Boston — Algumas das mentes mais brilhantes do planeta passaram ou ainda passam por Boston. A cidade de pouco mais de 640 mil habitantes abriga a Universidade de Harvard e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), dois dos maiores centros de produção de conhecimento do mundo, acostumados a formar gênios a serviço da humanidade. Hoje, porém, as salas de aula dão espaço a outro laboratório. O Gillette Stadium promove, às 16h, um encontro entre dois alunos acima da média. Erling Haaland e Kylian Mbappé se enfrentam pela primeira vez no universo de seleções e ensaiam transformar o duelo entre Noruega e França em uma aula de competitividade, talento e, acima de tudo, de muitos gols.
Os desempenhos da dupla nas rodadas anteriores do exigente exame chamado Copa do Mundo reforçam a tese de uma tarde imperdível. Haaland é o aluno destaque da geração que devolveu a Noruega ao maior palco do futebol depois de 28 anos de ausência. A última — e melhor — participação do país havia sido justamente em 1998, quando alcançou as oitavas de final. Adivinha onde? Na França. Naquele Mundial, os noruegueses caíram diante da Itália antes que pudessem cruzar o caminho dos anfitriões na fase seguinte. O destino, porém, guardou esse encontro para outra época, agora com Haaland e Mbappé como protagonistas.
Haaland chega embalado. Marcou quatro gols em duas partidas: fez dois na vitória por 4 x 2 sobre o Iraque e repetiu a dose no triunfo por 3 x 2 diante de Senegal. Na primeira participação em Copa do Mundo, alcançou quase metade dos 10 gols marcados por Cristiano Ronaldo em seis edições do torneio e dá sinais de que pode reivindicar o diploma de maior goleador desta edição e, se derem brecha, superar os 13 do francês Just Fontaine, artilheiro de uma única disputa na versão de 1958, na Suécia.
Mas Mbappé é daqueles alunos que não aceitam dividir o primeiro lugar da turma. Competitivo por natureza, transformou a corrida pelos recordes em uma disputa particular. Na estreia, marcou duas vezes na vitória por 3 x 1 sobre Senegal, chegou a 14 gols em Copas do Mundo e se aproximou da marca histórica de Miroslav Klose, dono de 16. Horas depois, viu Lionel Messi roubar os holofotes com um hat-trick diante da Argélia.
A resposta veio imediatamente. Contra o Iraque, voltou a balançar as redes duas vezes, igualou o alemão e reduziu para dois a distância em relação ao argentino, que ampliou a vantagem ao marcar mais dois diante da Áustria. Aos 27 anos, o francês parece menos preocupado em passar na prova do que em terminar o curso como o primeiro da classe. Afinal, tudo indica que ainda terá, pelo menos, mais duas Copas do Mundo para escrever o capítulo definitivo da tese de goleador máximo.
Haaland e Mbappé recusam o papel de cópias. Ambos cresceram sob a sombra da rivalidade entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, mas fazem questão de escrever uma história autoral. "Não gosto de me comparar com os outros. Temos de ter a nossa identidade como jogadores. A imprensa fez isso com Cristiano e Messi durante 10 anos, e eles também acabaram puxando um ao outro. Acho que isso foi positivo", afirmou o norueguês à Uefa, em 2022, questionado sobre o francês.
O respeito é mútuo, embora venha acompanhado de uma competitividade silenciosa. "É apenas o início para ele. Estou feliz pelo que está fazendo. Mas eu não joguei apenas como centroavante. Atuei pela esquerda e pela direita. Com toda a modéstia, acho que poucos conseguem mudar de posição todos os anos e manter um desempenho de alto nível", respondeu Mbappé, em 2022, ao comentar a ascensão de Haaland.
Haaland e Mbappé dividiram o mesmo gramado quatro vezes, todas pela Liga dos Campeões. O francês leva vantagem no retrospecto coletivo, com três vitórias contra uma do norueguês. Individualmente, porém, Haaland foi mais letal: marcou cinco gols, contra dois de Mbappé. Na temporada 2025/2026, a disputa foi franca. Juntos, participaram diretamente de 95 gols por Manchester City e Real Madrid e responderam por quase 40% da produção ofensiva dos clubes. O norueguês marcou 38 e distribuiu nove assistências. O craque merengue empurrou 42 bolas para o fundo das redes e foi solidário com seis passes decisivos.
Mas reduzir França e Noruega ao encontro entre Haaland e Mbappé seria uma injustiça. Os noruegueses contam com Martin Odegaard, cérebro da equipe e um dos meio-campistas mais criativos da Premier League a serviço do Arsenal. Também chama atenção Antonio Nusa. Aos 21 anos, o atacante do Leipzig ganhou o apelido de "Neymar nórdico" pela capacidade de desequilibrar no um contra um.
Do outro lado, a França transborda talento em todos os setores. Olise é o principal garçom de Mbappé, enquanto Koundé e Theo Hernández transformam os corredores em armas ofensivas sem abrir mão da solidez defensiva. Dembélé, Rabiot, Barcola, Koné dão profundidade a um elenco que talvez seja o mais completo desta Copa do Mundo.
A seleção felizarda deste "sextou" de luxo em Boston ficará com a liderança do Grupo I. O segundo colocado enfrentará a Costa do Marfim em 30 de junho, em Dallas, pela fase 16 avos e cruzará caminho com o vencedor entre Brasil e Japão.
