Eu, Estudante

Ensino Superior

Educação transformadora: jovem é a primeira da família a ingressar na universidade

Como o acesso à educação e o acolhimento social levaram Kailaine da incerteza aos corredores da universidade

 

“O conhecimento é a única coisa que ninguém pode tirar de você”, a tia da Kailaine Santos, 21 anos, repetia sempre essa frase para  a sobrinha. O conselho era um lembrete de que o estudo poderia transformar o futuro da própria jovem. Por causa da educação, sua história trilhou um caminho diferente, e, hoje, Kailaine  é a primeira da família a ingressar em uma universidade, marcando o início de um novo capítulo para uma história antes pautada pela falta de oportunidades.

Devido à dependência química da mãe, Kailaine foi criada pelo pai e os tios na Vila Torres, área de baixa renda em Curitiba. Passou por situações difíceis durante a infância, cresceu marcada por momentos de vulnerabilidade econômica, instabilidade e poucas perspectivas. E, então, encontrou esperança nos projetos sociais de que fez parte, local de transformação social para crianças e jovens. Foi por meio desses programas municipais que ela passou a enxergar o estudo não apenas como uma obrigação, mas como a ponte para um sonho que, até então, não sabia ter: o ensino superior.

Projetos sociais e sua força

O Projeto Esperança foi a porta de entrada de Kailaine no mundo das oportunidades. Entre oficinas de alfabetização e aulas de música, seu potencial se destacou, garantindo-lhe uma bolsa de estudos no Colégio Nossa Senhora da Esperança, sede do programa. No entanto, ao completar 10 anos, ela atingiu a idade limite do projeto e precisou se despedir da instituição para seguir novos caminhos. Mesmo criança, notava como suas oportunidades tinham se estendido na entrada do projeto e, logo, ao lado da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), estava sua próxima passagem: o projeto Conviver Marista.

“Existiam clubes de leitura, aulas de informática, rodas de conversas sobre sexualidade, atividades para ingressar no mercado de trabalho, entre outras diversas oficinas”, comenta Kailaine. O projeto Conviver Marista auxiliava jovens da comunidade com experiências lúdicas, culturais e esportivas, encorajava os estudos e formava cidadãos. Por meio das inúmeras atividades e a imersão na faculdade parceira, PUCPR, Kailaine amadureceu familiarizada com a universidade. E, em seu coração, crescia a vontade de andar por aqueles mesmos corredores sendo “filha da PUC”. Havia apenas uma certeza: os estudos seriam o caminho para alcançar uma nova realidade de vida.

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O suporte de psicólogos, educadores e assistentes sociais foi o diferencial para que Kailaine e outros jovens ganhassem autoconfiança. “O pessoal do Conviver Marista sempre enfatizou que não estávamos na PUC apenas como visitantes do projeto, mas que poderíamos estar lá como universitários. Eles batiam na tecla de que poderíamos sonhar e ser o que desejássemos”, afirma a jovem Kailaine. Para ela, sem esse estímulo, o ingresso no ensino superior dificilmente seria uma realidade hoje.

“Apesar das limitações sociais e familiares, eu era incentivada a estudar, e via pessoas acreditando no meu potencial. Ao participar de projetos sociais e ter acesso à educação de qualidade por meio de bolsas, compreendi que a universidade não era um espaço inalcançável, mas um caminho possível e transformador. A vivência dentro do Grupo Marista e, na PUC, reforçou essa percepção, pois passei a ocupar esses espaços não apenas como observadora, mas como parte deles”, Kailaine comenta sobre o momento que percebeu a universidade como caminho possível.

Grupo Marista

Há dois séculos, o Grupo Marista cuida de estudantes e jovens por meio dos programas. “Para nós, isso vai muito além de uma iniciativa social: é uma expressão mais autêntica de quem somos” afirma Tânia Mior, coordenadora de atração e inclusão do grupo Marista. O Jovem Aprendiz, um dos projetos do grupo, é uma ferramenta que auxilia os jovens no início da vida profissional, dando a eles a primeira chance no mercado de trabalho. Além da primeira oportunidade de emprego, os jovens estavam aptos a conectar conhecimento de sala de aula na vida profissional.

Atualmente, o Conviver Marista segue apenas no Maritsa Ir. Acácio, localizado em Londrina. O serviço para acolher os alunos no contraturno escolar com atividades pedagógicas ajudou diversos estudantes a entender seus anseios e planos para o futuro. Para o Grupo Marista, histórias como a de Kailaine reforçam o compromisso histórico com a educação e a inclusão. “Transformar vidas exige presença e acolhimento. Nosso compromisso vai além de abrir portas. Queremos garantir que cada estudante possa permanecer e se desenvolver com dignidade”, afirma a responsável pelo Programa de Qualidade de Vida do Grupo Marista,  Luciana de Souza Augusto.

 

Divulgação/ Grupo Marista - O acesso à educação e o acolhimento social levaram Kailaine da incerteza aos corredores da universidade

A permanência

“Transformar vidas exige presença e acolhimento. Nosso compromisso vai além de abrir portas; queremos garantir que cada estudante permaneça e se desenvolva com dignidade”, afirma Luciana de Souza Augusto, responsável pelo Programa de Qualidade de Vida do Grupo Marista. Afinal, a permanência no ensino superior pode ser ainda mais desafiadora que o ingresso. A história de Kailaine reflete essa luta: uma trajetória em que o acesso à educação se cruza com as diferentes realidades e tratamentos que cada estudante encontra pelo caminho.

Ao iniciar o curso de Serviço Social na PUCPR, Kailaine recorda o primeiro dia como um misto de orgulho e medo. “Ao ocupar aquele espaço, tive a consciência imediata de quanto minha vivência era distinta da maioria das pessoas ali”, relembra. Embora o resultado de tanto esforço trouxesse um sentimento inicial de deslocamento perante a estrutura acadêmica, ela nunca duvidou de que aquele era seu lugar. Vizinha da universidade, moradora da Vila Torres, Kailaine ressignificou sua presença: “Estar ali era o fruto de muita luta, minha e de quem acreditou em mim. Entendi que ali é o meu lugar e o lugar de todos os moradores da Vila Torres”.

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Hoje, a jovem concilia trabalhos da faculdade, aulas e serviço. Embora o final seja um diploma e o orgulho de ter uma graduação, a caminhada até lá se mostra desafiadora em diversos momentos. “Permanecer é um exercício diário de resistência e de reafirmação do porquê comecei”, Kailane afirma.

Ao passar do tempo, a experiência completa da faculdade  trouxe conforto para ela. As aulas, relações construídas, trabalhos e desafios construíram seu sentimento de pertencimento. “Hoje, me reconheço como parte daquele espaço e faço questão que todos saibam”, conclui.

A escolha do curso: Serviço social

Desde pequena, Kailaine compreende o significado de ser assistente social, o que esse profissional faz e como é essencial para a sociedade. A jovem revisita em sua memória momentos da infância nos quais a ausência de políticas públicas afetou seu crescimento. Vítima de um país desigual, ela pretende ajudar pessoas e comunidades em situação de vulnerabilidade. Da mesma forma que foi escutada, orientada e cuidada pelos educadores sociais em projetos, Kailaine projeta seu futuro como graduanda em Serviço Social.

“A vivência da negligência, da ausência de cuidado e da falta de suporte para famílias atravessadas pela dependência química é algo que me marca profundamente. Muitas vezes, quando criança, senti que não havia um adulto ou uma política que conseguisse intervir de forma efetiva. É nesse campo da proteção social, da infância e da família que desejo atuar, para que outras crianças tenham acesso ao cuidado que me faltou”, ela comenta.

Educação transformadora

Como primeira da família a entrar no ensino superior, Kailaine supera estatísticas e muda a rota do seu futuro. Seu pai e tios, base de cuidado e apoio para a jovem, são fundamentais para sua realização. Para ela, é uma conquista coletiva, um sonho da família inteira.

“Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. A afirmação de Paulo Freire se aplica à vida de Kailaine: com o acesso à educação, conheceu um mundo e se transformou. Hoje, na metade da graduação e realização de um sonho, entende que estar na PUC é um feito dos estudos, mas também a formou; seu amadurecimento como pessoa mudou a forma que enxergava a vida e questões de sua realidade.

O estudo a constituiu como sujeito, despertando nela a certeza de que outras realidades são possíveis, tanto para sua própria trajetória quanto para aqueles que provêm de contextos semelhantes. “Foi por meio da educação que passei a entender o funcionamento das políticas públicas, o papel do Estado e os direitos que me foram historicamente negados. Me ensinou a olhar para a minha própria história com menos culpa e mais consciência crítica, fortalecendo minha autoestima e meu senso de pertencimento”, a jovem conclui.

*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá.