João Pedro de Lara Resende
postado em 09/08/2026 06:00 / atualizado em 09/08/2026 06:00
Projeção do câmpus: 20 hectares em modelo horizontal, com prédios acadêmicos e residenciais integrados - (crédito: Divulgação/ITEC)
O Brasil consome tecnologia como poucos países no mundo, mas a produção é pequena. Foi para mudar essa conta que um grupo de empresários e fundações decidiu erguer, na Região Metropolitana de Porto Alegre, uma instituição sem igual no país: o Itec — Instituto de Tecnologia e Computação. São R$ 400 milhões de investimento filantrópico inicial para oferecer uma graduação em Ciência da Computação em regime integral e residencial. A primeira turma está prevista para março de 2027, e a ambição é formar mais de mil talentos na primeira década.
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Na semana passada, o diretor de Desenvolvimento e Operações do instituto, Cristiano Richter, esteve em Brasília para atrair estudantes da capital. “Tem me chamado a atenção a quantidade de bons talentos em Brasília. Identificamos aqui um terreno fértil”, afirmou.
Um só curso, 10 alunos por professor
A aposta do ITEC é fazer uma coisa só, e fazê-la a fundo. O instituto se concentra em um único curso — bacharelado em ciência da computação, de quatro anos — e canaliza nele todos os recursos. O primeiro sinal dessa escolha está na relação entre professor e aluno: 10 estudantes por docente, em comparação com uma média de cerca de 28 nas graduações brasileiras. Todos terão doutorado e dedicação exclusiva. “A expectativa é de que, no primeiro dia de aula, o professor não precise fazer chamada. Que ele saiba de antemão o nome de cada aluno”, diz Richter. Dois docentes foram contratados — um repatriado da França, outro vindo dos Estados Unidos — e novos editais estão abertos.
Moradia no câmpus como parte do currículo
Todos os estudantes morarão no câmpus durante os quatro anos, um modelo comum nos Estados Unidos e na Ásia, e raro no Brasil. Para desenhar as regras de convivência, o instituto contratou uma consultoria da Washington University, em St. Louis. O câmpus horizontal ocupa 20 hectares doados por empresários locais, com projeto do escritório americano Gensler.
Bolsa integral e seleção holística
Os 60 alunos da primeira turma terão bolsa integral, que cobre a mensalidade, a moradia e a alimentação. A seleção foge do vestibular tradicional. “O processo é holístico. Não é passou ou reprovou”, explica Richter. Em vez de uma prova única, o instituto avalia cartas de interesse, entrevistas com o candidato e com a família, o histórico e o desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “A gente não enxerga a fotografia do aluno naquele momento, tenta entender todo o filme dele”, afirma — se participou de olimpíadas de matemática ou robótica, como aprende, o que enfrentou até ali. Não há cotas: a aposta, diz o diretor, é numa diversidade construída pela busca ativa de talentos em todo o país, das capitais ao interior.
Sem contrapartida
Diferentemente de programas que financiam estudos em troca de trabalho futuro, o Itec não cobra nada dos bolsistas. Richter afirma não haver contrapartida alguma — nem obrigação de trabalhar nas empresas dos fundadores, nem tempo mínimo de permanência no Brasil. “É uma doação genuína”, resume. A aposta é de longo prazo: que o egresso, uma vez bem-sucedido, volte a apoiar o instituto. O diretor cita um dado que ouviu de Luiza Toledo, da Telles Foundation — uma família brasileira leva, em média, de 80 a 100 anos para subir de uma classe social a outra. A educação, argumenta, encurta esse tempo em gerações.
Por trás do instituto
O Itec foi idealizado em 2022 por Cristiano Franco, fundador da Poatek, empresa de software. Ao seu redor, Franco reuniu financiadores com uma trajetória rara na tecnologia brasileira. Marcelo Lacerda e Sérgio Pretto foram pioneiros da internet no país, com a Nutecnet, embrião do portal Terra. Hoje, Lacerda preside a Magnopus, empresa de computação gráfica de Los Angeles por trás dos efeitos visuais de O Rei Leão (2019), da Disney.
Somam-se ao grupo duas fundações ligadas a sócios da 3G Capital, dona de marcas como AB InBev e Burger King: a Telles Foundation, de Marcel Telles, e a Fundação Behring, de Alexandre Behring. O sexto e mais recente fundador é o primeiro americano da iniciativa: Edward Wible, cofundador e ex-diretor de tecnologia do Nubank.
A parte acadêmica reúne nomes de peso. O currículo foi desenhado por Giselle Reis, que lidera o Programa de Ciência da Computação da Carnegie Mellon University, no Catar. Completam o conselho Luis Lamb, ex-diretor do Instituto de Informática da UFRGS, e Maria Klawe, ex-presidente do Harvey Mudd College e ex-conselheira da Microsoft. Klawe é referência em diversidade: em sua gestão, a participação de mulheres nos cursos de computação da instituição subiu de 5% para 50%. O Itec quer repetir o feito — hoje, elas representam cerca de 15% da área no Brasil.
Como próximos passos, o instituto aguarda o aval do Ministério da Educação (MEC). “Estamos em processo de tramitação regulatória, aguardando a visita in loco do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O fluxo continua”, diz Richter, que se declara otimista quanto às etapas e aos prazos do credenciamento.
Com 40% das obras concluídas, o câmpus deve começar a operar em janeiro de 2027. “Depois que a primeira turma estiver de pé, o projeto passa a se autoalimentar”, prevê Richter. Enquanto isso, ele segue rodando o país — e olhando, com atenção, para os talentos que Brasília ainda não descobriu que tem.
* Estagiário sob a supervisão de Ana Sá