Setembro amarelo

Saúde mental na escola não pode ser só pauta de setembro, diz psicóloga

Gerente pedagógica da Escola da Inteligência defende que o cuidado emocional de alunos e professores vire rotina pedagógica, não campanha de calendário

João Pedro de Lara Resende
postado em 17/09/2026 16:56
"Escolas que tratam isso como cultura, e não como campanha, colhem resultados muito mais consistentes, tanto na prevenção quanto no acolhimento de quem já está em sofrimento", afirma Rafaela Perim, gerente pedagógica da Escola da Inteligência - (crédito: Reprodução)

O Setembro Amarelo, mês nacional de conscientização sobre saúde mental e prevenção ao suicídio, não pode ser tratado como uma campanha restrita ao calendário escolar. A avaliação é de Rafaela Perim, gerente pedagógica da Escola da Inteligência, solução de educação socioemocional da Arco Educação, presente em mais de 1.000 escolas do país, com uma rede de mais de 7.000 professores que atendem 400 mil alunos, segundo a empresa. "Escolas que tratam isso como cultura, e não como campanha, colhem resultados muito mais consistentes, tanto na prevenção quanto no acolhimento de quem já está em sofrimento", afirma.

Perim é psicóloga, graduada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), especialista em terapia cognitivo-comportamental pelo Instituto de Psicologia e Controle do Stress (IPCS) e com MBA em gestão de pessoas e lideranças pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Atua há quase 15 anos com educação socioemocional, da sala de aula à gerência nacional da consultoria socioemocional na Arco Plus. Nesta entrevista, ela fala sobre a importância da saúde mental no ambiente escolar, o papel da aprendizagem socioemocional na promoção de ambientes mais saudáveis e os principais desafios enfrentados pelas escolas para adotar essa cultura.

Como o cuidado com a saúde mental se reflete no clima escolar e na aprendizagem dos estudantes?

A saúde mental é a condição básica para que a aprendizagem aconteça. Isso porque aprender exige, o tempo todo, lidar com frustração, insegurança e desafio. Não existe desenvolvimento acadêmico pleno sem desenvolvimento emocional. Uma criança que não sabe reconhecer o que sente, que não tem repertório para lidar com frustração ou ansiedade, carrega esse peso para dentro da sala de aula, e isso se reflete diretamente na sua disposição para aprender, participar e se engajar.

É muito difícil prestar atenção em uma aula, guardar um conteúdo na memória ou resolver um problema de raciocínio quando a cabeça está tomada por ansiedade, medo ou tristeza. É como pedir para alguém estudar com o alarme de incêndio tocando dentro de casa: o corpo e a mente entram em modo de proteção, não em modo de aprendizagem.

O mesmo vale para os educadores?

Sim. Um professor que não tem espaço para processar suas próprias emoções tende, ao longo do tempo, a esvaziar-se, o que se reflete diretamente na qualidade do vínculo pedagógico, que é a base de qualquer aprendizagem significativa.

Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os afastamentos do trabalho por transtornos mentais têm crescido entre trabalhadores brasileiros de forma geral: foram 546.254 concessões de benefício por incapacidade temporária por esse motivo em 2025, alta de 15,66% em relação a 2024 e um recorde da série histórica.

Um professor esgotado tem menos repertório para acolher, ter paciência diante de um comportamento desafiador e construir uma relação de confiança que faça o aluno se sentir seguro para aprender e errar. E um aluno em sofrimento tem menos condições de se abrir e se vincular a esse adulto de referência. Por isso, eu costumo dizer que esta não é uma pauta paralela à educação. É a própria educação, em sua dimensão mais essencial.

Além disso, vale lembrar que, em maio de 2026, entrou em vigor a nova redação do Capítulo 1.5 da NR-1, que passa a responsabilizar formalmente as escolas pela prevenção do adoecimento mental dos professores, exigindo o mapeamento de riscos psicossociais e a adoção de medidas preventivas. Ou seja: cuidar da saúde mental do educador deixou de ser apenas uma boa prática, passou a ser uma exigência legal (veja detalhes no Anote).

Como as escolas podem promover ambientes mais saudáveis? Por onde começar?

Não existe fórmula única, mas há caminhos concretos que, quando aplicados com consistência, fazem diferença real no dia a dia da comunidade escolar. Algumas possibilidades são estruturar um programa contínuo de educação socioemocional, em vez de ações pontuais; criar espaços de escuta para os alunos; e capacitar os educadores a reconhecer sinais de sofrimento emocional nos estudantes. Paralelamente, é importante cuidar da saúde mental do próprio professor e construir uma parceria genuína com as famílias.

Por que a educação socioemocional pode ser uma ferramenta importante para promover a saúde mental de alunos e docentes?

Porque a educação socioemocional trabalha na raiz, e não no sintoma. Em vez de reagir a uma crise de ansiedade já instalada ou a um conflito que já explodiu em sala, ela atua preventivamente, desenvolvendo competências que permitem à pessoa reconhecer, nomear e regular suas próprias emoções antes que elas se tornem sofrimento crônico.

Lidar com as próprias emoções é algo que se aprende e se desenvolve?

Sim. Assim como ninguém nasce sabendo ler ou fazer contas, lidar com as próprias emoções também se aprende, se pratica e se desenvolve. Uma criança que aprende, desde cedo, a identificar o que está sentindo, em vez de reprimir ou explodir, constrói um repertório emocional que a protegerá ao longo de toda a vida.

Para o professor, o raciocínio é semelhante: ao desenvolver competências como autorregulação e empatia, ele torna-se mais capaz de mediar conflitos com equilíbrio, de sustentar vínculos pedagógicos saudáveis e de se manter engajado profissionalmente por mais tempo, sem chegar ao esgotamento.

Quais são os maiores desafios para as escolas implementarem programas socioemocionais e quais são os caminhos para superá-los?

O primeiro desafio é cultural e, talvez, o mais profundo: ainda existe, em muitas instituições, a crença de que saúde mental é assunto "de casa" ou "de psicólogo", e não algo que tenha lugar dentro da sala de aula. Superar essa crença exige investimento na formação de gestores e de coordenadores pedagógicos, para que compreendam que esse cuidado faz parte do papel formativo da escola.

Há também o desafio estrutural: falta tempo em uma grade curricular já sobrecarregada. O caminho aqui não é "encontrar tempo", e sim adotar programas estruturados, com metodologia e material didático prontos, alinhados à BNCC, que se integram organicamente à rotina, sem sobrecarregar ainda mais os professores.

O adoecimento dos educadores e o desafio da mensuração seriam outros obstáculos?

Sim. Boa parte dos professores já precisou se afastar do trabalho por questões de saúde ao longo da carreira — um levantamento de 2018 da Associação Nova Escola, com mais de 5 mil educadores, apontava esse índice em 66%, atribuído majoritariamente às condições de trabalho. "Não há como formar alunos emocionalmente saudáveis com um corpo docente esgotado. O caminho passa por capacitação contínua, mas também por revisão real da carga de trabalho, apoio institucional e escuta ativa entre pares", afirma Perim.

Quanto à mensuração, muitas escolas implementam ações de saúde mental, mas não acompanham sistematicamente os indicadores ao longo do tempo, o que impede ajustes estratégicos baseados em evidências. Instrumentos de avaliação socioemocional bem construídos são fundamentais para tornar esse trabalho não apenas bem-intencionado, mas também efetivo e mensurável.

 *Estagiário sob a supervisão de Ana Sá

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