Por Esther Carvalho*
O Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola costuma reforçar campanhas
educativas e debates dentro das escolas, mas a data também exige uma reflexão mais ampla:
o bullying não nasce no ambiente escolar. Ele é a expressão de um fenômeno social mais
profundo, que atravessa relações culturais, familiares e digitais, e revela desafios coletivos de
lidar com diferenças, limites e convivência.
A escola aparece frequentemente como palco dessas situações porque concentra a convivência intensa entre crianças e adolescentes, e, também famílias. No entanto, os comportamentos que ali se manifestam são, em grande parte, aprendidos e reproduzidos a partir de referências sociais mais amplas. A intolerância, a naturalização — e a banalização — da agressividade não são exclusivas do universo escolar, refletem padrões presentes dentro da sociedade.
- Leia também: Bullying é desafio permanente nas escolas
Em um contexto marcado pela cultura da exposição e pela busca constante por validação nas
redes digitais, constranger o outro deixou, muitas vezes, de ser percebido como violência.
Comentários ofensivos, exclusões sociais e brincadeiras que ultrapassam limites passam a ser
normalizados, dificultando a identificação do bullying e retardando intervenções.
Quando a violência ganha escala digital
O avanço das tecnologias digitais transformou profundamente a dinâmica do bullying. O
cyberbullying amplia o alcance das agressões, tornando-as públicas, permanentes e difíceis
de controlar. Diferentemente do bullying presencial, que se limita a um espaço e tempo
específicos, a violência online acompanha a vítima continuamente.
Com a inteligência artificial, esse cenário se torna ainda mais complexo. Ferramentas capazes
de manipular imagens, gerar áudios falsos ou fabricar conteúdos aumentam os ataques e
dificultam a identificação dos responsáveis. Perfis anônimos, disseminação rápida de boatos
e exposição indevida de imagens ampliam o impacto psicológico das agressões e desafiam
escolas, famílias e autoridades. A tecnologia, contudo, não cria o problema, ela amplifica uma
violência que já existe nas relações humanas
Responsabilidade compartilhada: escola, família e sociedade
Diante desse cenário, torna-se evidente que o enfrentamento do bullying não pode depender
apenas de regras escolares ou medidas disciplinares. À escola cabe sua função educativa:
promover a convivência, desenvolver a empatia, conduzir a mediação de conflitos e ajudar
crianças e jovens a compreender as consequências de suas ações. Sanções são entendidas
como elementos formativos, consequências das escolhas. Conflitos fazem parte do processo
de socialização; bullying, não.
A família desempenha papel essencial ao acompanhar a vida digital das crianças e
adolescentes, estabelecer limites e manter diálogo constante sobre respeito e
responsabilidade. A presença e o exemplo dos adultos continuam sendo alguns dos principais
fatores de proteção contra situações de violência.
Já a sociedade precisa avançar em políticas públicas, educação digital e responsabilização das
plataformas tecnológicas. Combater o bullying também significa construir um ambiente social
que não normalize a violência nem transforme a humilhação em entretenimento.
Um desafio educativo e humano
Apesar das mudanças tecnológicas, a raiz do bullying permanece a mesma: a dificuldade de
reconhecer o outro em sua dignidade. Por isso, a superação desta questão exige mais do que
punições pontuais. Passa pela formação ética, pelo fortalecimento socioemocional e pela
construção de vínculos entre escola, família e comunidade.
O Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola deve servir, portanto, como
um convite à ação coletiva. Educar para a convivência é tarefa da escola; formar para a
responsabilidade é papel da família; garantir uma cultura de respeito é compromisso de toda
a sociedade.
Combater o bullying, em última análise, é reaprender a conviver em um mundo cada vez mais
conectado e, justamente por isso, mais dependente da empatia e do reconhecimento do
outro. Sigamos nessa empreitada!
*Esther Carvalho é ex-aluna e diretora-geral do Colégio Rio Branco, doutoranda em
Tecnologias da Inteligência e Design Digital e mestre em Currículo e Tecnologia pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, e especialista em Tecnologias Interativas Aplicadas à
Educação.