
Após 43 anos da morte de Garrincha, o The New York Times publicou um obituário dedicado ao ídolo brasileiro. O texto faz parte da série “Esquecidos”, criada para reconhecer personalidades cuja as mortes não receberam um obituário do jornal na época em que aconteceram. A iniciativa resgata histórias de figuras marcantes da cultura, da ciência, da política e do esporte que, por diferentes motivos, ficaram de fora das páginas do veículo desde 1851.
Na homenagem, Manuel Francisco dos Santos é apresentado como um jogador que contrariou todas as expectativas. Nascido com deformidades nas pernas, Garrincha parecia improvável para o futebol profissional. Ainda assim, tornou-se um dos maiores dribladores da história e foi fundamental nas conquistas das Copas do Mundo de 1958 e 1962. O texto lembra que, no Mundial disputado no Chile, ele assumiu o protagonismo após a lesão de Pelé, terminou como um dos artilheiros da competição e foi eleito o melhor jogador do torneio.
O jornal também descreveu a forma como Garrincha tratava a bola. Seu estilo misturava velocidade, equilíbrio e mudanças de direção imprevisíveis. Para ilustrar esse legado, o New York Times resgata um trecho do escritor uruguaio Eduardo Galeano, que definiu o brasileiro como um artista do futebol. “Quando Garrincha jogava, o campo se transformava num picadeiro, a bola numa fera domesticada, o jogo num convite para uma festa.” Galeano ainda escreveu que “em toda a história do futebol, ninguém fez mais pessoas felizes”.
Outro destaque da publicação é a parceria histórica com Pelé. Jeré Longman, repórter que escreve os obituários, relembra que os dois jamais perderam uma partida atuando juntos pela Seleção Brasileira. Ainda assim, o texto aborda como a relação dos brasileiros com Garrincha era diferente da admiração dedicada ao Rei do Futebol. Citando o jornalista Alex Bellos, a reportagem afirma que “embora os brasileiros coloquem Pelé num pedestal, eles não o amam da mesma forma que amam Garrincha”. Para Bellos, “Pelé simboliza a vitória. Garrincha simboliza jogar por jogar. O Brasil não é um país de vencedores. É um país de pessoas que gostam de se divertir.”
Além das conquistas, Garrincha passou por momentos difíceis fora dos gramados. O obituário relembra que o ex-craque enfrentou alcoolismo, problemas financeiros, depressão e relacionamentos conturbados após o fim da carreira. A publicação cita o casamento com a cantora Elza Soares, os episódios de violência, o acidente de trânsito que matou sua sogra e a deterioração de sua saúde nos últimos anos de vida. Garrincha morreu em 20 de janeiro de 1983, aos 49 anos, vítima de complicações relacionadas ao alcoolismo.
A homenagem também percorre a infância humilde em Pau Grande, no interior do Rio de Janeiro, onde o menino que brincava descalço com bolas improvisadas feitas de jornais acabou construindo uma das trajetórias mais marcantes do futebol. O texto se encerra com a frase gravada em sua lápide, que resume como ele ficou conhecido pelos brasileiros: “Aqui repousa em paz aquele que era a Alegria do Povo.”.
*Estagiária sob supervisão de Luiz Felipe

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