Nova Jersey — A Copa do Mundo tem sido impiedosa com campeões. Brasil, Uruguai e Espanha tropeçaram na estreia. Apenas a Alemanha escapou da armadilha ao atropelar Curaçao por 7 x 1. Finalista das duas últimas edições e apontada como uma das favoritas ao título, a França entrou em campo nesta terça-feira (16/6), no MetLife Stadium, carregando a responsabilidade de não engrossar a lista de decepções. A missão esteve longe de ser simples. Em uma tarde em que o pragmatismo falou mais alto do que o espetáculo, Mbappé encontrou espaços apenas no segundo tempo, abriu caminho para a vitória e viu Barcola fechar a conta no triunfo por 3 x 1 sobre Senegal.
Os gols marcados por Mbappé aos 21 minutos e 51 da etapa final valeram mais do que três pontos. Ao balançar as redes de Edouard Mendy, o camisa 10 alcançou uma marca reservada aos imortais. Em apenas três participações em Copas do Mundo, chegou a 14 gols, ultrapassou Pelé e Lionel Messi na lista dos maiores artilheiros da história do torneio. O astro do Real Madrid também superou Just Fontaine do posto de principal goleador da França em Mundiais. Agora, está no mesmo patamar do alemão Gerd Muller e um atrás de Ronaldo Fenômeno. O recordista é o alemão Miroslav Klose, autor de 16 tentos pela Alemanha.
A vitória manteve uma escrita que já atravessa mais de uma década. A França não sabe o que é estrear em uma Copa do Mundo sem vencer desde 2010, quando empatou sem gols com o Uruguai na África do Sul. De lá para cá, só triunfos no primeiro compromisso: 3 x 0 sobre Honduras em 2014, 2 x 1 contra a Austrália em 2018 e 4 x 1 novamente diante dos australianos em 2022. Senegal esteve perto de interromper a sequência, mas os Bleus encontraram em Mbappé a diferença entre a apreensão e o alívio.
No futebol, as aparências também enganam. O primeiro tempo da França serviu apenas para evitar um prejuízo maior. Em nenhum momento pareceu que, do outro lado, estava uma seleção comandada por Didier Deschamps pela quarta Copa do Mundo consecutiva. A constelação ofensiva formada por Doué, Olise, Dembélé e Mbappé passou longe de justificar o favoritismo dos Bleus. Quem esperava uma avalanche francesa teve de se contentar com uma única finalização na direção do gol, em chute fraco de Dembélé.
Se faltava inspiração na frente, a defesa mantinha a equipe viva. Nem sempre por mérito próprio. Quando a retaguarda vacilou, a sorte vestiu azul. A principal arma de Senegal era a velocidade, como ficou claro em contra-ataque puxado por Nicolas Jackson. O camisa 11 invadiu a área e bateu rasteiro. A bola explodiu na trave, tocou no pé de Maignan e, caprichosamente, recusou-se a cruzar a linha. Os africanos voltaram a assustar no último lance da etapa inicial. Mané encontrou Sarr livre na área com um cruzamento preciso. De frente para o gol e sem marcação, o atacante do Crystal Palace isolou. Foi o segundo aviso de uma França devedora no primeiro tempo.
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A conversa de Didier Deschamps no intervalo surtiu efeito imediato. Bastaram sete minutos para a França mostrar uma versão completamente diferente daquela vista na etapa inicial. A pressão na saída de bola de Senegal resultou em recuperação no campo de ataque e deixou Olise livre diante de Edouard Mendy. Campeão da Liga dos Campeões pelo Chelsea em 2021, o goleiro senegalês cresceu na frente do adversário e evitou o gol. Pouco depois, repetiu a dose ao vencer outro duelo cara a cara contra Mbappé.
Foram 13 minutos de domínio absoluto dos Bleus. A dúvida deixou de ser se o gol sairia para se transformar em quando ele sairia. Anulado como referência no ataque, Mbappé buscou o jogo pela ponta direita, acelerou para dentro da área e caiu após contato com Sadio Mané. O árbitro australiano Alireza Faghani mandou o lance seguir. Chamado pelo VAR para revisar a jogada, bancou a decisão do campo.
Parecia não ser o dia de Mbappé. Candidato a se tornar o maior artilheiro da história das Copas do Mundo, o francês, com 12 gols em apenas duas edições, acumulava decisões erradas e desperdiçava oportunidades que normalmente não costuma perdoar. Mas craques raramente precisam de muitas chances para corrigir a própria rota.
Aos poucos, o camisa 10 calibrava o pé. Em mais uma jogada construída pela direita, Olise encontrou Mbappé com um passe teleguiado. O astro dominou e bateu cruzado para finalmente vencer Edouard Mendy. O gol parecia encaminhar uma tarde tranquila para os franceses. Parecia. Poucos minutos depois, os Bleus voltaram a relaxar na marcação e permitiram um lançamento em profundidade para Nicolas Jackson. O atacante soltou a bomba e estufou as redes de Maignan. O empate só não veio porque a bandeira subiu, assinalando impedimento do senegalês.
Senegal tentou pressionar Maignan e transformar a saída de bola francesa em uma armadilha. Houve momentos de tensão para os Bleus, mas a defesa bem ajustada e a limitação ofensiva dos africanos impediram que o risco se transformasse em perigo real. Obrigados a buscar o empate, os senegaleses passaram a oferecer os espaços que a França tanto procurava. E equipes desse nível costumam ser impiedosas quando encontram campo para correr.
Foi exatamente o que aconteceu. Recém-saído do banco de reservas e com as pernas descansadas, Barcola precisou de apenas dois minutos para deixar sua marca. Lançado em profundidade por Rabiot, o atacante invadiu a área e ampliou. Apesar das dificuldades, Senegal manteve o foco e foi recompensado com gol de Mbaye. Os africanos mal tiveram tempo para comemorar. Mbappé arrancou pelo meio e acertou belíssimo chute colocado e indefensável para Mendy.
Dever cumprido para os comandados de Didier Deschamps, que iniciam a caminhada rumo ao tricampeonato sem brilho, mas com aquilo que mais importa em uma Copa do Mundo: os três pontos.
Ficha técnica
França 2 x 1 Senegal
Copa do Mundo (1ª rodada do Grupo I)
Local: MetLife Stadium, East Rutherford, Nova Jersey (EUA)
Árbitro: Alireza Faghani (Austrália)
Público: 80.545
Escalações
França — Maignan; Koundé, Saliba, Upamecano, Theo Hernández; Tchouaméni e Rabiot; Olise, Dembelé (Barcola) e Doué (Cherki); Mbappé. Técnico: Didier Deschamps
Gols: Mbappé, aos 20 do 2º tempo, e Barcola, aos 37 do 2º tempo, e Mbappé aos 51 minutos do 2º tempo
Senegal — Mendy; Diatta, Koulibaly, Niakhaté e Diouf; Camara (Diarra), Idrissa Gueye (Ismael Ciss) e Pape Gueye (Ndiaye); Sarr (Mbaye), Nicolas Jackson (Bamba Dieng) e Mané. Técnico: Pape Thiaw
Gol: Mbaye, aos 50 do 2º tempo
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