COLUNA SABER

Menos metas, mais critérios: escolher bem pode ser mais decisivo do que querer muito

No entusiasmo simbólico do início do ano, confundimos movimento com direção e vontade com estratégia

Ana Machado
postado em 04/01/2026 06:00 / atualizado em 04/01/2026 06:00
. -  (crédito: Caio Gomez)
. - (crédito: Caio Gomez)
Janeiro costuma ser o mês da abundância ilusória. Abundam as metas, as promessas e as listas de intenções profissionais. Queremos aprender mais, crescer mais, ganhar mais, mudar mais. O problema não é ambição — é dispersão. No entusiasmo simbólico do início do ano, confundimos movimento com direção e vontade com estratégia. 
Há uma crença silenciosa no mundo do trabalho de que quanto mais objetivos uma pessoa estabelece, mais comprometida ela parece com o próprio desenvolvimento. Na prática, ocorre o oposto. O excesso de metas não revela foco; revela dificuldade de escolha. E, em um ambiente profissional já saturado de demandas, querer abraçar tudo costuma ser a forma mais eficiente de não avançar em nada relevante. 
Planejar a carreira não é empilhar desejos, mas definir critérios. Critérios são filtros invisíveis que orientam decisões quando o tempo, a energia e a atenção são limitados — ou seja, sempre. Profissionais maduros não se destacam por fazerem mais coisas, mas por saberem quais coisas merecem ser feitas agora, quais podem esperar e quais simplesmente não valem o custo. 
É curioso notar como, em janeiro, quase ninguém fala sobre renúncia. Metas são anunciadas como se não exigissem trocas. Mas toda escolha profissional carrega perdas: tempo dedicado a um projeto não estará disponível para outro; energia investida em um aprendizado deixa menos espaço para aprofundar o que já se sabe. Ignorar essas tensões produz planos bonitos no papel, mas inviáveis na vida real. 
Por isso, talvez a pergunta mais honesta para este início de ano não seja “o que quero conquistar?”, mas “o que estou disposto a sustentar?”. Sustentar exige continuidade, não empolgação. Exige aceitar que crescimento profissional raramente é expansivo; ele é seletivo. Avançar implica estreitar o campo de atuação antes de ampliá-lo. 
Critérios também protegem contra a ansiedade comparativa, tão comum no começo do ano. Ao ver trajetórias alheias aparentemente aceleradas, muitos ampliam suas metas como resposta emocional, não estratégica. Definir critérios claros —alinhados a valores, contexto e objetivos de médio prazo — ajuda a resistir à tentação de correr atrás de tudo o que parece relevante para os outros. 
Isso não significa planejar pequeno. Significa planejar com densidade. Um objetivo bem escolhido, com impacto real e conexão com uma trajetória mais longa, costuma gerar mais transformação do que cinco metas desconectadas entre si. Menos metas permitem mais presença, mais qualidade e mais aprendizado genuíno. 
Janeiro pode ser um excelente mês para reduzir, não para inflar. Reduzir expectativas irreais, agendas inchadas e compromissos simbólicos. Em troca, ganhar clareza. Clareza sobre onde investir tempo, quais habilidades aprofundar e que tipo de profissional se quer construir ao longo do ano — e não apenas parecer ser nos primeiros meses. 
No fim, desenvolvimento profissional não é sobre querer mais, mas sobre escolher melhor. E escolher melhor é um ato silencioso, pouco celebrável, mas profundamente transformador. Talvez esse seja o verdadeiro gesto de maturidade para começar o ano: trocar o excesso de metas pela precisão dos critérios. 

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