Eu, Estudante

Mudança de vida

De garçom ao Itamaraty: conheça a história do brasiliense que se tornou diplomata

Em meio a diversas dificuldades, conciliar trabalho e estudo desde os 15 anos, Douglas Rocha foi aprovado no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD)

 
Filho de mãe diarista e de pai pedreiro, Douglas Rocha Almeida, 31 anos, alcançou o sonho de carreira que tanto almejava. Tornou-se terceiro-secretário da carreira de diplomata do quadro permanente do Ministério das Relações Exteriores (MRE). Agora, vai representar o Brasil no exterior, defender interesses dos cidadãos e trabalhar em consulados, embaixadas e fóruns internacionais. Sonho que ainda não passava pela cabeça do jovem em 2010, quando passou por uma mudança de perspectiva brusca.  
Aos 15 anos, Douglas, morador de Luziânia (GO), ingressou no Centro de Ensino Médio Elefante Branco (Cemeb) e também começou a estagiar no Ministério da Fazenda. A remuneração de R$ 290 servia para pagar o transporte público até o Plano Piloto, onde estudava. Durante o estágio, o jovem se interessou pelo serviço público, trabalhando na área de almoxarifado do ministério. Chegou a ser promovido para o setor de tecnologia da informação (TI).  
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Na escola, Douglas comentou que descobriu a possibilidade de ingressar na universidade pública por meio de vestibulares para fazer graduação, hipótese ainda desconhecida: “Até então, nunca tinha ouvido falar da Universidade de Brasília (UnB), eu só fui ouvir falar quando comecei o ensino médio no Elefante Branco, porque era o desejo da maioria dos estudantes de lá”.  

Próximo passo 

A renda mensal de dona Cida, mãe de Douglas e de mais três filhas, variava com base na quantidade de serviços semanais, em média R$ 2.500. Por isso, além do estágio, o jovem disse que trabalhou em uma casa de festas aos fins de semana durante um período: “Primeiro como monitor de brinquedos e fazendo pintura no rosto das crianças”. Em 2014, Douglas conseguiu aprovação com bolsa do Programa Universidade para Todos (Prouni) de 100% para cursar a graduação de relações internacionais na Universidade Católica de Brasília (UCB). Além disso, iniciou o curso de letras-espanhol na UnB.  
Para pagar o transporte do Entorno para o Distrito Federal, começou a trabalhar como garçom, complementando a renda com R$ 300 por fim de semana, além das gorjetas. “O custo da passagem de Luziânia para o Pistão Sul, onde fica a Universidade Católica de Brasília, e depois até a Asa Norte, onde fica a UnB, era muito alto. E também tinha alimentação, tudo isso custeado com o emprego como garçom. Por um breve período, um professor pediu que eu traduzisse os livros dele do português para o inglês, então, fui remunerado por cerca de um ano, em que eu não precisei trabalhar como garçom”, afirmou. “Foram quatro anos de muito sufoco” 
Durante o curso de relações internacionais, o estudante descobriu a profissão de diplomata: “Eu tinha escutado esse nome, mas não sabia qual era a função, e muito menos vislumbrava a diplomacia como opção de carreira”. A decisão pela escolha da profissão veio em 2017, em uma reflexão após a morte da irmã Thayná. “Eu e minha mãe sentimos muito, e um dia, eu pensei no que poderia ser meu futuro e comecei a me decidir pela diplomacia. Mas ainda era um sonho meio distante à época”.  

Novos ares 

O objetivo começou a receber mais atenção em 2018, quando o estudante concluiu as duas graduações. “Fui para o Rio de Janeiro sem conhecer a cidade e com R$ 600 no bolso fazer um mestrado na Escola Superior de Guerra, que é vinculada ao Ministério da Defesa. Passei em primeiro lugar no mestrado e estava com expectativa de receber bolsa” 
Enquanto Douglas não recebia o auxílio, utilizou o dinheiro disponível para morar em uma república de três quartos para 20 pessoas. “Eu peguei meu cartão de crédito com pouco limite, porque eu já tinha gastado bastante para me deslocar com passagem aérea. Comprei macarrão e ovo para viver durante dois meses, no fim desse período, nem ovo havia mais para misturar no macarrão, afirmou. “Emagreci muito até o dinheiro da bolsa sair”, conta. Após a liberação do auxílio financeiro concedido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o jovem começou a se alimentar melhor e alugou um quarto individual em Copacabana. 

Objetivo traçado 

Arquivo Pessoal - Douglas, na sede do Palácio Itamaraty, quer, agora, aposentar a mãe da profissão de diarista
Ao término do mestrado, o brasiliense afirma ter iniciado os estudos para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD): “Em março de 2021, eu dei início aos meus estudos. Em junho de 2021, teve a primeira prova, e eu passei na primeira, o que eu não esperava. Fui fazer a segunda fase e reprovei na prova discursiva de inglês. Fiquei triste por ter reprovado, mas feliz por- que tinha passado na primeira fase, o que eu não esperava com preparação de apenas três meses” 
Douglas revelou não ter focado exclusivamente no concurso em 2022. “Eu estava trabalhando como garçom, também com um professor da UnB ajudando ele a redigir um livro, além disso, fazia freelancers em consultorias políticas. Praticamente três empregos”, comentou. “Eu não consegui estudar quase nada para o concurso, em especial para a prova de língua inglesa. O pessoal que estuda para esse concurso faz, semanalmente, simulados com correções de professores que custam R$ 200, e eu como garçom ganhava R$ 150. Então, eu acabei não fazendo nenhum simulado para o concurso de 2022 e reprovei de novo na segunda fase da prova discursiva inglês”
O edital da bolsa-prêmio de vocação para a diplomacia é uma política pública do Instituto Rio Branco que agracia com R$ 30 mil candidatos negros que foram bem no exame, mas não conseguiram aprovação, para que possam se dedicar ao concurso. Douglas foi contemplado com o auxílio e, finalmente, conseguiu se dedicar 100% aos estudos. “Em 2023, foi o ano que eu quase passei. Dos candidatos que não passaram, eu fiquei em terceiro lugar. Então, cheguei muito perto de ser aprovado. Finalmente, passei da segunda e terceira fase, o que me deixou bastante motivado a continuar estudando” 
No ano de 2024, Douglas voltou a trabalhar presencialmente em uma consultoria política, e novamente conseguiu passar em todas as fases, mas ficou na lista dos não aprovados, em 10° lugar. No ano seguinte, mudou-se para Paranaguá (PR), cidade da esposa, Hellen Leite. Onde mudou de emprego e começou a atuar em home office como especialista em políticas educacionais. No novo trabalho, conseguiu ter mais tempo para focar nos estudos: “Eu recebia uma bolsa para fazer pesquisa para o Ministério da Educação (MEC) de uma política nacional de concepção de dados da educação. Era um trabalho muito bom, meio período e remoto. Então, era bastante flexível para conciliar com os estudos” 
O resultado do concurso de 2025 saiu em outubro, e, finalmente, o nome de Douglas constava dos 50 aprovados entre os 8.861 inscritos. Após a entrega dos documentos e realização de exames, em 22 de dezembro ocorreu a nomeação dos candidatos aprovados. Agora, o Itamaraty tem até 30 dias para realizar a posse dos novos diplomatas. Aos  31 anos, Douglas comentou sobre a expectativa depois de anos buscando a aprovação e conseguir alcançar o objetivo que traçou desde 2017: “Agora,  quero trabalhar bastante. Acho que a minha origem pode agregar muito ao ministério, que precisa de quadros que representem a população brasileira. Como homem negro de origem bastante humilde, posso levar essa visão plural para o exterior” 
Com o salário de R$ 22.558,56, o novo diplomata do Ministério das Relações Exteriores faz planos com a nova remuneração. “O valor que vou pagar de imposto de renda, por exemplo, supera o salário máximo que eu já recebi trabalhando na vida. Então, vai ser uma mudança drástica financeira, o que eu quero fazer com esse dinheiro mesmo é aposentar minha mãe da profissão de diarista, que, apesar de digna, é muito cansativa, principalmente para ela que tem problemas de saúde”, afirmou. “São 40 anos trabalhando como diarista, ela tem problemas no nervo ciático, gordura no fígado grau três, doença de chagas. Então, eu queria que ela trabalhasse com algo mais leve” 
* Estagiário sob a supervisão de Ana Sá