COPA DO MUNDO

Entenda por que a convocação de Neymar gera ainda mais dúvidas

Onde jogará? Como se comportará com possível reserva? Responderá à sequência de partidas decisivas em curto tempo? Presença do camisa 10 leva mais questionamentos ao técnico Carlo Ancelotti

Ao anunciar Neymar, nesta segunda-feira (18/5), entre os 26 convocados para a sexta tentativa de caça ao hexa da Seleção Brasileira, o técnico Carlo Ancelotti se livrou de uma pergunta inevitável: “Por que não o chamou?”. O experiente treinador, recordista de títulos da Liga dos Campeões, também sabia que chamar o astro fazia parte de um combo de questionamentos ainda maiores. Pela primeira vez, às vésperas de uma Copa do Mundo, o camisa 10 se apresentará sem a blindagem de outros ciclos e cercado por dúvidas antes inimagináveis. 

Onde jogará? Como se comportará com possível reserva? Responderá à sequência de partidas decisivas em curto tempo? Qual será a postura em um grupo que aprendeu a existir sem ele? E, sobretudo, quanto ainda conseguirá influenciar dentro de campo? O talento do último jogador fora de série produzido pelo Brasil é inquestionável, mas o histórico recente mudou o peso do nome e o transformou em tema quase permanente de debate na Seleção. 

Desde a grave lesão sofrida contra o Uruguai, em outubro de 2023, Neymar alternou tentativas de retomada e novos problemas físicos. Entre recuperação ligamentar, lesões musculares e dores no joelho e na coxa, o camisa 10 somou 645 dias afastado dos gramados entre 2023 e 2026. Somente pelo Santos, desfalcou a equipe em 26 partidas. O cenário ajuda a explicar por que o principal jogador brasileiro da última década chega à Copa cercado por uma desconfiança inédita.

A versão atual de Neymar também não é a mesma dos ciclos anteriores, que o colocaram como maior artilheiro da Seleção nas contas da Fifa, com 79 gols em 128 jogos. No Santos, deixou de ser o ponta de drible constante e aceleração em espaço curto para atuar mais próximo da área, quase como um falso nove. As movimentações em direção ao lado esquerdo seguem frequentes para participar mais da construção e buscar o jogo, mas com menos explosão física e maior preocupação em controlar o ritmo das ações. Os passes e lançamentos continuam milimétricos — talvez a principal herança intacta do auge técnico —, enquanto o repertório se adapta a um corpo cada vez mais exigido pelas lesões.

O contexto contrasta com os ciclos anteriores. Em 2014, Neymar disputou a primeira Copa do Mundo da carreira como a maior referência técnica. Marcou dois gols na estreia contra a Croácia, teve atuação de gala com mais duas bolas na rede de Camarões no Mané Garrincha, mas teve a sequência interrompida após a lesão contra a Colômbia. Quatro anos depois, na Rússia, chegou cercado pela expectativa de protagonismo após a recuperação da cirurgia no pé direito. Ficou marcado como “cai-cai” e não levou o Brasil para além das quartas de final contra a Bélgica. 

Em 2022, no Catar, também o corpo cobrou caro. Jogou três partidas. A última, foi o jogo da vida, contra a Croácia. Marcou o gol que classificaria o Brasil para a semifinal contra a Argentina, mas a defesa não se organizou a quatro minutos do fim e amargou a prorrogação. Resultado: queda nas penalidades. Pela primeira vez, o camisa 10 inicia a corrida para uma Copa sem unanimidade e com o protagonismo dividido por uma geração que amadureceu durante suas ausências.

Durante as ausências do camisa 10, a Seleção deixou de girar exclusivamente ao redor dele. Vinicius Junior assumiu protagonismo técnico, mas ainda sem reproduzir com a camisa do Brasil o impacto que alcançou no Real Madrid. Raphinha amadureceu e ganhou sequência, embora também esteja distante do rendimento apresentado no Barcelona. Rodrygo, que crescia como articulador móvel e alternativa criativa, sofreu grave lesão no joelho e não disputará a Copa. O cenário transforma a volta de Neymar em um exercício delicado para Carlo Ancelotti: recolocar o maior talento brasileiro da geração sem interromper uma estrutura que aprendeu a sobreviver sem ele.

Nesta temporada, Neymar acumula 15 jogos, 10 atuando durante os 90 minutos mais acréscimos, com seis gols e quatro assistências. Ele se apresentará à Seleção Brasileira de Carlo Ancelotti em 27 de maio na Granja Comary, em Teresópolis (RJ). Quatro dias depois, faz amistoso contra o Panamá no Maracanã. Em 1º de junho, viaja aos Estados Unidos. O último jogo preparativo será contra o Egito (6/6) em Cleveland. A caça ao hexa começa em 13/6 contra Marrocos em New York/New Jersey. Depois, a Amarelinha enfrenta Haiti (19/) e Escócia (24/6).

Os 26 de Ancelotti

Goleiros
Alisson (Liverpool)
Ederson (Fenerbahçe)
Weverton (Grêmio)

Defensores
Alex Sandro (Flamengo)
Bremer (Juventus)
Danilo (Flamengo)
Douglas Santos (Zenit)
Gabriel Magalhães (Arsenal)
Roger Ibañez (Al-Ahli)
Léo Pereira (Flamengo)
Marquinhos (Paris Saint-Germain)
Wesley (Roma)

Meio-campistas
Bruno Guimarães (Newcastle)
Casemiro (Manchester United)
Danilo (Botafogo)
Fabinho (Al-Ittihad)
Lucas Paquetá (Flamengo)

Atacantes
Endrick (Lyon)
Gabriel Martinelli (Arsenal)
Igor Thiago (Brentford)
Matheus Cunha (Manchester United)
Neymar (Santos)
Raphinha (Barcelona)
Rayan (Bournemouth)
Vinicius Junior (Real Madrid)

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