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Por que os professores desistem da profissão?

Número significativo de docentes devidamente certificados está abandonando a profissão. Esse não é um fenômeno brasileiro, mas ocorrem em outras nações, como Canadá, Estados Unidos e Reino Unido

EuEstudante
postado em 12/04/2026 06:00 / atualizado em 12/04/2026 06:00
. -  (crédito:  kleber sales)
. - (crédito: kleber sales)

Um estudo da Unesco de 2025 (Relatório Global sobre Professores: abordar a escassez de professores e transformar a profissão) aponta que até 40% dos novos professores abandonam a profissão nos primeiros cinco anos de trabalho no Canadá, em Hong Kong (RAE da China), no Reino Unido e nos EUA.

Muitos podem pensar que essa ainda não é uma realidade no Brasil, mas cálculos do Profissão Docente, com dados do Inep de 2023 indicam que 59% dos professores permaneceram na carreira nos últimos 5 anos, ou seja, 41% dos professores no Brasil, em 5 anos, desistiram da profissão. Esse não é um fenômeno novo, mas só agora começa a ser percebido, tanto por meio dos dados coletados pelo Inep como no dia a dia das redes públicas de ensino. Número significativo de professores devidamente certificados está prestando os concursos públicos e desistindo da profissão. 
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Nos concursos mais recentes, realizados em algumas redes estaduais de ensino, têm-se observado que, dos aprovados, cerca de 15% sequer chegam a tomar posse. Dentre os empossados, outros 15% pedem demissão no primeiro ano e, já no segundo ano, outros 15% solicitam afastamento por motivo de doença. Tem-se, assim, que, ao final do segundo ano de nomeação, apenas 55% dos concursados estão efetivamente no exercício do magistério atendendo os estudantes. Este é mais um fenômeno que tem obrigado gestores públicos a ampliarem o número de professores contratados por tempo determinado e se organizarem para realizar concursos com mais frequência. 
Então, pergunta-se: por que os professores desistem? Esse é um tema ainda a ser pesquisado, mas podemos levantar algumas hipóteses. Em geral a hipótese mais comum são os baixos salários. No entanto, esses, ainda que não estejam suficientemente competitivos e atrativos, cresceram de forma significativa nos últimos 17 anos. Se tomarmos como referência o piso salarial nacional do magistério, que é base para os reajustes anuais, verificamos uma variação de 412,4% no período, enquanto o IPCA variou apenas 144,1%, tendo ocorrido um expressivo crescimento real dos salários. 

As causas 

Há um descolamento da formação inicial de professores da realidade das salas de aula e do ambiente escolar, ou seja, as licenciaturas estão focadas predominantemente na formação teórica, deixando os professores despreparados para a nova realidade das salas de aula. Quando os professores são expostos à complexidade das salas de aula, eles acabam por desistir, por se sentirem incapazes de conduzir processos de ensino-aprendizagem de forma eficaz. 
Nos anos iniciais da docência, durante o estágio probatório, os professores deviam ser cercados de cuidados de forma a identificar as suas lacunas de formação acadêmica e pedagógica e propiciar um trabalho intensivo de desenvolvimento profissional, o que em geral não ocorre. Assim, os professores ficam expostos à própria sorte, sem o amparo adequado para se desenvolverem e se tornarem capazes de lidar de forma adequada com a complexidade da atividade de ensino dos tempos atuais. Um estágio probatório bem estruturado e eficaz pode contribuir muito para reduzir as desistências. 
Por outro lado, a complexidade da profissão docente e as dificuldades presentes na organização e no dia a dia das escolas públicas, ou seja, as não tão boas condições de trabalho, exaurem a capacidade emocional dos professores levando a elevados índices de adoecimento emocional e afastamento médico. 
Nas escolas regulares, de meio expediente, é excessivo o número de alunos que a maioria dos professores precisa atender para ocupar sua carga horária. Esse problema pode ser parcialmente resolvido com a ampliação da educação integral em tempo integral, situação em que os professores podem ser mais bem acolhidos, se garantidos a eles dedicação exclusiva a uma única escola e o atendimento a um número mais reduzido de estudantes.
Por fim, é importante considerar, também, que o Brasil está passando por uma nova situação de níveis elevados de ocupação e baixos índices de desemprego (5,2% em 2025), o que aumenta a competição no mercado de trabalho por mais trabalhadores, sobretudo de trabalhadores qualificados, como é o caso dos professores, que têm nível superior. Verifica-se, também, uma tendência de aumento dos níveis salariais do mercado de trabalho, o que pode atrair muitos professores. 
Nos próximos anos, duas medidas serão fundamentais no campo salarial. A primeira é assegurar aumentos reais contínuos para os salários iniciais do magistério, algo que parece estar contemplado na medida provisória que instituiu o novo critério de reajuste do piso. A segunda é promover, por parte de estados e municípios, a reestruturação das carreiras, garantindo perspectivas concretas de progressão remuneratória ao longo da vida profissional, com base em processos criteriosos de avaliação de desempenho. 
Há muito o que fazer para que os professores não desistam da profissão! 

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