Copa do Mundo

Os segredos da Espanha e o que a finalista pode ensinar ao Brasil

Fúria trilha caminho antagônico ao da Seleção de Carlo Ancelotti. Ao J10, jornalistas do país detalham o DNA do postulante ao bicampeonato

A Espanha chegou à final da Copa do Mundo de uma forma silenciosa. Enquanto os holofotes estavam direcionados para o domínio da França e centrados nas dramáticas viradas da Argentina, a Fúria foi passando pelos adversários e, em um piscar de olhos, assegurou a vaga na decisão de domingo (19), contra Messi e companhia, às 16h (horário de Brasília), no MetLife, em Nova Jersey. No percurso pelo bicampeonato, a Roja eliminou seleções de peso, como Uruguai, Portugal, Bélgica e os próprios Bleus. Mas, afinal, qual é o segredo desta potência futebolística e o que ela pode ensinar a um Brasil que se despediu dos Estados Unidos nas oitavas.

Antes das táticas, escalações e de assumir um estilo de jogo, o país ibérico começou o trabalho por uma filosofia, priorizando a mentalidade coletiva. A Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) entregou, então, esta cartilha nas mãos de Luis de la Fuente, técnico que plantou sementes nas categorias inferiores da Espanha (sub-19, sub-21 e sub-23) antes de colher os resultados como o comandante da seleção principal. Afinal, em 2024, ele ganhou a Eurocopa e, agora, está prestes a repetir a façanha de Vicente Del Bosque, campeão mundial (2010) após ganhar o Velho Continente (2008) pela Fúria.

Família De La Fuente

Na última quinta-feira (16), o Jogada10 acompanhou o treino da Espanha em East Hannover e confirmou que, de fato, não há vaidades. O ambiente era leve e extremamente descontraído. Nem parecia que aqueles atletas disputariam uma decisão de Copa do Mundo nas próximas horas, conforme os jornalistas ibéricos ressaltaram em conversa com a reportagem.

"Você os vê treinar e parece uma família. Parece um grupo de amigos na risada, na zoeira. Estão na final de um Mundial e fazem piada em um bobinho. Eles quase não falam de futebol. Para mim, é isso. Vão todos juntos. Se você vê o jogo contra a França, custa destacar um jogador. Mesmo tendo Yamal, um dos melhores jogadores do mundo, custa destacar um craque. Eles vão todos juntos, pressionam lá em cima e compram a ideia do treinador. A força do coletivo é a grande virtude da Espanha", colocou Adrian Herrero, repórter da "RTVE", o maior grupo audiovisual daquele país.

"Amor al balón"

A outra grande característica reside justamente na base, onde os futebolistas, ainda meninos, aprendem o estilo de jogo para aprimorá-lo no futuro. Esta compreensão de futebol, aliás, é mais importante do que os títulos nas inferiores. A Fúria, por exemplo, perdeu, em 2021, o ouro olímpico para o Brasil. No entanto, formou vários jogadores que estão no time profissional, fiéis a um estilo. Ao contrário da Seleção Brasileira de Carlo Ancelotti e dos seus 34% contra a Noruega, a Espanha não abre mão da posse de bola e de ser protagonista durante os jogos, independentemente do oponente do outro lado: pode ser a França de Mbappé, Cabo Verde de Vozinha ou a Argentina de Messi.

"Estenderia a ideia, inclusive, aos diferentes clubes. Trabalha-se, desde muito cedo, com a bola. E, a partir daí, tentar dominar os jogos e ainda ser um time vistoso. A Espanha entende que controlar a bola é uma forma de defender e também de tornar o esporte mais atraente. É quase uma ideia de escola, que vai de cima a baixo: nasce nas primeiras equipes de formação e termina na seleção principal", avaliou, ao J10, Javier Lázaro, da "Rádio Marca".

"A Espanha, agora, tem possibilidades reais de título em uma final enorme e uma forma clara de jogar. É uma equipe sólida, que precisava rodar os jogadores durante a Copa até virar uma fortaleza de competir, apesar de não ter começado o Mundial bem. Pouca gente tem batido nesta tecla. Mas a seleção sofreu apenas um gol em sete jogos, pois não permite ao rival ficar com a bola", acrescentou David Álvarez, do jornal "El País".

Vale a comparação?

Yamal, Rodri, Pedri, Merino e Olmo vão repetindo os passos daquela Espanha de Xavi e Iniesta, os grandes executores do tiki-taka da época de Pep Guardiola no Barcelona (2008-2012). Na África do Sul, em 2010, com o título mundial e a ótima fase do Barça, a Espanha galgou parâmetros e passou a ditar a regra no futebol internacional: uma estratégia dinâmica de movimentação constante, passes curtos, precisos e, claro, posse de bola com porcentagens elevadas. Os espanhóis, no entanto, não gostam de comparar as duas gerações.

"A perspectiva é muito diferente. Não sei se é justo. Acho que o tempo vai nos responder melhor. Aquele time tinha mais estrelas e futebolistas entre os dez melhores do mundo: seguramente Villa, Xavi, Iniesta, Busquets e Piqué. Havia um domínio internacional no plano individual. A questão real é que a Espanha segue por esse caminho, de buscar a perfeição com a bola, desde a Eurocopa de 2024", filosofou Javier Lázaro.

No futebol, porém, não há unanimidades. O estilo espanhol também angariou "haters". Gente que considera a seleção monótona e cansativa. Goste ou não, a Fúria defenderá a sua ideia até o último segundo da grande final contra os hermanos.


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