Quartas de final

Atualização da Torre de Babel ilustra duelo entre França e Marrocos

França e Marrocos reúnem jogadores nascidos em nove países, com raízes familiares espalhadas por três continentes, e transformam jogo em retrato da globalização

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Marcos Paulo Lima
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Victor Parrini
09/07/2026 04:00 - Atualizado em 09/07/2026 05:24
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 HOUSTON, TEXAS - JULY 04: Soufiane Rahimi #9 of Morocco celebrates after the 3-0 victory during the FIFA World Cup 2026 Round of 16 match between Canada and Morocco at Houston Stadium on July 04, 2026 in Houston, Texas.   Lars Baron/Getty Images/AFP (Photo by Lars Baron / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP)
       -  (crédito: Lars Baron/AFP)
HOUSTON, TEXAS - JULY 04: Soufiane Rahimi #9 of Morocco celebrates after the 3-0 victory during the FIFA World Cup 2026 Round of 16 match between Canada and Morocco at Houston Stadium on July 04, 2026 in Houston, Texas. Lars Baron/Getty Images/AFP (Photo by Lars Baron / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP) - (crédito: Lars Baron/AFP)

Boston — A Bíblia conta que a Torre de Babel dispersou povos e multiplicou idiomas. A Copa do Mundo parece ter encontrado um caminho para reuni-los novamente. França e Marrocos inauguram as quartas de final com elencos que atravessam continentes e desafiam a ideia de que uma seleção precisa caber dentro das fronteiras.

O primeiro duelo entre as oito melhores seleções da Copa do Mundo lembra uma cerimônia de abertura. As duas bandeiras envolvidas escondem muitas outras. É um confronto que passa por Canadá, Espanha, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Itália e diferentes países africanos. É um retrato de como a globalização redesenhou o futebol de seleções.

A tese de que a França é formada por jogadores de outros países é frágil, embora tenha ganhado novos capítulos nesta Copa do Mundo. Após a eliminação do Paraguai, a senadora Celeste Amarilla chamou Kylian Mbappé de "camaronês colonizado fingindo ser francês", em um ataque racista motivado pela origem da família. Levantamento do Correio mostra outro retrato. Dos 26 convocados por Didier Deschamps, 22 nasceram em território francês. Apenas três vieram ao mundo fora do país: Michael Olise, na Inglaterra; Marcus Thuram, na Itália; e Brice Samba, na República Democrática do Congo.

Olise talvez seja o retrato mais emblemático dessa diversidade. Nasceu em Londres, atua pelo Bayern de Munique, na Alemanha, e escolheu defender a França. Filho de pai nigeriano e mãe franco-argelina, poderia representar quatro seleções diferentes. Preferiu a que, segundo ele, sempre sentiu como dele desde a infância.

A diversidade não está no passaporte. Está na árvore genealógica. Filhos e netos de imigrantes criaram raízes na França, foram formados nas escolas, clubes e centros de treinamento do país e cresceram sob o lema republicano de liberdade, igualdade e fraternidade. Hoje, representam a seleção como franceses.

Esse modelo é resultado de um projeto construído por décadas. Em 1973, a federação tornou obrigatória a criação de centros de formação pelos clubes profissionais. Hoje, o país conta com quase 40 academias, uma rede de mais de 300 observadores e 16 polos regionais de desenvolvimento, responsáveis por identificar e lapidar talentos desde a adolescência. O principal é o tradicional Clairefontaine, nos arredores de Paris, berço de gerações da seleção.

O investimento ajuda a explicar a influência francesa no futebol mundial. Nesta Copa do Mundo, quase 100 jogadores nascidos na França defenderam diferentes seleções, cerca de 8% dos 1.248 convocados. Não é coincidência que o país tenha se tornado o maior fornecedor de atletas para o próprio Marrocos.

As histórias de família ajudam a explicar o mosaico. Mbappé é filho de um camaronês e de uma argelina. Dembélé e Konaté têm origem no Mali. Upamecano, na Guiné-Bissau. Barcola, no Togo. Doué, na Costa do Marfim. Os irmãos Theo e Lucas Hernández são filhos de um espanhol. Já Michael Olise talvez seja o retrato mais emblemático a diversidade: nasceu na Inglaterra, é filho de um nigeriano e um franco-argelina e poderia defender quatro seleções.

Não por acaso, a seleção francesa tornou-se uma das maiores vitrines da integração do esporte. Os clubes e centros de formação receberam filhos e netos de sucessivas ondas migratórias e ajudaram a transformá-los em atletas de elite. A camisa azul tornou-se o ponto de encontro de diferentes histórias sob uma mesma identidade nacional.

Marrocos seguiu o caminho inverso para chegar à elite do futebol mundial. Apenas sete dos 26 convocados nasceram no país africano. A espinha dorsal da equipe foi construída na diáspora. Há atletas nascidos na Espanha, Bélgica, Holanda, no Canadá e na França que optaram por defender a terra dos pais e dos avós, transformando a seleção em um símbolo da ligação entre o país e as comunidades espalhadas pelo mundo.

Não foi um trabalho simples para a Federação Marroquina. A seleção não se formou por acaso nem por alistamento espontâneo. Foi preciso identificar talentos espalhados pela diáspora, apresentar um projeto esportivo e convencê-los a vestir a camisa da terra dos pais e dos avós. O processo levou anos e transformou a equipe em referência na aproximação com comunidades marroquinas espalhadas pelo planeta.

O adversário das quartas de final ajudou, sem querer, a construir parte da equipe que tentará eliminá-lo. Oito dos 26 convocados de Marrocos nasceram na França. A Espanha contribui com cinco atletas, enquanto Bélgica e Holanda aparecem com três cada. O Canadá fecha a lista com um. O principal símbolo dessa diáspora é Achraf Hakimi, nascido em Madri. O goleiro Yassine Bounou, protagonista da campanha, veio ao mundo em Montreal.

A disputa entre França e Marrocos extrapolou o gramado muito antes das quartas de final. O principal exemplo é Ayyoub Bouaddi. Nascido em Senlis, na França, o meia de 18 anos percorreu todas as categorias de base da seleção e era tratado como uma das joias do país. Sem espaço na equipe principal, decidiu defender a terra dos pais. A troca de associação foi concluída em maio deste ano, poucas semanas antes da convocação para a Copa. Hoje, é titular absoluto de Marrocos e personifica a política da Federação de transformar a diáspora em projeto esportivo.

A partida de hoje será o sétimo encontro entre França e Marrocos. Os Bleus seguem invictos no confronto, com quatro vitórias e dois empates. O capítulo mais marcante dessa rivalidade foi a semifinal da Copa do Mundo de 2022, quando venceram por 2 x 0 no Catar e avançaram à decisão. Três anos e meio depois, a França preserva boa parte da base daquela campanha, com sete remanescentes entre os titulares.

Marrocos se reinventou, inclusive com treinador novo. Apenas cinco dos 11 jogadores que iniciaram a histórica semifinal permanecem na equipe. A reformulação foi conduzida pela Federação Marroquina por meio da busca de talentos espalhados pela diáspora europeia, estratégia que manteve os Leões-do-Atlas entre a elite do futebol mundial.