MERCADO DE TRABALHO

Vilã ou aliada? Saiba como a inteligência artificial vai mudar o emprego

Aprimoramento da inteligência artificial levanta muitas dúvidas se ferramentas, como o ChatGPT, vão substituir postos de trabalho ou se ajudarão no desenvolvimento das profissões

Camilla Germano
Roberto Fonseca
postado em 12/03/2023 06:00 / atualizado em 16/08/2023 18:42
Para Leon, uma das áreas que está mais ameaçada é a de tradução:
Para Leon, uma das áreas que está mais ameaçada é a de tradução: "Se pedir no ChatGPT para traduzir (um texto) ele vai traduzir, vai deixar mais coeso" - (crédito: Ed Alves/CB/DA.Press)
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"O que é o ChatGPT?", "Como funciona a inteligência artificial?" ou "software para escrever textos". Desde a última semana de novembro, o Google tem registrado um aumento nas buscas referentes ao uso de ferramentas baseadas na inteligência artificial no dia a dia — proporcionalmente, o Distrito Federal é a unidade da Federação com mais pesquisas sobre o assunto.

O crescimento das buscas no Google coincide justamente com o lançamento, em 30 de novembro de 2022, do ChatGPT, um robô que se tornou febre pelas redes sociais por redigir em questão de segundos textos aprofundados sobre áreas bem específicas do conhecimento humano. Com isso, muitas dúvidas vieram a reboque, como, por exemplo, se os empregos estão ameaçados pela inteligência artificial ou se serão aprimorados.

Na opinião de Marcos Barreto, professor da Fundação Vanzolini e da Poli-USP, todas as profissões que dependem da produção de algum tipo de texto podem ser impactadas e beneficiadas. "Mas até profissões que escrevem menos textos, como um médico, podem ser facilitadas. Um médico, por exemplo, pode ter uma receita melhor escrita, explicando a posologia", comenta.

Barreto, no entanto, ressalta que todo avanço tecnológico acaba, de alguma forma, diminuindo a necessidade de pessoas para realizar determinadas tarefas. "'Ah, o robô substitui o operário'. Não é bem assim, o operário continua sendo necessário, ele só vai realizar outras tarefas", cita. "Com o Chat GPT será parecido, a gente vai precisar de pessoas que revisem e validem os textos que são produzidos."

Já o professor sênior da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (USP) Hélio Zylberstajn avalia que as profissões que utilizam a capacidade cognitiva estão diante de um desafio com o aprimoramento da inteligência artificial. É o caso de advogados e professores. "Até agora, a automação estava substituindo as atividades não cognitivas. E agora isso mudou. Como toda inovação tecnológica, oportunidades são criadas, mas também as já existentes são destruídas. Tarefas que demandam capacidade cognitiva ganharam um forte concorrente", diz Zylberstajn, que também é coordenador do projeto Salariômetro, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

Segundo Zylberstajn, a atividade acadêmica será uma área beneficiada, mas os professores, ao mesmo tempo, terão que se reinventar. "As pesquisas bibliográficas serão facilitadas. Basta dar um assunto e a ferramenta sugere as fontes", afirma. "Já o professor está diante de um desafio. Ele dá o assunto e o aluno pesquisa. E aulas terão que ser aprofundadas, que tragam contribuições para o interesse da vida do aluno ou com aspectos do dia a dia da sociedade. É fato: a forma de pesquisa será substituída", completa.

"Ajuda extra"

Professor de ciências de dados na empresa Let's Data, Leon Sólon destaca que o ChatGPT funciona muito bem como uma "ajuda extra" para reduzir o tempo de aprimoramento de códigos, por exemplo. Leon compara o ChatGPT, especialmente nesta área de cálculos ou criação de fórmulas, por exemplo, com uma calculadora. "Nós sabemos somar e fazer contas de raiz, por exemplo, mas a diferença ao se usar a calculadora é que ela está sempre certa. Já no ChatGPT, se você não souber o que está fazendo, pode ser que aconteçam erros, mas, se souber, aumenta a produtividade", destaca o professor.

Entretanto, Leon destaca que, na hora de criar códigos, a plataforma está propensa a errar, se a pessoa não tiver conhecimentos amplos. Um exemplo seria criar do zero, tarefa que demora horas para ser feita. Com o ChatGPT, é possível otimizar esse trabalho, contudo, se a pessoa não souber como fazer a atividade do zero sem o uso da plataforma, pode ser que não perceba erros de funcionamento. "Inclusive ele tem um joinha para cima e para baixo nas respostas para você julgar se está certo ou não. Se você dá o joinha para baixo, isso dá um feedback humano para alimentar o treinamento da própria plataforma", explica. Vale lembrar que existem avisos na própria página do ChatGPT que explicam as limitações de capacidade e conteúdo que a ferramenta armazena.

Para Leon, uma das áreas que está mais ameaçada é a de tradução. "Se pedir no ChatGPT para traduzir (um texto), ele vai traduzir, vai deixar mais coeso. Ele consegue aumentar o texto se quiser, resumir também, deixar mais formal ou mais informal. Todavia, o professor pontua que a ferramenta não consegue substituir pessoas que são especialistas em certo tema. Na área de tradução, por exemplo, se uma pessoa é mestre em tradução de textos sobre veganismo, é muito provável que o ChatGPT não consiga traduzir termos específicos e faça uma tradução mais "genérica", ao contrário da pessoa.

Impactos no Distrito Federal

Marco Tulio, presidente do Sindesei-DF:
crédito: Cristiano Costa/CR Press

Um longo debate entre os estudiosos da área da tecnologia é como essas novas ferramentas, especialmente as baseadas em inteligência artificial (IA), podem impactar a rotina e o dia a dia da população. Mesmo sendo um debate amplo e diverso, essas tecnologias tendem a estar cada vez mais integradas nas tarefas diárias e de trabalho das pessoas.

Na avaliação do presidente do Sindicato das Empresas de Serviços de Informática do Distrito Federal (Sindesei-DF), Marco Tulio, apesar das tecnologias já serem muito surpreendentes, elas ainda devem evoluir muito e serem incorporadas em todo e qualquer sistema de informática. "Praticamente toda interação que um humano faz com os sistemas atualmente será feita também por uma tecnologia de inteligência artificial", destaca Tulio.

Esse avanço tecnológico pode estar inclusive mais perto do que longe, de acordo com o especialista. O ChatGPT, por exemplo, se tornou rapidamente uma tecnologia popular e que muitos estudam como ela pode ser incorporada em sistemas e ferramentas.

Para Tulio, essa tecnologia tem o potencial de impactar a vida dos moradores do DF e indica que novas empresas e serviços podem ser criados a partir delas. "Temos em Brasília um dos maiores mercados de tecnologia do país por ser sede do governo federal, do GDF, de inúmeras representações diplomáticas e de um comércio que cresce cada vez mais", explica.

Contudo, a visão de Tulio é otimista para os trabalhadores, uma vez que vê a possibilidade de o ChatGPT substituir algumas profissões. "Ela não está pronta para assumir nossos postos de trabalho. Essas tecnologias e sistemas movidos a inteligência artificial podem cometer erros e serem programados para 'pensar' de uma certa forma, com interesses de terceiros, como políticas de governo, defesa de alguma bandeira extremista ou mesmo como uma simples ferramenta de vendas", ressalta.

Tulio avalia ainda que, mesmo não substituindo profissões, certos tipos de trabalho, como aqueles baseados em repetições, devem sofrer mudanças e ter a forma de trabalho modificada. "Certas atividades que demandam horas de serviço braçal em frente a um computador serão feitas em segundos por uma inteligência mudando definitivamente o mercado de trabalho como entendemos hoje", prevê.

Para Matheus Duarte, 22 anos, estudante de design de produtos do Instituto Federal de Brasília (IFB), o ChatGPT funciona mais como uma espécie de ajuda para o trabalho e não vê riscos de profissão ser substituída. "Ela funciona como uma ferramenta para agregar e ajudar, porque a pessoa vai otimizar tempo e também vai ter mais noção do que usar", explica.

Atualmente, Matheus estagia em uma clínica de ortopedia. Além de criar as artes para postagens, ele organiza os conteúdos para as redes sociais. A plataforma o auxilia a entender que tipos de conteúdos pode fazer e o que ele deve repassar para os pacientes. "Eu acho que ele ajuda bastante e pode contribuir muito para o marketing, porque é algo mais claro e mais específico. Eu fiquei, inclusive, assustado porque testei uma vez e deu uma resposta muito clara, mais assertiva que o próprio Google", destaca o estudante.

O que é o ChatGPT

O Chat GPT é um algoritmo baseado em inteligência artificial que se tornou febre pelas redes sociais. Ele chamou a atenção de internautas justamente por ser uma plataforma simples de perguntas e respostas, mas que consegue escrever basicamente tudo o que for pedido. Criado pela empresa Open IA, o Chat GPT usa informações já existentes na internet, que servem como uma espécie de base de dados de algoritmo e, com isso, consegue transformar perguntas dos usuários em respostas em texto.

O grande diferencial da tecnologia é que as perguntas e respostas dentro dele podem ser criativas e fogem do convencional de explicar algum tema ou questão.

Entretanto, é importante ressaltar que é preciso ter cuidado ao utilizar a plataforma, justamente porque, no próprio chat, existem alguns avisos de limitações. O primeiro é a possibilidade de criação de informações incorretas. Dependendo do questionamento, ele pode, ocasionalmente, produzir instruções prejudiciais ou conteúdo tendencioso. O chat também tem conhecimento limitado do mundo e eventos após 2021.

Para usar o ChatGPT, é preciso criar uma conta no site primeiro. Todo o processo é gratuito e, depois disso, é só começar a usar.

Quatro perguntas para

Leonardo Tomazeli Duarte, professor da Unicamp e diretor científico do Centro de Pesquisa Aplicada em Inteligência BI0S (Brazilian Institute of Data Science)

Quais mudanças devemos esperar no mercado de trabalho?

No curto prazo, deve ter um impacto, sim, com o ChatGPT e outras ferramentas em algumas atividades e a maneira como a gente vai trabalhar. Avalio que o ChatGPT será uma ferramenta que estará à disposição para fazer buscas e muitas atividades precisam disso. Eu vou dar um exemplo: quando começaram a aparecer os primeiros motores de busca, como o Google. Na época tinham também outros motores de busca. Isso ajudou muito. Os advogados passaram a ter acesso a peças jurídicas para fazer uma peça. Vai lá, procura, dá uma olhada. Agora, vai além. A ferramenta vai lá e faz a peça, da maneira como foi pedida, com uma certa precisão. A gente tem visto erros, mas a precisão é bem interessante. Então, eu acredito que as mudanças vão ser na maneira como a gente vai trabalhar, para sintetizar e para fazer buscas assim de uma maneira muito eficaz e sintética, misturando várias coisas ao mesmo tempo.

É um processo de longo ou curto prazo?

Na minha percepção, eu vejo que serão várias etapas. Uma de curtíssimo prazo é essa que eu falei, que já vai sendo usada em algumas atividades, como a elaboração de um código para um programador, a peça de um advogado. No longo prazo, eu acho que é muito difícil a gente prever alguma coisa. A tendência é que a inteligência artificial se aprimore ainda mais. Há de se ressaltar que essas ferramentas são dependentes do conteúdo disponível na própria internet. Elas não criam coisas originais, não são criadoras de conteúdos. Então, quais são os limites desse tipo de geração? Isso deixa uma dúvida ainda. Eu vejo muito mais agora como uma  ferramenta de apoio às atividades.

Quais profissões devem ser mais impactadas com a inteligência artificial? Seria possível fazer uma lista, por exemplo?

Toda profissão que exige uma busca, uma síntese de informação eventual, terá um impacto. Advogado, programador, jornalista são bons exemplos. Tudo que precisa de um primeiro texto, de um ponto de partida, que pode ser feito pela inteligência artificial, estará sujeito ao trabalho da ferramenta.

Há o risco de a inteligência artificial tomar o emprego de um humano?

Como toda revolução industrial, as atividades vão mudando. Então, é possível que algumas atividades se tornem menos relevantes à medida que as ferramentas evoluem. Mas, por outro lado, sempre surgem outras atividades, que vão ser criadas. E sabemos que a inteligência artificial pode ter um limite. A gente vai ver o desenrolar nas próximas décadas, mas entendo que seja um processo de longo prazo, sendo que hoje a gente não enxerga uma troca tão grande.

FRASE

Até agora, a automação estava substituindo as atividades não-cognitivas. E agora isso mudou. Como toda inovação tecnológica, oportunidades são criadas, mas também as já existentes são destruídas. Tarefas que demandam capacidade cognitivas ganharam um forte concorrente”
Hélio Zylberstajn, professor sênior da Faculdade de Economia da USP

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