimento. Passou primeiro pela natação e, mais recentemente, descobriu no tiro com arco o caminho para voltar a competir. Hoje, disputa o ranking brasileiro e tenta escrever um novo capítulo da carreira, agora fora do futebol.

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