HOMENAGEM

O discurso do rei: confira fala de Oscar Schmidt como cidadão honorário do DF

Nota taquigráfica recuperada pelo Correio revela discurso do jogador ao receber o título em maio de 1998

 Morre Oscar Schmidt, lenda do basquete brasileiro, aos 68 anos. Maior pontuador da história das Olimpíadas e da seleção brasileira, Mão Santa construiu carreira de sucesso nas quadras e é reverenciado até nos EUA, mesmo sem ter disputado a NBA -  (crédito: Reprodução/Revista Manchete)
Morre Oscar Schmidt, lenda do basquete brasileiro, aos 68 anos. Maior pontuador da história das Olimpíadas e da seleção brasileira, Mão Santa construiu carreira de sucesso nas quadras e é reverenciado até nos EUA, mesmo sem ter disputado a NBA - (crédito: Reprodução/Revista Manchete)

Traços de Oscar ajudaram a desenhar Brasília. Primeiro, com as curvas inconfundíveis de Oscar Niemeyer, que tornam a capital única. Depois, no ritmo do quique da bola laranja, com Oscar Schmidt. Dois gênios, duas formas de construir identidade. O que mais têm em comum? Estão eternizados como cidadãos honorários.

Em 11 de maio de 1998, o Mão Santa retornou a Brasília não como ídolo, mas como origem. Diante de autoridades, amigos e familiares, recebeu o título com a simplicidade de quem ainda se reconhecia no menino que chegava cedo ao Clube Unidade de Vizinhança — onde aprendeu a repetir até acertar e a errar até evoluir. Transformou memória em discurso e gratidão em mensagem. Foi uma noite de reencontro entre o jogador e a cidade que ajudou a moldá-lo.

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Na nota taquigráfica recuperada pelo Correio, revela-se a construção dessa trajetória na capital. Oscar destaca a rigidez do técnico Laurindo Miura, falecido em 2021, como elemento central na formação do arremesso que se tornaria sua principal arma. O mentor está na base de uma carreira que inclui o ouro pan-americano de 1987, em Indianápolis, e quase 50 mil pontos anotados — números que ajudam a dimensionar o segundo maior cestinha da história do basquete.

Mais do que um registro, o discurso é um convite a revisitar a origem de uma trajetória construída no detalhe. Disciplina, repetição e senso de pertencimento moldaram o mais potiguar dos brasilienses e maior nome do basquete nacional.

Confira discurso na íntegra

Desde que fui para São Paulo, esperava o dia de ter este reconhecimento. Sempre me orgulhei de falar para o mundo inteiro que comecei a jogar basquete aqui, no Clube Unidade de Vizinhança, com o Zezão e com o Miura. Faz 22 anos que fui para lá e sempre sonhei com este momento. Vou voltar um pouquinho no tempo para falar a vocês que, quando comecei a jogar basquete aqui, não havia este ginásio, mas existia uma pessoa maravilhosa, um gordão de sorriso fácil, que era o Zezão. Quando o treino acabava, ele nos levava para tomar refrigerante.

Ele fez com que eu me apaixonasse pelo basquete. Infelizmente, em 1987, no dia da minha maior alegria esportiva, ele faleceu. Nós estávamos ganhando os Jogos Pan-Americanos e o Zezão estava indo para o céu. Guardo com muito carinho o fato de que comecei a gostar do basquete por causa do Zezão e, logo depois, por causa do Miura. Eu era um molequinho desengonçado, grande, queixudo e feio.

Quando comecei a treinar, eu pulava, mas não conseguia alcançar o aro da cesta. Meu sonho era um dia tocar a cesta. Eu vim treinar com todo mundo, mas eu era muito ruim — ruim mesmo, desengonçado e tudo mais. O Miura passava as tardes comigo aqui, no Clube Unidade de Vizinhança, lá na quadra de baixo, cuja rede, às vezes, estava arrebentada.

A tabela era de madeira, o chão era de cimento e nós tínhamos de enxugá-lo sempre que chovia para que pudéssemos treinar. O Miura fazia vários exercícios comigo: vendava-me os olhos, colocava pedrinhas no chão para que eu batesse a bola com uma mão e pegasse as pedrinhas com a outra. Hoje tudo parece muito fácil, mas naquela época eu não conseguia fazer os exercícios. A bola ia para um lado e a pedrinha ia para o outro. Ele colocava uma corda para que eu passasse por baixo dela batendo a bola.

Enfim, ele realizava uma série de exercícios que fez com que eu ficasse um pouquinho mais coordenado. Ele foi o cara que me fez colocar a bola acima da cabeça para arremessá-la. Eu a arremessava errado e o Miura reclamava, dizendo: “Você tem que pôr a bola acima da cabeça”. Eu respondia: “Mas eu não acerto uma assim!” E ele insistia: “Você vai acertar, coloque a bola aí que você vai acertar”.

Foi aí que comecei a treinar com ele e a arremessar a bola acima da cabeça. Essas coisas é bom lembrar e nunca esquecer. Graças a Deus, isso que estou dizendo para vocês é o mesmo que digo quando dou minhas palestras para empresários, diretores e alunos de escolas.

Não estou falando isso só porque estou aqui hoje. Orgulho-me muito de ter começado a jogar basquete em Brasília, tendo o apoio necessário dos meus pais, que sempre me colocaram em escolas boas e caras. Muitas vezes não era possível pagar a mensalidade da escola, mas meu pai fazia questão de que meu ensino fosse o melhor. Meus pais deram-me o fundamental para a vida de um atleta: a disciplina e a humildade.

Isso aprendi com eles e agradeço de todo o coração. Meu irmão caçulinha, que nasceu quando eu estava em São Paulo, está hoje cobrindo matéria pela Rede Globo, o que me deixa muito orgulhoso e feliz. Sinto também muito orgulho de estar aqui com meus amigos e companheiros, pois o Miura não foi somente meu técnico.

Depois que melhorei um pouquinho, comecei a jogar na equipe principal; mesmo fazendo uma “zona” danada, eles me puseram para jogar. Eu jogava com o Miura, que era um grande jogador de basquete. Ele era um cara que não dava um arremesso para a cesta. Ele passava a bola para outro fazer a cesta, isso é o que mais lembro no Miura: essa vontade de dividir tudo com os outros e nunca querer aparecer.

Tenho certeza de que ele está hoje aqui. Obrigado! Ele aprendeu isso com o Zezão, tenho certeza desse fato. Isso é muito bonito numa pessoa: humildade até o limite. Tenho muito orgulho de estar hoje com meus companheiros, o Chico, o “Dentinho” e o “Maleta”.

Quando fui convocado pela primeira vez para a Seleção Brasileira, o Maleta também foi escolhido e fomos juntos para São Paulo, a fim de treinar na Seleção Brasileira Juvenil. Então, o Maleta foi o meu primeiro companheiro na Seleção Brasileira Juvenil e fico feliz por ele estar hoje presente, prestigiando este dia. Dentinho foi meu companheiro dos Infantis, quando fazíamos as eternas séries “melhor de 10” contra o Minas.

Na época em que comecei a treinar basquete, não havia campeonato brasileiro nem brasiliense; por isso, fazíamos a série “melhor de 10”, porque só havia três times. Eu gostaria de falar para todos que estou muito orgulhoso por estar recebendo este título que a Câmara Legislativa do Distrito Federal me concede. Mesmo aquela Casa Legislativa tendo tantas coisas importantes para discutir, colocou em pauta a concessão deste título. Isso significa que fiz algo para o meu país Essa é uma grande recompensa.

Estou muito feliz e orgulhoso. Mostrei para vocês apenas um pedacinho da minha vida. Foram somente dois anos, mas muito intensos, que serviram para trilhar meu caminho, fazendo com que eu fosse um grande jogador de basquete. Agradeço as palavras maravilhosas que os deputados proferiram para mim. Segundo a jogadora de basquete, Hortência: “Nada vem de bandeja, não”. Então, digo para a “molecada” que está começando a jogar basquete: não pensem que, se ficarem aí sentados, a convocação para a Seleção cairá do céu, porque não cai. Vocês têm de treinar, sonhar, querer muito e fazer esse sonho acontecer. Então, vocês têm de treinar todos os dias: de manhã, de tarde e de noite, durante as férias e durante o período letivo, à tarde e à noite. Vocês têm de dormir com a bola.

Um dia, no Unidade de Vizinhança, um dos jogadores disse para mim: “Oscar, se você quiser ser jogador de basquete, você tem de dormir com a bola”. Hoje, entendo que aquilo era uma metáfora, mas, na época, eu dormia com a bola. Quando vocês ficarem doentes, têm de colocar uma cesta na varanda de casa e arremessar a bola o dia todo, mesmo com febre. Isso serve para acreditar naquilo que estão sonhando. O atleta, a pessoa que pratica esporte na vida — toda criança, todo adolescente que faz esporte — tem muito mais chance de ser uma pessoa digna. Quem faz esporte não fuma, não bebe, não se droga, tem disciplina, é patriota e vive sonhando com coisas bonitas.

Então, continuem fazendo esporte, mas o façam de maneira séria. Para terminar, só quero lhes dizer que esta festa de entrega deste título não podia ser realizada num lugar mais bonito. Se eu tivesse que escolher entre a Câmara Legislativa e este local — eu não o escolhi, foram eles que escolheram —, eu preferiria que fosse realizada aqui, porque este foi o primeiro clube pelo qual lutei na vida.

Quando vocês me viam jogando na Seleção e chorando por alguma vitória ou despedida, saibam que a primeira vez que eu tive aquele sentimento maravilhoso, como ocorreu na Seleção Brasileira, foi aqui no Unidade de Vizinhança. Sr. Presidente, agradeço também por estar recebendo o título de Cidadão Honorário de Brasília neste Clube Unidade de Vizinhança. Digo isso porque sou cidadão de Brasília e cidadão do Unidade de Vizinhança. Obrigado.

*Estagiário sob a supervisão de Marcos Paulo Lima

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DQ
postado em 19/04/2026 06:00
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