No século VI, Ciro II, conhecido como o Grande, liderou uma revolta dos persas contra os medos (um povo da antiguidade) para iniciar o Império Persa, localizado onde hoje é o Irã. Mais de 1500 anos depois, a seleção iraniana repetiu os antepassados e enfrentou de frente o medo (desta vez a sensação) para participar da Copa do Mundo de 2026. Considerado pelo próprio treinador Amir Ghalenoei como o time “mais maltratado” da competição, eles se despedem do Mundial com lutas dentro e fora de campo, frustrações e feitos históricos.
O torneio nos Estados Unidos, Canadá e México começou com a marca de ser o primeiro a ter um país anfitrião em guerra com um dos participantes e o conflito pautou tensões antes da bola rolar. Autoridades do Irã ameaçaram não participar do campeonato, enquanto o presidente estadunidense afirmou que os iranianos seriam bem-vindos, mas não acreditava ser apropriado a presença deles “para sua própria vida e segurança”.
O cenário resultou em dificuldades da delegação iraniana para obter os vistos de entrada na terra do Tio Sam. Com mais de 15 baixas entre funcionários e dirigentes, incluindo o presidente da Federação Islâmica de Futebol do Irã (FFIRI), Mehdi Tah, a seleção optou por mudar a cidade que seria base para os treinamentos. De Tucson, no Arizona, foram para Tijuana, no noroeste mexicano.
Ainda antes do pontapé inicial, o time persa enfrentou novas restrições do governo de Donald Trump, que permitiu a entrada da equipe nos Estados Unidos apenas 24 horas antes das partidas contra Nova Zelândia e Bélgica, além de serem obrigados a deixar o país logo após as partidas. A restrição foi flexibilizada contra o Egito, com permissão para chegarem em Seattle dois dias antes do jogo.
A logística turbulenta impactou na preparação dos atletas, que não mediram palavras para criticar a organização do Mundial. “Essa é uma Copa do Mundo desastrosa. Como jogadores, não podemos disputar uma competição nessas condições. Não é certo e nem justo. Se a Fifa acha que é justo, problema deles, mas não é. O presidente Gianni Infantino veio ao nosso vestiário depois do primeiro jogo e disse que ia resolver os problemas, mas, na verdade, a Fifa não fez nada”, disse o capitão e destaque do time, Mehdi Taremi, após a partida com o Egito.
Com a bola em jogo, o Irã viveu todos os clichês de uma montanha-russa de emoções. Na estreia, um empate em 2x2 contra a Nova Zelândia, mesmo sendo favoritos. Um dos destaques da partida foi o apoio da torcida iraniana no SoFi Stadium, em Los Angeles, lar da maior comunidade iraniana longe de Teerã. Na rodada seguinte, segurou o 0x0 contra a Bélgica diante de uma grande atuação do goleiro Alireza Beiranvand.
Os altos e baixos continuaram na última partida do grupo G. O Egito saiu na frente com cinco minutos e o capitão Taremi perdeu um pênalti, mas logo depois o veterano Ramin Rezaeian, de 36 anos, igualou o placar. Nos acréscimos de um segundo tempo morno, onde os dois lados pareciam contentes com o empate, o zagueiro Shoja Khalilzadeh aproveitou a confusão na área e fez o gol que daria a classificação iraniana ao mata-mata, com comemoração sem camisa e de óculos escuros. No entanto, a bola na rede foi anulada por impedimento.
Apesar da frustração, a delegação deixou um recado de positividade no vestiário, agradecendo a recepção em Seattle e pedindo por Fair Play, inclusive citando todas as seleções que jogariam depois e poderiam impactar o futuro da equipe na competição.
“Viemos do Irã. De uma terra que, há milhares de anos, valoriza a honra acima da vitória. Para nós, o futebol não se resume apenas a competir por um resultado; é um teste de caráter. Pode-se marcar pontos da forma que se quiser, mas não se pode comprar o respeito. Pode-se passar a fase de grupos, mas só se pode manter a cabeça erguida perante o julgamento da história através do fair play. O Fair Play não é uma cláusula no regulamento do futebol; é a alma do futebol. Obrigado a todos os iranianos que trouxeram o seu coração, a sua voz e todo o seu ser para o campo em nome do Irã”, dizia a mensagem, ao lado das hashtags #168 e #Minab, que lembram as vítimas de um bombardeio a uma escola do país em fevereiro.
Com 3 pontos e saldo zerado, atrás de Bélgica e Egito, o Irã precisou torcer contra três resultados para passar entre os melhores terceiros. Secou a Croácia, que venceu Gana por 2x1, com gol nos dez minutos finais. Precisava de um revés da República Democrática do Congo, que ganhou do Uzbequistão de virada por 3x1. Na última esperança, comemorou o gol da Argélia aos 48 do segundo tempo e que lhes daria a classificação, mas viu a Áustria empatar aos 51 e selar o empate que eliminava os iranianos.
Logo após a eliminação, a seleção emitiu uma nota oficial agradecendo a cobertura da imprensa e a hospitalidade dos mexicanos, mas alfinetou os Estados Unidos pelo “tratamento injusto e antidesportivo”. Fora do mata-mata, mas invicto no Mundial, o Irã deixou o torneio como um personagem marcante, independente do futebol apresentado.
“Aos meus jogadores e à equipe, quero dizer que estou orgulhoso deles. O que estes jovens fizeram deveria ser registrado na história, porque o país anfitrião nos tratou de forma muito injusta. Apesar de todos esses problemas, conseguimos ter um bom desempenho e o mundo está orgulhoso dos iranianos. Apelo à Fifa que não deixem que anfitriões tratem equipes da mesma forma nas próximas Copas do Mundo”, acrescentou o técnico Ghalenoei.
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