DEFESA NACIONAL

Histórias de oficiais mostram as vantagens e desafios de trabalhar nos quadros do Exército brasileiro

Existem cinco formas de ingressar como militar no EB: oficial de carreira (ensino médio); oficial de formação específica (ensino superior), sargento (nível médio/técnico), militar temporáio e serviço militar obrigatório ou voluntário

Ian Vieira*
postado em 05/04/2026 06:00 / atualizado em 05/04/2026 06:00
Tenente Tumim orienta, acompanha e lidera o grupo de recrutas voluntárias
 -  (crédito: Fotos: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
Tenente Tumim orienta, acompanha e lidera o grupo de recrutas voluntárias - (crédito: Fotos: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

A busca por estabilidade profissional, aliada ao interesse pelas atividades  militares, foram fatores determinantes para a 1ª tenente Rebeca Ortiz Barbosa, 25 anos, ingressar no Exército Brasileiro. “Além disso, a carreira militar oferece a oportunidade de servir ao país, desenvolver valores como disciplina e liderança, e vivenciar experiências únicas que contribuem para o crescimento pessoal e profissional”, mostra a 1ª tenente.

Ela está na carreira militar há, aproximadamente, oito anos, período que inclui a formação e o início da trajetória como oficial do Exército Brasileiro. O ingresso ocorreu por meio da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), que é uma das principais portas de entrada para a formação de oficiais combatentes da linha de ensino militar bélico, com posterior formação na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). 
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A militar aponta que a principal dificuldade que enfrentou foi a elevada exigência física, característica da formação militar. “No entanto, esse desafio é progressivo e acompanhado por uma preparação adequada, o que permite ao militar desenvolver resistência, disciplina e superação. Ao longo do processo, essas exigências contribuem significativamente para a formação integral do oficial”, explica. 
 “A formação militar contribuiu diretamente para o desenvolvimento do autocontrole, do equilíbrio emocional e da capacidade de tomada de decisão sob pressão. Esses atributos não se restringem ao ambiente profissional, refletindo, também, na vida pessoal, nas relações interpessoais e na forma de lidar com desafios cotidianos”, acrescenta. 

Comandante de pelotão 

A tenente Tumin é uma das oficiais responsáveis por comandar um dos primeiros pelotões formados por mulheres que ingressaram no serviço militar voluntário inicial, aberto ao público feminino pela primeira vez. Na prática, ela está no dia a dia com essas jovens recrutas, que estão vivendo algo totalmente novo: a experiência de servir como soldado. São meninas que chegaram agora e estão se adaptando à vida militar. 
Como comandante de pelotão, a tenente Tumim orienta, acompanha e lidera esse grupo desde o início da formação. Ela participa diretamente da instrução, do desenvolvimento e da adaptação dessas recrutas, ajudando a transformar civis em militares. Essas recrutas também têm um papel muito importante: elas representam uma nova fase dentro do Exército. São pioneiras, abrindo caminho para que outras mulheres também possam ocupar esse espaço no futuro. Ao mesmo tempo, enfrentam desafios naturais de quem está começando — como a saudade de casa, a adaptação à hierarquia e o esforço físico —, mas também demonstram motivação, vontade de aprender e espírito de equipe. 
A tenente Tumim acaba sendo, além de comandante, uma referência próxima para essas jovens, ajudando a construir confiança e mostrando, na prática, que a presença feminina no Exército é cada vez mais consolidada. 

Ingresso no exército 

Existem cinco formas de ingressar como militar no EB:  como oficial de carreira (ensino médio); oficial por formação específica (ensino superior);  sargento (nível médio/técnico); militar temporário e serviço militar obrigatório. Cada maneira possui as exigências, progressões de carreira e possibilidades de entrada específicas. A promoção da ex-coronel Cláudia Lima Gusmão Cacho ao posto de general de brigada representa um marco institucional e reflete a evolução da presença feminina na Força. É a primeira vez que uma mulher alcança o patamar de general. A nomeação ocorreu na última terça- -feira (31/3), pelo Presidente Luis Inácio Lula da Silva. 

Oficial de carreira 

O militar se classifica por concurso para Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx). Após formação básica militar e acadêmica de um ano na EsPCEx, caso aprovado em todos os requisitos, torna-se cadete por quatro anos na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman); ao fim do curso progride a aspirante-a-oficial e passa por estágio probatório de um ano. 
Após o período com avaliação positiva, é promovido a segundo- -tenente e se torna oficial de carreira. O salário base é de R$ 8.179, com adicionais de benefício por disponibilidade, função, localidade, cursos e especializações, varia de R$ 10 mil a R$ 12 mil. A patente máxima possível para progressão nesse modelo de ingresso é de general e a ida para a reserva remunerada acontece após 35 anos de prestação de serviços. 

Formação específica 

O ingresso ocorre por concurso público destinado a profissionais que já possuem diploma de ensino superior em áreas específicas. As principais escolas de graduação para esse meio de entrada são a Escola de Formação Complementar do Exército (EsFCEx) e o Instituto Militar de Engenharia (IME). Após aprovação nas etapas do processo seletivo, o candidato realiza o Curso de Formação de Oficiais (CFO), voltado à adaptação militar, no qual recebe instruções sobre rotina, disciplina e organização das Forças Armadas do Brasil. Ao concluir essa etapa, o profissional é declarado oficial e passa a atuar na área de formação. 
Após período inicial de adaptação, o militar segue carreira na hierarquia dos oficiais e pode alcançar postos superiores conforme tempo de serviço, cursos obrigatórios e critérios de mérito. O ingresso ocorre no posto de primeiro-tenente, a depender do quadro e da área de formação, com salário base de R$ 9.004 e possibilidade de alcançar R$ 12 mil com adicionais. A patente máxima possível neste quadro varia de acordo com a área, podendo chegar até a coronel ou general, e a ida para a reserva remunerada ocorre após cerca de 35 anos de serviço.  
»ENTREVISTA | CORONEL ANA MARIA JORGE TEIXEIRA | 53 ANOS (IME)
Quartel General do Exército. Coronel Ana Maria
Quartel General do Exército. Coronel Ana Maria (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

“Vale a pena contribuir para o desenvolvimento e a defesa do nosso país” 

Há quanto tempo está na carreira militar?
29 anos. 
Como a senhora ingressou no Exército? 
Fui aprovada em concurso público para o Instituto Militar de Engenharia em 1996, já como engenheira civil formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1995. Em 1997, realizei o Curso de Formação de Oficiais naespecialidade de engenharia de fortificação e construção no Instituto Militar de Engenharia e, nesse mesmo ano, ingressei no Quadro de Engenheiros Militares do Exército. 
Quais as dificuldades que enfrentou no processo de formação militar no início da carreira?
Não enfrentei dificuldadessignificativas, pois o curso deformação foi muito bem estruturado e conduzido por instrutores altamente capacitados. Alémdisso, sempre fui disciplinada,organizada e motivada a aprender. Também trouxe da minhaformação familiar valores quesão igualmente cultivados pelasForças Armadas, como honra,lealdade, camaradagem, respeitopelas pessoas e o profundo sensode cumprimento do dever.
Como a formação militar impactou sua vida pessoal?
A carreira militar me proporcionou conhecer diferentes regiões do Brasil, como a Amazônia e o Centro-Oeste, além da República do Quênia, na África, permitindo-me vivenciar distintas culturas e realidades. Também me possibilitou construir laços sólidos de amizade por meio da profissão. Além disso, a experiência na vida militar contribuiu significativamente para o desenvolvimento de atributos como liderança, trabalho em equipe e capacidade de gestão de pessoas e recursos.  Não enfrentei dificuldades significativas, pois o curso de formação foi muito bem estruturado e conduzido por instrutores altamente capacitados. Além disso, sempre fui disciplinada, organizada e motivada a aprender. Também trouxe da minha formação familiar valores que são igualmente cultivados pelas Forças Armadas, como honra, lealdade, camaradagem, respeito pelas pessoas e o profundo senso de cumprimento do dever.
Que conselho daria a um jovem que deseja seguir carreira militar?
Vale muito a pena seguir a carreira militar e contribuir para o desenvolvimento e a defesa do nosso país. Para isso, é importante buscar informações sobre as diversas possibilidades de ingresso nas Forças Armadas. A partir daí, definir o objetivo a ser alcançado e traçar uma estratégia para conquistá-lo, dedicando-se aos estudos, buscando constante capacitação e procurando sempre dar o melhor de si. Na minha área, tive a oportunidade de realizar os cursos de mestrado e doutorado, atuar como professora e pesquisadora, elaborar projetos de engenharia, chefiar uma Comissão Regional de Obras, realizar cursos de altos estudos voltados ao assessoramento em nível estratégico, exercer a função de subdiretora de obras militares e, atualmente, de diretora de Projetos de Engenharia. Essa trajetória me proporcionou uma profunda realização profissional.  
Como vê o futuro do Exército Brasileiro nos próximos anos? 
Mantém-se como uma instituição de Estado, alicerçada em valores e tradições sólidos, que busca pessoas capacitadas e comprometidas com o serviço ao paíse com o desenvolvimento nacional. É também uma instituição que procura ocupar seus cargos e funções de acordo com a qualificação, a especialidade ea capacidade de cada militar, seja homem, ou mulher.
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá   

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