João Pedro de Lara Resende
postado em 16/06/2026 14:59
Levantamento inédito do Itaú Social com 2.712 secretarias expõe avanços pedagógicos e desigualdade - (crédito: Pacifico)
Quase metade das redes municipais do Brasil já adota estratégias de letramento matemático na educação infantil. Mas a outra metade ainda não chegou lá — e o dinheiro para fechar essa distância, na maioria dos casos, não vem dos estados.
Levantamento inédito do Itaú Social, em parceria com a Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação) e apoio técnico da consultoria Plano CDE, traz os números. A pesquisa ouviu 2.712 secretarias municipais de educação — 49% do total de municípios brasileiros. O Itaú Social e a Undime apresentam o estudo na segunda-feira (25), às 15h, no 11º Fórum Nacional Extraordinário da Undime, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília.
De acordo com o estudo, 48% das redes adotam ações estruturadas de letramento matemático na educação infantil. “Quando quase metade já implementa essas estratégias, é um indício forte de que o país tem experiências concretas e capacidade instalada para avançar. A outra metade revela um desafio urgente de equidade”, avalia Sonia Dias, gerente de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social.
O que ja funciona
A matemática avança em ritmo menor que a leitura. O estudo aponta que 76% das redes desenvolvem ações voltadas à linguagem e à cultura escrita. Ainda assim, 20% dos gestores não têm nenhuma iniciativa do tipo.
Entre as práticas mais consolidadas, 62% das secretarias promovem o contato das crianças com o meio ambiente e a natureza, 58% oferecem formação continuada com foco no desenvolvimento infantil e 56% realizam busca ativa para garantir acesso e permanência nas creches e pré-escolas.
Os avanços, porém, convivem com exclusão. Indicador do Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional), divulgado em abril, mostrou que em 876 municípios — 16% do total — ao menos uma em cada dez crianças de 4 e 5 anos não frequenta creche ou pré-escola. No Norte, o índice chega a 29%.
O que emperra
Para 23% dos gestores, o maior entrave é a infraestrutura das unidades. Em seguida vêm inclusão de crianças com deficiência (15%), gestão de vagas em creches (8%) e implementação da educação integral (8%).
A precariedade não se limita à percepção dos secretários. Dados do Censo Escolar 2025 compilados pela plataforma QEdu indicam que apenas 17% das creches e pré-escolas públicas reúnem os itens considerados essenciais para funcionar — de água potável e esgoto a espaços de leitura e acessibilidade.
A pesquisa expõe uma fratura no regime de colaboração entre estados e municípios. Dois terços das redes (67%) recebem algum tipo de apoio estadual, e na formação de professores e gestores o suporte atinge 80%. Quando o assunto é dinheiro, o cenário muda. Apenas 27% dos municípios contam com assistência financeira dos estados. Do outro lado, 81% gostariam de receber esse recurso. A demanda envolve repasses para manutenção das unidades, infraestrutura, materiais pedagógicos e ampliação de vagas.
Quem fica para trás
A passagem da educação infantil para o ensino fundamental acumula fragilidades. Apenas 29% das redes implementaram planejamento conjunto com os anos iniciais e produção de portfólios. Outros 17% não fazem nenhum planejamento articulado e 13% não adotam portfólios na transição. Na formação continuada, em média só 17% das redes trabalham bimestralmente temas como leitura, campos de experiência da BNCC, letramento matemático e desenvolvimento infantil.
Nas modalidades de educação do campo, indígena e quilombola, o ritmo é ainda mais lento. Apenas 28% das redes implementaram propostas sem dificuldades. Outros 30% relatam alguma complexidade, 8% muita dificuldade e 8% sequer começaram.
“A Educação Infantil é etapa decisiva. É nesse momento que começamos a construir experiências que impactarão toda a vida escolar e social das crianças. As redes precisam planejar políticas para a primeira infância que considerem a escuta da comunidade e as desigualdades de cada território”, afirma Luiz Miguel Martins Garcia, presidente nacional da Undime e secretário de Educação de Nova Odessa (SP).
Na organização pedagógica, a maioria (63%) adota a matriz curricular estadual. Na pré-escola, 78% das redes informam que todas as unidades adaptaram o PPP (Projeto Político-Pedagógico) às diretrizes vigentes. Ainda assim, 37% relatam dificuldade na revisão dos projetos à luz da BNCC.
A Undime apresenta o levantamento no fórum que marca seus 40 anos, com dirigentes de todo o país reunidos até 27 em Brasília. Os números chegam quando 81% dos municípios ainda não cumprem a meta do Plano Nacional de Educação para creches. Nas redes que avançaram, há um caminho testado. Nas que ficaram para trás, falta o que nenhuma pesquisa pode suprir sozinha: financiamento.
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá