Kansas City — Milhares de pessoas lotaram as ruas de Kansas City naquele histórico 7 de julho de 2019 para comemorar o tetracampeonato dos Estados Unidos na Copa Feminina. A cena não só chamou a atenção de todo um país, como foi o estalo para o início de um dos principais projetos de futebol de mulheres do mundo. E mais: resultou na recente construção de um estádio que já se impôs como histórico.
Durante o Mundial da França, nasceu a ideia do Kansas City Current. Em tempo recorde, Angie Long e Chris Long, empresários do ramo bancário, fundaram a franquia em 2020 e decidiram pela construção do CPKC Stadium — o primeiro estádio do mundo erguido especificamente para um time feminino. Quatro anos depois, o clube inauguraria a moderna e intimista arena para 11,5 mil torcedores, ao custo estimado de US$ 117 milhões (mais de R$ 600 milhões, na cotação atual).
A inauguração ocorreu em 16 de março de 2024, com vitória por 5 x 4 sobre o Portland Thorns e arquibancadas totalmente lotadas. Desde então, o CPKC Stadium operou com capacidade máxima em todas as partidas da temporada da liga estadunidense, sem exceção. O Correio conheceu todos os detalhes do local e conversou com a vice-presidente de comunicações do Current, Dani Welniak.
"Está provado que o investimento funciona e que esportes de mulheres merecem crescer também. Este clube provou para o mundo inteiro que esportes femininos podem lotar estádios e dar lucro. Por muito tempo, as pessoas não sabiam ou não acreditavam, mas não existia nenhuma prova disso", conta a dirigente.
Antes do Current, o FC Kansas City era o representante local na National Women's Soccer League (NWSL). A franquia esteve ativa entre novembro de 2021 e novembro de 2017. No período, foi duas vezes campeã da liga nacional. A cidade ficou sem um representante por pouco mais de três anos, até a fundação do Current, que ainda conta com o quarterback Patrick Mahomes e a ex-atacante Brittany Mahomes como acionistas minoritários.
"Kansas City Current é só uma parte pequena do que nós esperamos que mude no mundo. Espero que o primeiro estádio do mundo construído para um time feminino abra o precedente para que outros países, outros times da NWSL e até outros times masculinos copiem isso e levem para seus países e cidades", diz Dani.
O CPKC Stadium foi construído às margens do Rio Missouri e é de fácil acesso via ônibus (ao custo de US$ 2 ou R$ 10,30) ou KC Streetcar, opção gratuita que sai do Centro da Cidade. As arquibancadas em verde-azulado — mesma cor do uniforme principal da equipe — se erguem em dois lances e estão a poucos passos de um gramado natural perfeitamente bem cuidado.
A proposta era clara: construir um ambiente intimista e ao mesmo tempo intimidador, que soasse como lar para as donas da casa e o inferno para quem o visitasse. "É, de longe, a torcida mais barulhenta da NWSL. E é muito assustador para os times que vêm jogar contra a gente aqui", defende Dani. Esses fatores identitários, aliado ao alto investimento, ajudam a explicar por que o estádio está sempre lotado.
"Isso é o que os esportes de mulheres nunca tiveram. E é o que elas merecem. Elas jogam em estádios que só estão meio cheios, em estádios que não foram construídos para elas. E este estádio, construído especificamente para elas, sempre fica totalmente lotado em todo jogo", conta a dirigente.
E pode vir mais por aí. Os donos do clube planejam há algum tempo aumentar a capacidade do CPKC Stadium de 11,5 mil para 18 mil torcedores. Angie Long e Chris Long estão em busca de financiamento bancário, mas ainda não conseguiram a liberação necessária.
A imprensa local publicou recentemente que o prefeito Quinton Lucas apresentou à Câmara Municipal um projeto de lei para conceder ao clube US$ 235 milhões (R$ 1,2 bilhão) em títulos e isenções fiscais a fim de ajudar a tirar o projeto do papel.
