
Desde que a proibição do uso de celulares em escolas foi sancionada pelo presidente Lula, memes e vídeos satíricos sobre o tema têm tomado conta das redes sociais. Estudantes brincam com situações exageradas de como a medida afetaria suas rotinas, como o uso clandestino de celulares escondidos nos materiais escolares e reações dramáticas enfrentadas pela separação dos aparelhos, e até pedidos para a volta de Jair Bolsonaro. Outros conteúdos ironizam o "desmame tecnológico" promovido por algumas instituições, comparando a retirada dos celulares a um processo de reabilitação.
O presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), Hugo Silva, vê os memes e brincadeiras como uma forma descontraída dos estudantes expressarem sua insatisfação com a medida, e afirmou que "até em momentos difíceis da educação brasileira, os estudantes secundaristas são bem-humorados". O presidente revelou que os estudantes estão se organizando ativamente contra a proibição do uso de celulares nas escolas, por meio dos grêmios estudantis. "Estamos buscando iniciativas para garantir uma educação mais tecnológica nas escolas brasileiras", destacou. Confira o posicionamento completo da Ubes no link: https://shre.ink/b5cm.
Mas, para além das piadas e do humor da internet, a nova legislação tem gerado um amplo debate sobre seus impactos na educação brasileira. Sancionada em 13 de janeiro, a Lei nº 15.100/25 estabelece a proibição do uso de celulares em escolas públicas e particulares em todo o país, com o objetivo de proteger a saúde mental, física e psíquica de crianças e adolescentes, além de promover um ambiente mais adequado ao aprendizado. Especialistas analisam sobre os efeitos práticos da medida, e levantam questionamentos sobre a adaptação dos estudantes e a necessidade de estratégias pedagógicas que conciliem o uso responsável da tecnologia com os objetivos educacionais.
Confira alguns memes que viralizaram:
O que diz a lei

A nova legislação proíbe o uso de celulares durante as aulas, intervalos e atividades extracurriculares para os estudantes matriculados na educação infantil, ensino fundamental e no ensino médio. No entanto, prevê exceções para casos de emergências, inclusão de alunos com deficiência e atividades pedagógicas ou didáticas, mediante orientação dos professores.
O relator do projeto na Câmara dos Deputados e atual secretário municipal de Educação do Rio de Janeiro, Renan Ferreirinha, destaca que a medida busca combater a epidemia de distrações que afeta o desempenho escolar e a saúde mental dos estudantes. "Não faz sentido uma criança ter crise de ansiedade e diagnósticos de depressão porque não consegue se desprender do celular. Também, não é aceitável que o professor esteja dando aula e o aluno esteja nas redes sociais", comentou, ao destacar que um dos objetivos é a retenção da concentração dos alunos. "Toda vez que o aluno recebe uma notificação é como se ele saísse da sala de aula", diz.

A iniciativa surge em um contexto de preocupações com o impacto do uso excessivo de telas no desempenho escolar. "No aprendizado, a distração constante prejudica a assimilação de conteúdos e o desenvolvimento de habilidades cognitivas mais profundas, como a capacidade de reflexão e análise crítica", analisa Gabriel Milaré, coordenador pedagógico do Grupo Salta Educação, grupo de educação básica com mais de 20 escolas pelo país.
Renan aponta que a medida, implementada nas redes municipais do Rio de Janeiro desde 2023, trouxe resultados positivos, como melhorias no desempenho acadêmico e na redução de casos de bullying e cyberbullying. "Temos percebido ganhos na performance escolar. Em matemática, o rendimento foi 70% maior em comparação com escolas que ainda não tinham a medida", explicou.
Aplicações práticas

Para Denise Canal, diretora do Colégio Católica de Brasília e especialista em dependência tecnológica em crianças e adolescentes, a lei pode ser um divisor de águas no combate à distração e ao isolamento social em ambiente escolar. "A concentração dos estudantes voltará, aos poucos, a fazer parte do dia a dia das escolas brasileiras, afinal, não foi da noite para o dia que essa geração se tornou nativa digital", analisa.
Desde que o colégio implementou a restrição em 2023, foram observados avanços significativos. Denise relata que as interações sociais aumentaram nos intervalos, graças à introdução de jogos e atividades coletivas. "Os estudantes gastam tanta energia que, após o intervalo, a atenção é bem maior do que à época do uso excessivo dos celulares, observa. No Colégio Católica de Brasília, foi implementado um sistema de armazenamento de celulares em bolsões localizados nas paredes da sala de aula. Ao chegar na escola, os alunos depositam seus aparelhos nesse espaço destinado, e pegam de volta ao final da aula.
Adaptação e desafios
Apesar dos resultados positivos, Denise afirma que o processo de adaptação foi desafiador. "Precisávamos provar para os responsáveis que o perigo, muitas vezes, não estava na rua, mas no aparelho que seus filhos carregavam no bolso. O celular estava roubando horas da concentração, das oportunidades e da interação social", explica a diretora.
A aceitação dos estudantes não foi imediata. De acordo com a diretora, muitos questionaram a restrição no início, principalmente, os adolescentes. "Com o passar do semestre, esses questionamentos foram sendo superados graças ao apoio de professores, orientadores educacionais e coordenadores que acompanharam de perto esse desmame tecnológico", destaca a diretora.
Equilíbrio

Embora os riscos do uso excessivo de celulares sejam evidentes, a professora e pedagoga Alana Danielly Vasconcelos ressalta que, quando utilizados de maneira pedagógica, os smartphones podem enriquecer o aprendizado. "Eles podem ser valiosos para atividades de pesquisa, uso de aplicativos educativos, criação de conteúdos multimídia e projetos colaborativos. O segredo está na intencionalidade do uso", afirma.
Alana pondera que a legislação que restringe o uso de celulares pode trazer benefícios, como estabelecer limites claros, mas alerta para o risco de desestimular o uso pedagógico desses dispositivos. "Sem estratégias para integrar a tecnologia digital no aprendizado, corremos o risco de criar uma geração analfabeta digitalmente", alerta.

A educadora e doutora em linguística aplicada Betina von Staa concorda que a proibição, se bem aplicada, não compromete o letramento digital, já que a tecnologia pode continuar sendo usada de forma controlada e pedagógica. "O objetivo não é demonizar o celular, mas restringir os aplicativos que geram distrações e ansiedade", explica. Ela abordou ainda a importância de preparar os alunos para o mundo digital por meio de atividades práticas, como criação de conteúdos tecnológicos, programação e robótica, alinhadas ao currículo escolar.
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá