ELEIÇÕES 2026

Educação perde espaço e vira refém da polarização, dizem jornalistas

Colunistas das maiores redações do país avaliam que cobertura eleitoral ignora propostas para a área; jornalista americana aponta que Brasil repete caminho dos EUA

João Pedro de Lara Resende
postado em 23/09/2026 10:57
Colunistas, repórteres, pesquisadores e economistas discutiram o lugar da área no debate eleitoral -  (crédito: João Pedro de Lara Resende/CB/D.A Press)
Colunistas, repórteres, pesquisadores e economistas discutiram o lugar da área no debate eleitoral - (crédito: João Pedro de Lara Resende/CB/D.A Press)

São Paulo — A educação perdeu a disputa pela atenção nas eleições de 2026. O diagnóstico saiu de três mesas consecutivas no 10º Congresso da Jeduca, na Universidade de São Paulo (USP), na terça-feira (22/9). Colunistas, repórteres, pesquisadores e economistas discutiram o lugar da área no debate eleitoral e chegaram a uma conclusão: a polarização empurrou a cobertura de políticas educacionais para segundo plano.

"Quando eu proponho uma pauta para a minha direção, ela pergunta: isso engaja?", disse Iuri Pitta, da CNN Brasil. "Engaja é uma palavra de rede social, do influenciador. Isso não deveria ser obrigação do jornalista", continuou. Para ele, o debate sobre modelos de escola empobreceu.

"Eu acho muito lamentável que o modelo de escola que se discute no campo da política não seja nem o Ciep nem o CEU: é a escola cívico-militar", afirmou Iuri.

Frustração com o MEC

O painel sobre cobertura eleitoral expôs a insatisfação com a gestão do Ministério da Educação no governo Lula. O colunista Bernardo Mello Franco, do jornal O Globo, resumiu a expectativa e a decepção: "Quando o ex-governador do Ceará é nomeado ministro da Educação, a gente imagina que essa experiência vai ser reproduzida em escala nacional. Aparentemente não foi bem isso o que aconteceu".

Mello Franco alertou que, em caso de vitória de Flávio Bolsonaro, o MEC pode ser loteado à ala radical do bolsonarismo, como ocorreu no governo anterior. "Os olavistas continuam. E esse fantasma possivelmente vai assombrar o MEC", afirmou.

Eliane Cantanhêde, do Estadão, apontou um vazio que atravessa todos os programas de governo. "Professores é um não assunto. Quem é que entrega as notas? São os professores. E os professores não estão bem", disse. A colunista denunciou a existência, no governo Bolsonaro, de "corretores do FNDE" (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), intermediários que conectavam parlamentares a prefeituras para direcionar emendas sem compromisso com as necessidades reais.

O espelho americano

O paralelo com os Estados Unidos veio de Cara Fitzpatrick, editora do Chalkbeat e vencedora do Prêmio Pulitzer de 2016. Ela descreveu como o argumento dos defensores de alternativas à escola pública mudou ao longo das décadas: primeiro, era a eficácia; depois, quando pesquisas mostraram resultados semelhantes entre escolas públicas e privadas, o discurso migrou para valores familiares. "Agora não é mais sobre os testes. É sobre os valores da família e se ela deveria ter essa escolha", explicou.

Fitzpatrick alertou para a manipulação de evidências. "É muito comum, nos Estados Unidos, que defensores de school choice financiem pesquisas que tendem a apresentar resultados positivos", disse. Para a jornalista, cabe ao repórter verificar a origem do estudo, o tamanho da amostra e se os achados foram replicados.

Alexandre Schneider, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-secretário municipal de Educação de São Paulo, disse que o Brasil caminha na mesma direção, com uma "aliança improvável" entre a agenda de valores conservadora e o privatismo na educação. "A política educacional gira em torno do Saeb e do Ideb. A gente não discute quem devem ser os nossos alunos, como devem ser as nossas escolas", afirmou.

Cobertor curto

Na mesa sobre orçamento, Dalmo Palmeira, da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, mostrou que o financiamento total da educação federal parece estável (R$ 193 bilhões em 2026), mas que os números escondem distorções.

O orçamento do ensino superior em 2025, corrigido pela inflação, equivale a cerca de metade do que era em 2014.

Palmeira apresentou projeção do próprio Ministério do Planejamento: as despesas discricionárias do governo cairiam de R$ 208 bilhões em 2026 para R$ 8 bilhões em 2029. "Nenhum orçamento consegue ser gerenciado dessa forma", afirmou. Bruno Bondarovsky, da Central das Emendas, defendeu que os eleitores cobrem dos candidatos ao Legislativo uma posição sobre emendas parlamentares, e não apenas sobre se pretendem aplicá-las.

No fim da tarde, Mello Franco prestou homenagem ao jornalista Zuenir Ventura, morto nesta terça-feira aos 95 anos. Citou uma frase do livro de memórias "Minhas Histórias dos Outros": "Não viemos à Terra para julgar, nem para prender ou condenar. Viemos para olhar e depois contar. Não somos juízes, não somos promotores, somos jornalistas."

*Estagiário sob a supervisão de Aline Gouveia

*João Pedro viajou a convite do Instituto Unibanco

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